Deus, ninguém me ama também [Republicação]

Eu lembro que, logo no início do filme A Bela e a Fera, o narrador fecha a introdução dada à estória com essa pergunta: “Pois quem seria capaz de amar um monstro?”. Um ótimo começo, porque resume bem o excelente enredo e a moral dessa fábula, uma vez que o bom-senso nos leva a pensar que um amor entre uma mocinha linda e uma criatura horripilante seja mesmo impossível. A expectativa, então, é a de que o conto de fadas venha a nos mostrar que estamos errados, e nos surpreenda com um final maravilhosamente inesperado.

Mas o mundo real não é assim tão surpreendente. Não fui eu que fiz essa lei, mas quando uma coisa tem chance de dar errado, ela vai dar errado. Se você quer namorar uma princesa, ajuda mais ser o príncipe do que ser o sapo. E se você é um Deus carente que precisa muito de amor… então é melhor fazer por onde.  

Veja os cristãos, por exemplo: depois de se darem conta de quão monstruoso era o Deus hebraico, resolveram acorrentá-lo às páginas do Antigo Testamento, e lá o esqueceram. Já tendo feito o que lhe cabia — criar o mundo e lançar sobre ele sua maldição — Deus agora é convenientemente usado apenas como ameaça: um pitbull raivoso que eles prometem soltar nas fuças de quem não simpatizar com o deus do Novo Testamento — Jesus Cristo —, em tudo e por tudo diferente do Deus-monstro que eles se viram incapazes de amar. 

Pelo dogma da Santíssima Trindade (em que entra, também, o Espírito Santo, que nem fede nem cheira), admite-se que Deus e Jesus sejam uma e a mesma “pessoa”. Mas isso é só mais outra das incontáveis e embaraçosas contradições da doutrina católica, porque as diferenças não poderiam ser maiores. 

Deus era o deus dos hebreus, o deus do “povo escolhido” (escolhido por ele, Deus); Jesus é o deus de qualquer um que se disponha a trocar demonstrações carnavalescas de amor fingido por um salvo-conduto que o livre do castigo de ser torturado por toda a eternidade (ameaça feita por ele, Jesus). 

Deus cuidava exclusivamente dos hebreus e estava sempre do lado deles nas trincheiras; Jesus não tem nada de belicoso e, aparentemente, não faz distinção étnica.

Deus afogou quase todo mundo na Terra, incitava guerras, matava e mandava matar; Jesus não é afeito a genocídios e sempre foi infinitamente mais diplomático.

Deus criou o universo todo, junto com tudo que há nele; Jesus se contentou em fazer apenas alguns truques de circo.

Mas se o Pai era o Verbo, o Filho do Homem foi o Discurso. E graças a uma conversa mole sobre recompensa em outra vida; graças à ameaça de entregar os dissidentes aos cuidados do Deus do Antigo Testamento, dois mil anos depois, Jesus é o único deus dos cristãos. Eles veneram sua imagem; eles fazem músicas em seu louvor; eles divulgam suas ideias e pregam em seu nome; eles o bajulam; eles recontam suas aventuras para as crianças; eles comemoram o dia do seu aniversário.

De hoje em diante, quando baterem à sua porta nas manhãs de domingo, nos sermões das igrejas, nos shows de horrores dos programas religiosos na tevê; e sempre que vierem falar de “Deus” para você, tente perceber a que deus eles estarão se referindo, a que deus eles estarão dirigindo suas lamúrias, a que deus eles invocam para agradecer e para suplicar, a que deus eles dizem que amam. Eu sou capaz de apostar que será o deus do Novo Testamento.

O outro, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, permanecerá acorrentado e esquecido na solidão daqueles milênios longínquos, até o fim dos tempos.

Pois quem seria capaz de amar um monstro?

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Uma história sem final feliz (Pt. 2)

olhos

O primeiro e-mail que ela me mandou tinha a data de 25/12/2010. Nele, ela me parabenizava pela minha série de textos Nada a ver com Deus, que ela tinha acabado de ler naquele dia. Foi um e-mail longo e bem escrito, em que ela dizia que tinha encontrado, no meu blog, algumas respostas às perguntas que nunca teve coragem de se fazer sobre Deus. E terminava dizendo ter recebido o link para aquele texto de uma “amiga do trabalho”. 

Eu respondi o e-mail dela com um outro ainda mais longo, agradecendo pelo carinho e pela atenção que ela teve para com esse escritor frustrado, e também por todos os elogios que ela me fez e que, certamente, eu não merecia.

Foi assim que começou. Ela me mandou um e-mail. E eu respondi. Não deveria ser novidade pra ninguém que certas pequenas coisas que fazemos (ou que deixamos de fazer) podem, sim, ter consequências que não nos seria possível sequer imaginar; às vezes muito boas, às vezes muito ruins. Ainda não consigo classificar em qual dessas categorias ela, enfim, veio a se enquadrar, após esse nosso primeiro&último encontro.

Para não correr o risco de transformar esse penoso relato num romance mal escrito e mal intencionado, eu preciso comprimir os acontecimentos em pacotes, por sua vez espremidos em frases, cuja única função é servir de apoio para as entrelinhas, que é onde a história vai ser contada.

Os e-mails. Foram muitos. Às vezes três num único dia. Cada vez mais longos, mais íntimos (sem conotação sexual), mais dependentes de uma resposta. E em nenhum deles ela me revelava quem realmente era. No começo, mentiu dizendo-se casada. Depois, confessou que não queria se envolver além da conta comigo; por isso “essa reserva”: queria ter sempre em mente que era ela quem tinha o controle da situação, e, caso quisesse parar “aquilo”, não iria depender da minha permissão. Ela perguntou se eu topava, e eu topei. Alguma coisa me dizia que “aquilo” não iria parar ali. E realmente não parou.

Quando passamos a conversar online, câmeras não eram permitidas. A essa altura, eu já  era uma espécie de confidente, de amigo virtual, de sei lá o quê, mas eu me tornei muito importante pra ela, a ponto de, cinco meses depois daquele primeiro e-mail, ela me dar o número do seu celular, mesmo ainda morrendo de medo de que eu “reconhecesse a voz”, como me confessou durante nosso encontro em São Paulo. Mas não reconheci, porque quase não assisto tevê, e a última coisa que veria na televisão seria uma novela. Mesmo assim, ela só fez umas duas ou três, e nunca foi protagonista.

Depois que eu passei a ouvir sua voz, sua risada, sua respiração, eu me apaixonei de vez. E deve ter acontecido o mesmo com ela, porque, a partir daí, eu me tornei seu amante, se você não levar em conta o fato de que não podia vê-la, nem tocá-la. Mas paixão é uma droga, e para quem está drogado, esse tipo de “deficiência”, de “falha do processo”, é um detalhe perfeitamente esquecível.

Foram dois chips da Vivo que nos possibilitaram cometer essa imprudência — ou, antes, essa imbecilidade — de nos esquecermos, durante quatro longos meses, de que os momentos juntos que passamos com as orelhas espremidas contra o celular não eram em nada diferentes daqueles que o viciado passa ao lado de sua seringa vazia, enquanto desfruta de um breve instante de felicidade indizível, que ele jamais poderia encontrar no mundo real à sua volta.

A nossa felicidade era intensa, mas também era uma farsa. Para nós, entretanto, ela era tão real e tão prazerosa que nos viciamos nela. Nós nos desprendemos completamente da realidade e nos recusamos a aceitar o óbvio: que tudo aquilo era apenas uma ilusão que construímos dentro das nossas próprias cabeças, uma fantasia que só se sustentava durante uns poucos minutos, e que nos deixava tão intoxicados de amor, desejo e tesão um pelo outro, que passamos a viver dependendo dessa droga, ao custo de vinte e cinco centavos a picada.

Foi ela quem sugeriu o encontro. Estava “desesperada” pra me ver, segundo ela mesma me disse. Em dezembro próximo já iríamos completar um ano de “relacionamento”. Eu fui. Viajei para São Paulo e me hospedei no motel mesmo em que marcamos de nos encontrar. Liguei pra ela de lá, na noite anterior. Ela estava tão excitada que quis fazer amor virtual na véspera do encontro. Eu disse não. Já estava cansado daquilo. E, dando tudo certo, no dia seguinte eu a teria nos meus braços para fazer amor de verdade. Finalmente.

A vida é uma comédia. E nós somos, às vezes, uns palhaços mesmo. Eu deveria ter aproveitado o momento — e a proposta — e ter feito amor com ela por telefone. Porque seria a nossa última vez. Mas eu não tinha como saber que, no outro dia, logo depois de me ver, ela iria se curar dessa doença chamada paixão.

Eu estava esperando encontrar uma moça comum, de beleza comum, com uma vida comum. Ela estava esperando encontrar o quê? Um príncipe? Quando abri aquela porta de motel pra deixar ela entrar na suíte Mil e Uma Noites, a moça comum, de beleza comum, que achei que ela fosse não estava lá. Essa surpresa me fez arregalar os olhos o máximo que eu podia, mesmo sem acreditar em nada do que eles viam. E meu próprio rosto era como um espelho refletindo o espanto no rosto dela. Mas o que em mim era deslumbramento, nela era só decepção, porque, no lugar do príncipe que ela esperava, a vida também tinha lhe enviado uma outra pessoa.

Eu..


Uma história sem final feliz (Pt. 1) [Republicação]

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Aeroporto de Guarulhos, São Paulo, Terminal 2, Asa D.

Agora são exatamente… 17h37min do dia 17 de outubro de 2011. Estou escrevendo esse texto numa cadeira bem desconfortável de uma lanchonete. Meu voo sai daqui a três horas e, caso não desista da ideia, pretendo agendar esse texto para ser publicado automaticamente no blog às 00h00min do dia 18, horário do Nordeste, que é pra onde eu estou indo.

Antes de vir pra cá, pro aeroporto, eu estava num motel, acompanhado da mulher mais linda que já vi na vida: uma atriz da Rede Globo, solteira, já perto de completar 25 anos de idade, e que fez umas 3 novelas eu acho (não sei ao certo pq não vejo novela) e não está em nenhuma agora. Isso é tudo que vou dizer sobre ela, por 3 motivos:

1. cavalheirismo;

2. porque ela me fez prometer que nunca falaria nada a respeito; e

3. porque ninguém iria mesmo acreditar se eu dissesse quem era.

O fato da gente não ter transado, mesmo ela tendo passado boa parte da manhã comigo naquele motel, almoçado comigo, e me dado um beijo na boca antes de sair pra sempre da minha vida, não é, nem nunca seria um quarto motivo. Eu teria guardado segredo do mesmo jeito, se a gente tivesse feito o que foi lá pra fazer. Só que com melhores lembranças do que as que ela me deixou.

Por que eu estou fazendo isso? Escrevendo essa introdução às pressas? Por 3 motivos também:

1. eu tomei umas doses de vodka;

2. começando o texto agora (com essa coragem irresponsável, com essa raiva indisfarçável e com a decepção insuportável), eu me obrigo a contar o que aconteceu, porque, mesmo sem ter um final feliz,

3. essa é uma daquelas histórias que merecem ser contadas.

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O bê-a-bá da Evolução [Republicação]

Traduzi um vídeo excelente, que explica de uma forma simples e ilustrada, o que é a Teoria da Evolução e como ela acontece.

As flores do mal [Republicação]

Chamava-se Margarida. Era natural de Itabuna, Bahia; loira, muito bonita, e ganhava a vida como prostituta. Isso é tudo o que eu sei sobre a minha mãe.

Desde que me entendo por gente, sempre soube da história. Pelo menos do modo como ela me chegou aos ouvidos.

Minha mãe, já  comigo na barriga, embarcou na boleia do caminhão do meu “pai adotivo”, para ir morar com ele na cidade de Castanhal, no Pará. Como meu “pai” vivia viajando, depois que eu nasci minha mãe também não parava em casa (certamente ganhando seu próprio dinheiro com seu ofício) e, mui provavelmente, quem tomava conta de mim era a minha “avó”, D. Rosa.

Por conta de desentendimentos entre a minha mãe e a minha “avó”, que era viúva e morava na casa de meu “pai” também, D. Rosa, um belo dia, quando só estávamos os dois em casa, arrumou as trouxas e me levou no colo até a BR, onde fomos de carona até Belém. Lá ela pegou um ônibus até Sobral, no Ceará, de onde seguimos para Coreaú, uma cidadezinha minúscula onde moravam alguns dos seus parentes mais próximos.

Eu devia ter, então, uns 2 anos de idade e havia sido raptado. Mas eram os últimos anos da década de 70 e, ao que parece, a coisa ficou por isso mesmo.

Nós fomos morar na casa de um irmão da minha “avó”, que era um tipo de açougue: uma vendinha malcheirosa com peças de carne espalhadas por todo canto, penduradas em ganchos no teto e em cima de uma bancada de mármore repleta de moscas. Dizem que minha “avó” foi solicitada a ajudar na venda, ou nas tarefas da casa, que eram muitas, visto que, contando com nós dois, éramos oito pessoas dividindo uma casa de seis cômodos, e era preciso cuidar da venda, da casa e das crianças; eu incluso.

Minha “avó” não quis fazer nem uma coisa nem outra e, menos de um ano depois, voltou para Castanhal, com um peso a menos na bagagem: eu.


Morei na casa do açougue até os meus nove anos. Muito cedo fui engajado nos serviços domésticos e, quando já mais grandinho, o açougueiro encontrou em mim uma excelente serventia: ele me mandava ir até a casa da dona fulana saber se ela iria querer carne para o almoço; eu ia correndo, perguntava, e voltava correndo. Se a freguesa fazia o seu pedido, eu levava a encomenda e trazia o dinheiro. Quando o serviço de entregas findava, eu tinha a incumbência de ficar no açougue ajudando o homem e, no fim do dia, cabia a mim limpar a venda.

Passei a minha infância trabalhando como um escravo, mas embora levasse umas palmadas às vezes, não lembro de ter sofrido violência física. Pelo menos até quando o açougueiro descobriu que a sua filha mais velha estava me usando para um sem-número de brincadeirinhas sexuais. E ele só descobriu porque a segunda mais velha deu com a língua nos dentes, provavelmente porque a outra não queria que ela participasse dos folguedos… Levei a maior surra da minha vida. O homem só parou de me bater quando estava já sem forças. Sorte minha que era um gordo velho e asmático.

Depois disso, minha presença na casa ficou impossível. O homem queria me jogar na rua, sem eira nem beira, e a mulher queria que eu fosse levado de volta para a casa do meu “pai adotivo”, no Pará. Como não havia quem pudesse me levar, muito menos dinheiro disponível para a empreita, acabaram me despachando para ir morar com uma parenta da mulher do açougueiro, que era amigada com um pedreiro e morava numa casinha de dois cômodos no meio do nada. Como também não havia nada para fazer, a minha nova “mãe” resolveu me ensinar a ler e a escrever para passar o tempo. Ela conseguiu me alfabetizar antes que eu completasse onze anos e me deu o primeiro livro que li na vida: O Príncipe, de Maquiavel.

Mas logo estavam os dois discutindo o que fazer comigo, pois o pedreiro havia resolvido ir tentar a vida em São Paulo. Ele queria levar minha tutora junto, mas sem o pupilo. Acabou por se resolver que, no caminho para o sul do país, eles me deixariam com a mãe dela, na cidadezinha de Pacatuba, região metropolitana de Fortaleza, no Ceará.

Antes de fazer doze anos, numa noite de chuva forte, fui entregue aos cuidados de uma quarta família: a mãe da minha antiga tutora, seus dois filhos com suas respectivas esposas, e sua neta, filha de um dos casais, uma moreninha linda, uns dois anos mais velha do que eu, com cabelos castanhos longos que se desmanchavam em ondas cintilantes pelas suas costas e pelos seus seios voluptuosamente precoces de menina-moça.

Naquela primeira noite na minha nova casa, lembro de ter sentado na minha rede antes de dormir e de ter agradecido longa e fervorosamente a Deus, não pela sorte de ter encontrado um novo lar, mas por minha antiga tutora não ter tido tempo de contar para a minha nova família o episódio ocorrido com a filha do açougueiro, o motivo de eu ter estado sob a sua guarda.

Lembro da certeza que tinha de que Deus havia ouvido os meus sussurros por entre os trovões que ribombavam nos céus acima, e lembro de que fiz o sinal da cruz sorrindo, enquanto me acomodava na minha rede armada a menos de um metro da entrada do quarto sem porta da minha doce e linda Hortência.

Hydrangea macrophylla (Hortênsia)


Os trabalhos braçais a que sempre fui submetido desde pequeno me garantiram uma compleição física acima da média para a minha idade e, como já disse, minha mãe era uma mulher bem bonita e acho que herdei um pouco dos seus traços. Se por isso ou porque ela nunca havia tido por perto nenhum rapazinho loiro de olhos verdes tão afoito, eu nunca vou saber, mas Hortência se entregou a mim em menos de uma semana. Conhecemos o sexo um com o outro numa madrugada friorenta, na terceira ou quarta vez em que, sorrateiramente, eu deslizei da minha rede para dentro do seu quarto desprotegido. E ela precisou sufocar a dor da despedida da sua inocência em lençóis de retalho que cheiravam a sabão em barra.

Durante o dia, mal nos víamos e sequer nos falávamos, mas à noite, eu tinha sempre a oportunidade de deslumbrá-la com os truques que a filha do açougueiro havia me ensinado. Ela passava as manhãs na escola e as tardes na casa de uma tia, mais para o centro da pequena cidade. Voltava no começo da noite, de carona com o pai, e fingia que eu nem existia. Mas quando eu a despertava nas madrugadas, ela me abraçava em silêncio e me beijava longamente.

Nossos encontros clandestinos eram perigosamente ameaçados por qualquer barulho que houvesse, dentro ou fora da casa. Se ela, alguma vez, disse que me amava ou que gostava de mim enquanto eu a tinha em meus braços, eu nunca ouvi. Seus sussurros eram sempre mais fracos que o vento de inverno que soprava forte por entre as telhas da casa, ou eram abafados pelo pulsar violento do sangue nas minhas têmporas.

E assim se passavam os dias e eles eram sempre os mesmos: uma luta constante contra o sono e uma ânsia desesperada para que o sol logo sumisse no horizonte. As noites, por sua vez, nunca eram iguais. Às vezes a família estava muito estressada fosse com o que fosse, e as pessoas acordavam com frequência para tomar água, ou ir ao banheiro, ou mesmo para conversar de madrugada fumando cigarros intermináveis. Às vezes Hortência passava quase uma semana menstruada e não me deixava chegar perto. E as noites de lua cheia eram proibidas para nós, porque o interior da casa ficava por demais iluminado, e a consumação do nosso delito carecia do manto perfumado das trevas. Não fossem esses intervalos, eu provavelmente a teria engravidado e as coisas teriam sido diferentes. Pra pior, com certeza.

Desnecessário dizer que eu me apaixonei. Desnecessário dizer, também, que eu não sabia nada da vida; muito menos de mulheres.

Uns seis meses depois da minha chegada, a avó de Hortência, D. Dália, achou que minha ajuda nos serviços da casa e na lida com os animais era um luxo que ela podia dispensar, e me conseguiu um emprego com um vizinho dono de uma leiteria. Eu iria limpar o curral das vacas, todos os dias, e vender o esterco na cidade.

Não sei por que, mas não me pareceu a pior coisa do mundo à primeira vista. Mas quando, por acaso, passando pela rua do colégio dela, Hortência me viu empurrando meu carrinho carregado de bosta, a noção do mundo em que eu vivia desmoronou sobre mim, como um prédio desmorona ao ser implodido.

Enquanto eu passava na frente da escola, dificultosamente desencalhando o carro de estrume do atoleiro da rua de barro, vi e ouvi as garotas rindo alto enquanto me encaravam. Apesar de me acompanhar com os olhos surpresos enquanto eu desfilava a minha indigência à sua frente, percebi que Hortência não ria com as outras, nem tinha a menor expressão que denunciasse que pretendia fazê-lo.

Seu rosto era pura decepção. Ou vergonha. Ou as duas coisas juntas.

Era semana de lua cheia. Na lua nova seguinte, eu ouvi, pela primeira e última vez, a voz dela se elevar acima do vento que zunia por sob as telhas do quarto escuro. Ela disse apenas um “Sai daqui”, como se falasse a um cachorro, e nunca mais permitiu que eu a tocasse de novo.

Dahlia pinnata


Tudo bem, paremos por aqui. Essa biografia é falsa.

Por que eu estaria escrevendo uma relato fictício sobre a minha própria vida? Ah, essa resposta só eu tenho. Já dizia o poeta que “até nas flores se nota a diferença de sorte: umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte”. Mas como há o jardineiro que não conhece o destino de suas flores, também há o que as cultiva para um determinado fim.

Ainda que eu continuasse com a farsa e postasse toda a minha “biografia” aqui no site, não é difícil de imaginar que, se fosse do interesse de alguém, eu poderia ser desmascarado fácil, fácil. Um detetivezinho de subúrbio não passaria mais do que uma semana pesquisando meus rastros, reais e virtuais, até achar, pelo menos, algum documento meu que contivesse minha filiação, ou encontrasse um conhecido, um parente, um colega de trabalho, que pudesse, enfim, dizer-lhe que minha vida não tem nada a ver com essa história. Isso sem contar que ele não precisaria fuçar muito se tivesse escolhido investigar aqui mesmo no blog, uma vez que três ou quatro leitores já perceberam o embuste.

Agora, imagine que o Barros, com tempo e alguns rolos de pergaminho de sobra, tivesse tido a mesma ideia uns dois milênios atrás. Eu iria mostrar meus escritos a uma meia dúzia de pessoas (era uma época em que apenas uns poucos sabiam ler e escrever) e só. A brincadeira parava por aí. Entretanto, meus pergaminhos iriam, certamente, sobreviver a mim e seriam guardados com carinho, visto que toda produção literária naqueles tempos era um luxo, um sinal de status, e dali a pouco, numa sociedade em que a expectativa de vida era de três décadas e as pessoas sequer tinham sobrenome, tudo o que o mundo teria sobre mim seria justamente o que eu mesmo escrevi.

Algum leitor que tomasse meus textos para ler, nos séculos seguintes, não teria a quem recorrer, nem ao que recorrer, para se certificar se o que estava ali escrito seria ou não a verdade sobre o autor. Se ninguém mais havia escrito sobre o Barros, aquele leitor chegaria à conclusão de que o Barros teria sido uma figura bem comum de sua sociedade, sem absolutamente nada de extraordinário, e que teria que se conformar com a única coisa que havia sobrevivido a ele: sua autobiografia.

“ — Ora, por que uma pessoa deixaria para a posteridade uma história fictícia sobre sua própria vida? O mais provável é que esse Barros tenha relatado fielmente o que lhe aconteceu nos seus tristes dias sobre a terra…”

E a partir daí, se, por acaso, eu ganhasse a fama que nunca havia tido, tudo o que se escreveria sobre mim seria baseado naquele texto inicial, que só eu e os defuntos que me conheceram em vida sabiam se tratar de uma história inventada.

Quando um crente rechear seus argumentos e exaltar sua própria moral duvidosa com versículos de uns certos textos escritos há vinte séculos, tente pensar nas minhas Flores do Mal, uma história que eu criei e na qual você  se veria tentado a acreditar se a tivesse lido 2 mil anos após a minha morte. Acho que essa lembrança vai te inspirar a conduzir a discussão. E, sobre os Evangelhos, vale a pena dar uma lida nessa tradução que fiz, em que uma avaliação minuciosa revela que os seus autores eram apenas dois, e que não viveram na mesma época de Jesus.

Será que o que esses dois escreveram era a descrição fiel da realidade que foi presenciada por terceiros? Ou será que poderia ser apenas um história inventada com intenções que supomos, mas não podemos provar?

O resultado do trabalho deles está aí nas ruas, em cada esquina. Mas não se esqueça de lembrar a todos quantos puder: não há nada que não nos permita pensar que tudo isso não passa de uma grande mentira.

Publicado originalmente Aqui, em março de 2010, em quatro partes.

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Quando publicou, em 1857, As Flores do Mal (Lês fleurs du mal), o poeta francês Charles Baudelaire fincou o marco a partir do qual se estabelecia a poesia moderna e simbolista. Entretanto, sua obra-prima escandalizou a sociedade parisiense de então, despertou hostilidades na imprensa e foi considerada imoral, sendo, por fim, proibida de circular.

As Flores do Mal reuniam uma série de temas de toda a obra do poeta: a queda, a expulsão do Paraíso, o amor, o erotismo, a decadência, a morte, o tempo, o exílio e o tédio. A primeira edição era constituída por 1300 exemplares em papel Angoulème e 10 em papel Vergé. Os editores tinham guardados 200 exemplares da obra original e, para não terem que destruir os livros, condenados em sentença judicial, limitaram-se a destacar todos os poemas proibidos de todos os volumes. Nasciam assim os “exemplares amputados”, que valem uma fortuna atualmente.

Em 1992, As Flores do Mal foi, pela primeira vez, publicado com texto integral.

Neste livro atroz, pus todo o meu pensamento, todo o meu coração, toda a minha religião (travestida), todo o meu ódio.”

(Baudelaire)

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7 mitos sobre Deus (Pt 2) [Republicação]

Para a autora de The Case for God, traduzido na matéria por “Uma defesa para Deus”:

“Religiões nos ajudam a lidar com os aspectos da vida para os quais não existem respostas fáceis: a morte, a dor, o sofrimento, as injustiças da vida e as crueldades da natureza.”

Primeiro que a natureza não pratica nenhum tipo de “crueldade”. Para ser ainda mais preciso, a natureza nem mesmo “pratica” nada. Esse tipo de personificação anacrônica seguramente depõe contra a inteligência de quem a evoca.

Segundo: morte, dor, sofrimento e injustiças são inerentes à vida e é possível analisar e entender essas coisas de uma forma perfeitamente racional, sem recorrer a um sem-número de explicações infundadas elaboradas por pessoas que não tinham como saber mais sobre tais temas do que você mesmo sabe.

Na continuação da reportagem, são apresentados um católico, um muçulmano, um evangélico, um judeu e um budista, cada um respondendo a uma proposição. Na primeira, “Deus está morto”, o líder de uma comunidade islâmica afirma que “a crença em Deus é um acessório original de fábrica do ser humano”, o que me fez enviar um comentário sobre a matéria para o site de Época questionando se o representante da religião muçulmana não estaria se referindo a Alá, pois, até onde eu sei, Deus e Alá não são o mesmo deus. Enquanto a língua “oficial” de Alá é o árabe, a de Deus é o hebraico e o aramaico; Alá ditou o Corão de uma vez só para o seu único profeta Maomé, e Deus mandou um monte de gente, ao longo de uns dois mil anos, escrever sua Bíblia; Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, enquanto Alá é único; o paraíso de Alá, com suas 72 virgens para mártires, é bem mais quente e sensual do que o do deus cristão, que parece que não vai permitir sexo por lá, tornando qualquer apelo envolvendo virgens completamente sem sentido. Essas são as diferenças que o meu limitado conhecimento conseguiu reunir; talvez haja outras.

Mas a frase do mulçumano não é um exemplo de desonestidade intelectual explícita tão grande quanto a do representante católico, secretário-geral da CNBB, citando uma passagem de uma encíclica de João Paulo II: “Fé e razão são duas asas pelas quais o entendimento alça voos em busca da verdade”. Poderia haver uma comprovação maior de que a mente religiosa é essencialmente desonesta? Quem tem fé não busca nenhuma verdade, pois ter fé é justamente sustentar que algo em que se acredita sem nenhuma evidência, ou até mesmo com evidências em contrário, já é a verdade.

O autor da reportagem fecha a matéria com o que ele considera uma das mais belas e claras passagens do livro, em que a autora delimita os campos de atuação da fé e da ciência:

“A razão pode até nos curar do câncer, mas não nos ensina a agir ao receber seu diagnóstico nem nos ajuda a morrer em paz.”

Ok. Por isso eu devo esperar que um cristão que seja diagnosticado como portador de um câncer incurável receba a notícia de uma forma diferenciada, e viva seus últimos dias na Terra com a paz serena proporcionada pela “certeza” de que irá, muito em breve, desfrutar de uma outra vida muito melhor no Paraíso.

No mundo em que eu vivo, as coisas não são assim não.



7 mitos sobre Deus (Pt 1) [Republicação]

A revista Época dessa semana trás essa matéria de capa sobre o livro The Case for God, da escritora inglesa e ex-freira católica Karen Armstrong, que tem previsão para ser publicado no Brasil no fim do ano que vem.

Segundo o autor da matéria, o livro faz parte de uma nova onda que “tenta revidar os ataques do grupo de pensadores conhecido como ‘os novos ateus’” (referindo-se a Dawkins,  Hitchens e outros) e “faz o melhor contra-ataque às teses do grupo”:

“Como os fundamentalistas religiosos, eles [os ateus] infantilmente concebem Deus como um ser poderoso que os homens não conseguem enxergar.”

Essa citação é um exemplo mais do que contundente da desonestidade por trás da mente religiosa e essa ex-freira certamente vai tratar o assunto desse modo ao logo do livro: ela simples e descaradamente —  como se ninguém fosse notar — quer vender a ideia de que ateus “concebem Deus como um ser”. Se eu concebesse Deus como um ser, eu não seria ateu.

Mais à frente, o autor da reportagem parafraseia outro trecho do livro:

“Mas o avanço da ciência, a partir do Iluminismo, cerceou nossa mente e restringiu seu alcance a fatos empiricamente comprováveis.”

Nisso eu sou obrigado a concordar com a autora do livro. Uma mente inserida num universo onde existem bruxas, fantasmas, demônios, anjos, milagres e deuses, é uma mente que tem consciência de um universo bem maior do que aquele que a minha própria mente pode conceber. Isso é fato.

Eu não temo demônios, por exemplo, porque, no meu universo, eles não me afetam nem se mostram, logo, eu não tomo conhecimento deles. Mas, se há quem os tema por percebê-los, é óbvio que essa pessoa vive num universo um pouco mais abrangente do que o meu.

Felizmente, entretanto, as “criaturas” que habitam esse universo mais amplo parecem não ter livre acesso ao universo ateu, mais restrito. E isso, segundo a autora, tem um motivo, ou, antes, uma culpada: a ciência.

“A ciência suprimiu um dos ingredientes mais relevantes da fé: o mito, a capacidade humana de, por assim dizer, vislumbrar o inconcebível.”

Não sei se a tradução foi feita corretamente, mas a palavra “mito” parece ser um ligeiro deslize de honestidade no meio da argumentação desonesta da autora. Isso poria o deus cristão no mesmo nível do deus nórdico Odin e, certamente, não seria essa a intenção dela. E “vislumbrar o inconcebível” poderia ser facilmente entendido como “delirar”.


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