7 mitos sobre Deus (Pt 1) [Republicação]

A revista Época dessa semana trás essa matéria de capa sobre o livro The Case for God, da escritora inglesa e ex-freira católica Karen Armstrong, que tem previsão para ser publicado no Brasil no fim do ano que vem.

Segundo o autor da matéria, o livro faz parte de uma nova onda que “tenta revidar os ataques do grupo de pensadores conhecido como ‘os novos ateus’” (referindo-se a Dawkins,  Hitchens e outros) e “faz o melhor contra-ataque às teses do grupo”:

“Como os fundamentalistas religiosos, eles [os ateus] infantilmente concebem Deus como um ser poderoso que os homens não conseguem enxergar.”

Essa citação é um exemplo mais do que contundente da desonestidade por trás da mente religiosa e essa ex-freira certamente vai tratar o assunto desse modo ao logo do livro: ela simples e descaradamente —  como se ninguém fosse notar — quer vender a ideia de que ateus “concebem Deus como um ser”. Se eu concebesse Deus como um ser, eu não seria ateu.

Mais à frente, o autor da reportagem parafraseia outro trecho do livro:

“Mas o avanço da ciência, a partir do Iluminismo, cerceou nossa mente e restringiu seu alcance a fatos empiricamente comprováveis.”

Nisso eu sou obrigado a concordar com a autora do livro. Uma mente inserida num universo onde existem bruxas, fantasmas, demônios, anjos, milagres e deuses, é uma mente que tem consciência de um universo bem maior do que aquele que a minha própria mente pode conceber. Isso é fato.

Eu não temo demônios, por exemplo, porque, no meu universo, eles não me afetam nem se mostram, logo, eu não tomo conhecimento deles. Mas, se há quem os tema por percebê-los, é óbvio que essa pessoa vive num universo um pouco mais abrangente do que o meu.

Felizmente, entretanto, as “criaturas” que habitam esse universo mais amplo parecem não ter livre acesso ao universo ateu, mais restrito. E isso, segundo a autora, tem um motivo, ou, antes, uma culpada: a ciência.

“A ciência suprimiu um dos ingredientes mais relevantes da fé: o mito, a capacidade humana de, por assim dizer, vislumbrar o inconcebível.”

Não sei se a tradução foi feita corretamente, mas a palavra “mito” parece ser um ligeiro deslize de honestidade no meio da argumentação desonesta da autora. Isso poria o deus cristão no mesmo nível do deus nórdico Odin e, certamente, não seria essa a intenção dela. E “vislumbrar o inconcebível” poderia ser facilmente entendido como “delirar”.


O rei dos reis [Republicação]

 rei dos reis

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As pessoas frequentemente puxam minhas orelhas por eu manter um blog aparentemente com a única finalidade de ridicularizar a religião. Eu sempre respondo que essa não é a “finalidade” do blog (pelo menos não seria a única), e que a religião é ridícula por si só: eu só aponto o livro, capítulo e versículo.

Entretanto, como os crentes já não leem mesmo a Bíblia, e cada vez mais eles tentam propagandear a ideia de que Deus está para além dela, eu me peguei pensando o que sobraria para eu ridicularizar se os cristãos abandonassem de vez seu livro sagrado.

Não foi difícil achar um substituto: as idiotices que os crentes falam uns para os outros.

“Jesus está voltando”. Que ótimo! Mas diz também de onde ele está voltando, e o que ficou fazendo lá esse tempo todo… Aqui eles engasgam, porque a resposta envolveria a noção de um Big Brother em escala cósmica.

Os crentes também compartilham tais tolices com ateus, mas com menos frequência e empolgação. Eu, por exemplo, quando sou lembrado de que “Jesus me ama”, costumo responder da forma mais educada que a situação exige, no tom de voz menos beligerante possível: “Foda-se”. Mas não é um “foda-se” agressivo, nem desrespeitoso. É mais um “foda-se” retórico, porque não há mais nada que se possa dizer em resposta a uma afirmação tão imbecil como essa.

Há inúmeros epítetos com os quais o cristão se refere ao seu deus Jesus, todos eles totalmente sem sentido, questionáveis e ridículos por excelência. Jesus é o “rei dos reis”, o “médico dos médicos”, o “príncipe da paz”, o “senhor dos exércitos”, a “luz do mundo”, “o caminho, a verdade e a vida”, e por aí afora. Por que diabos um “príncipe da paz” estaria comandando exércitos? 

Você não me aceita como seu senhor, salvador e deus pessoal? Então é porque tá querendo criar tumulto. Meu exército já sabe o que fazer com você.

Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Caminho para…?, alguém quer saber. Para a eternidade no Paraíso; um lugar mágico muito legal para onde você vai depois de morrer. Ok. E como ele tomou conhecimento disso? Está na Bíblia! O mesmo livro que relata diálogos de uma cobra e uma jumenta com seres humanos? Pois é: é esse aí.

Jesus é a verdade. Ora, mas até hoje ninguém sabe que verdade seria essa, porque nem o próprio emissário soube explicar nada direito. De fato, Jesus mais complicou as coisas do que explicou. Por exemplo: os judeus tinham lá seus mandamentos que, bem ou mal, dava para seguir ou saber com certeza quando não se estava seguindo. Daí que veio Jesus dizer que, para se livrar de uma punição eterna e entrar no Paraíso, era preciso amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Duas coisas impossíveis de se fazer.

Jesus é a vida. Talvez uma alusão ao fato de que você seria apedrejado até a morte se não desse a senha certa, quando alguém perguntasse em que deus você acreditava.  

 

 

“A palavra”

a palavra

 

Os crentes leem “a palavra”. Pregam “a palavra”. Consideram “a palavra” sagrada porque é “a palavra” de Deus. E “a palavra” é a Bíblia.

Mas para agirem assim, eles entendem a Bíblia — ‘os livros’, em latim — como um todo: o livro. Portanto “a palavra” de Deus é “o livro”. Uma coisa macro. Não vai adiantar nada apontar detalhes.

Deus só está nos detalhes quando convém. Ou nos detalhes que convêm.

Se você quiser saber se eles realmente estão querendo dizer que acreditam que uma cobra convenceu uma mulher a cometer um pecado; ou quando você mostra tal e tal contradição, tal e tal erro histórico, ou tal e tal absurdo, que seria absurdo em qualquer época ou em qualquer mundo, o crente vai sempre alegar que esse detalhe é uma alegoria, ou apenas um erro dos seres humanos falhos que Deus usou para escrever sua “palavra”. E esta, como um todo, permanece válida, perfeita e imutável.

Uma vez tive a coragem de perguntar a um amigo religioso como ele diferenciava o que era alegoria do que não era. Ele disse que o Espírito Santo iluminava a pessoa que lia a Bíblia com a intenção de entender “a palavra” para que ela própria fizesse essa diferenciação. Eu perguntei: O mesmo Espírito Santo que “iluminou” os que escreveram os textos? Se ele não conseguiu fazer com que os autores dos livros sagrados evitassem misturar sua natureza humana falha na hora de escrever, o que garante que não vai ocorrer o mesmo com os que vão lê-los? Meu amigo não me respondeu porque ficou muito aborrecido com a minha ignorância acerca dos desígnios divinos que, pelo que entendi, ele conhecia bem.

Eu, no lugar de Deus, se tivesse criado uns tantos bichinhos de estimação que já estariam, desde o nascimento, condenados ao Inferno que eu construí para os que não seguissem as minhas regras, acharia bem mais justo que eles soubessem que regras seriam essas através de um livro sagrado onde elas ficariam bem claras: “Quero isso assim, não assado.” E qualquer trecho que os meus robozinhos azarados lessem da minha Bíblia não iria mostrar nada dizendo o contrário. Chamo de “robozinhos” porque eles teriam que seguir à risca as minhas regras; senão, eu os lançaria no Inferno onde haveria pranto e ranger de dentes. E “azarados” porque essa seria a única opção.

Bom, pelo menos eu seria um deus bem mais honesto do que o Deus cristão: o que estivesse escrito no meu livro sagrado seria o que eu queria dizer. Nada de alegorias; nada de pegadinhas; nada de contradições. Se eu dissesse que quem trabalhasse no sábado deveria ser morto a pedradas, era assim que teria que ser. Sempre. Ninguém diria nada em contrário, nem eu mesmo se me transformasse no meu próprio filho. E se ele, por acaso, tivesse falado demais e prometido que voltaria da morte trazendo todo o seu reino ainda no tempo de vida daqueles que o ouviam, eu, como Pai, teria mantido a promessa. Teria antecipado o Juízo Final em 2 mil anos e resolvido tudo de uma vez. Não teria, de forma alguma, corrido o risco de ninguém ter percebido o óbvio: que se não aconteceu como o filho de Deus anunciara, só poderia ter sido porque deveria haver, dentre eles, um imortal.

Mas mesmo a Bíblia estando cheia dessas contradições, desses erros e desses absurdos, esse tipo de coisa não abala o crente, não perfura a blindagem da sua fé. Porque são apenas detalhes. E tão pequenos e sem importância que nenhum padre ou pastor dá atenção a eles. E “a palavra” permanece divina, sagrada, absoluta e perfeita. Mesmo que, nos detalhes, ela seja apenas ridícula.

O símbolo macabro do cristianismo [Republicação]

Crucificação vem do latin crucifixio [crux = cruz + o verbo figere = fixar, prender].*  Foi o método de execução adotado pelo império romano, para punir crimes cometidos pelos escravos, desde o século seis antes de Cristo até o ano de 337 da era cristã, quando o imperador Constantino I aboliu esse tipo de execução, justamente por causa da veneração bizarra que um número crescente de seguidores de uma nova seita passaram a demonstrar por esse horripilante instrumento de tortura.

A pena de morte por crucificação era uma punição duríssima, pois a sentença antecipava ao réu não só que ele perderia a vida, mas que a sentiria se esvair lentamente, até o ponto em que seu corpo não conseguisse mais suportar justamente aquilo que todo organismo mais evita: a dor. E não seria uma dor inesperada e letal, mas uma dor agendada, que, uma vez tendo início, seria constante, inimaginavelmente intensa e deliberadamente infligida por mãos adestradas na técnica de impor o máximo de sofrimento pelo maior tempo possível.

O processo de execução começava com o criminoso sendo despojado de suas vestes e preso a uma coluna, para ser submetido ao flagelo, que era o açoite feito com um chicote especialmente confeccionado para esse fim. Depois o condenado era amarrado de braços abertos a uma cruz de madeira (ou a uma árvore), onde era deixado para morrer. Ali, enquanto sentia por todo o corpo a dor excruciante que o flagelo lhe havia causado, o enfraquecimento provocado pela perda de sangue e pelo sofrimento prolongado fazia o crucificado esmorecer sobre suas pernas presas e, não mais podendo suster-se de pé na cruz, ficar completamente pendurado pelos braços, com o peso do corpo a comprimir-lhe o diafragma, até não mais conseguir manter a respiração e morrer por asfixia.

As execuções tinham início no meio da tarde e se estendiam até o pôr-do-sol, uma vez que, como ditava a tradição, o executado não poderia permanecer na cruz durante a noite, pois acreditava-se que isso contaminaria a terra com a maldição que havia caído sobre o morto. Quando ocorria do crucificado ainda estar vivo pela hora do crepúsculo, os soldados romanos lhe quebravam as pernas para acelerar o processo.

A crucificação raramente era feita pregando-se o réu à cruz, mas quando esse sofrimento adicional lhe era imposto, fazia-se necessário providenciar um apoio em que o crucificado pudesse se manter sentado. Não fosse esse artifício, a morte viria rápida demais e a punição seria considerada branda. Tendo o peso do corpo sustentado por esse tipo de banquinho, o expediente de quebrar as pernas do criminoso para acelerar a morte por asfixia não surtia efeito. Assim, no caso de chegar a noite, o condenado que ainda resistisse vivo era violentamente espetado por espadas e lanças, ali mesmo na cruz, até que parasse de se estrebuchar a cada nova estocada, o que atestaria a sua morte.

Se Jesus Cristo foi mesmo executado por crucificação há dois mil anos, três coisas podem ser ditas seguramente sobre ele.

A primeira, que ele deve ter cometido um crime compatível com a sentença de morte recebida, o que, obviamente, foi omitido dos textos sagrados do cristianismo. Blasfêmia, por dizer-se filho de Deus ou por ameaçar o poder e posição dos sacerdotes e fariseus, não seria motivo suficiente para ser morto por crucificação, visto que Jesus estaria afrontando a lei dos hebreus, não a de Roma; e o governador local não iria querer gastar o seu latin com um bando de arruaceiros de um povo subjugado reclamando que alguém havia blasfemado contra o Deus deles. Os romanos, que tinham dezenas e dezenas de deuses, talvez mesmo só tivessem ficado perplexos ante a falta de fé que aquela gente demonstrava em relação ao seu próprio Deus, não deixando nas mãos dele a vingança pela blasfêmia recebida, como eles, certamente, teriam deixado.

A segunda, que ele sofreu de uma forma inimaginável antes de morrer. Eu, particularmente, lamento muito por ele e pelo fato de nossa espécie ter cometido, como ainda comete, tantos atos de barbárie contra si, e mesmo contra outras formas de vida.

E a terceira, que, independentemente do que Jesus achava que era, ou do que as pessoas que escreveram os Evangelhos achavam que ele era; independentemente do que tenham escrito, dezenas de anos depois, sobre o que ocorreu após sua morte, Jesus de Nazaré morreu naquela cruz e ainda continua morto.

É certo, também, que é impossível ignorar a multidão que diz esperar a volta do mais famoso finado de que se tem notícia. A esses eu só tenho uma coisa a dizer: vão continuar esperando.



*Fonte: Wikipedia.

Deus está nu

A fé religiosa é um estado hipnótico que é mantido e reforçado pela percepção dos efeitos que essa hipnose causa na coletividade. Como eu escrevi na segunda parte de Deus, Alice e a Matrix“Uma pessoa isolada chegaria sozinha à conclusão de que suas orações são inúteis”. A fé individual se alimenta da fé social. A convicção inabalável de que existe um Deus se sustenta na constatação de que uma multidão está inabalavelmente convencida de que existe um Deus. É o círculo vicioso e viciante em que cada nova geração se descobre inserida tão logo desembarca nesse planeta.

Mas tudo não passa de fingimento. Do tipo daquele que os súditos demonstraram com relação à roupa invisível do rei: o fingimento coletivo. O mesmo que os cristãos exibem quando dizem que sentem amor por Deus; quando dizem que suas orações são atendidas, que Deus os escuta e os protege; quando dizem que seguem as suas leis e os seus ensinamentos; e quando fingem um sem-número de outras coisas, e propagandeiam isso tudo nos seus cultos, nas suas missas, nas suas procissões, de forma que os outros viciados se sintam à vontade para mentir também as mesmas mentiras e, assim, não se sentirem excluídos, ou, pior, menosprezados pelos demais.

É um sistema poderoso e, quanto a isso, não há dúvida. Não é à toa que ele se mantém há tanto tempo, e não se pode ainda fazer a menor previsão de quando vai começar a desmoronar sob seu próprio peso. Mas esse dia vai chegar. Inevitavelmente. A ignorância é a matéria-prima da fé, e a tendência é que a humanidade se torne cada vez mais instruída. E já hoje as denominações religiosas estão se fragmentando de tal modo que isso talvez venha a ser o primeiro sinal da própria ruína da religiosidade, ou o ponto de partida para uma mudança de foco.

Talvez chegue o tempo em que os cristãos, por exemplo, vão perceber que tudo o que o Deus deles consegue fazer é inspirar a criação de igrejas com nomes ridículos, cuja função primordial é encher os bolsos dos seus fundadores. Talvez, um dia, eles passem a enxergar o seu “templo” como de fato ele é — um clube temático — e continuem indo lá, todo fim de semana, mas para se divertir, cantar, paquerar, interagir em sociedade, meditar. E, enquanto esse dia não chegar, os crentes — então cada vez menos crentes — permanecerão migrando de uma denominação caduca para uma recém-criada, talvez na esperança de que essa nova consiga ainda mantê-los sonhando.

Por ora, eles só estão incomodados porque ouvem, cada vez com mais frequência e cada vez mais de perto, pessoas dizerem que o Deus que eles afirmam seguir não existe em lugar nenhum. Nem mesmo na Bíblia, porque o Deus da Bíblia não aparece vestido com esse manto de bondade, amor e justiça que eles dizem enxergar. Os cristãos estão incomodados porque passaram a conhecer um crescente número de pessoas que não aceitam participar dessa brincadeirinha imbecil criada muitos milênios atrás. E, por conta disso, estão cada vez mais e mais empenhados em proteger sua fé, tentando isolar física e acusticamente os seus fiéis do alarido que essas crianças insolentes estão fazendo, apontando que o Deus deles está nu.

Ateus estão se tornando cada vez mais comuns nas sociedades. E, diferentemente de mim, pessoas poderosas, inteligentes, carismáticas estão se fazendo ouvir, estão fazendo valer sua influência para impedir que esse estado alucinatório promovido pela crença numa fantasia tome conta de tudo, ou pelo menos, estão fazendo o possível para que cada vez mais pessoas despertem desse sonho não só inútil, como também altamente danoso.

“Ateus praticantes” já se mostram na tevê, são assediados pela imprensa, são comprados nas livrarias, dão aulas nas universidades, sentam-se do seu lado nos cinemas, comparecem a festas de aniversário. Eles estão por aí, mas apenas para lembrar-lhe, crente amigo, que você está fingindo que vê algo que não vê — assim como finge amar esse Deus que você não ama —, pois o que você diz que vê simplesmente não está lá: é apenas uma ilusão da sua cabeça, induzida pela sociedade em que você vive.

Como sabemos que “a voz da razão é suave, mas persistente”, é isso o que nós vamos lhe dizer em resposta às suas declarações hipocritamente infundadas, e aos seus gritos histéricos de “Aleluia”.

Mas só isso.

Nós não apedrejaremos ninguém; não atearemos fogo às suas mesquitas, às suas sinagogas, às suas igrejas, aos seus galpões convertidos em bocas de culto. Não incineraremos os seus livros, nem os seus líderes. Nós não lançaremos aviões contra arranha-céus, não empreenderemos nenhuma Cruzada, não degolaremos dissidentes, não iniciaremos nenhuma Guerra Santa, não instauraremos nenhuma Inquisição… Porque não há a menor necessidade disso. E mesmo que houvesse, seria inútil. E mesmo que não fosse, não somos esse tipo de gente.

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 << Deus está nu [Versão Completa]


“Por que um ateu fala tanto em Deus?” [Republicação]


Eu tenho motivos para crer que muita “gente de fé” acha que um ateu é um crente enrustido. Eu mesmo já recebi muito cumprimento irônico me parabenizando pela minha “crença em Deus”. Afinal, por que, então, eu iria gastar tanto tempo, energia e criatividade mantendo um site dedicado a “Ele”?

Esse tipo de raciocínio é bem condizente com a visão deturpada que o religioso tem do mundo, afinal, ele “crê” em coisas tão ridiculamente absurdas que precisa mesmo que todo mundo creia nelas também, já que, de outro modo, ele não vai conseguir se esquecer de que está se enganando, brincando de faz de conta para sustentar umas tantas ilusões infantis.

Esse tipo de argumento, o de dizer que o ateu, na verdade, crê em Deus, é bem recorrente e já me vi diante dele vezes sem conta, ao lado de outros ainda mais estúpidos ou, pior, que demonstram apenas o quanto uma pessoa pode ser tapada.

Elas dizem coisas como “Você iria perder seu tempo escrevendo que não acredita em duendes, por exemplo? Não, né?”, “O ateu não tem razão de existir. Ele vive pra quê?”

Ora, vive-se para muitas coisas, por muitas razões, para muitos fins e de muitos meios. Se você me diz que eu, sendo ateu, não tenho razão para viver, estará apenas sinalizando para mim que você é uma pessoa com a qual não vale a pena discutir, por já ter apresentado o seu diploma de imbecil.

Eu não me incomodaria se milhões e milhões de pessoas resolvessem inventar, como inventaram, Deus e deuses, e esfolassem seus joelhos e desperdiçassem suas vidas para adorá-los. Isso seria problema delas. Mas não se pode ficar de mãos abanando quando um grupo crescente de indivíduos, com uma determinada crença, está tão seguro de que o conjunto de idiotices em que acredita é a Verdade — com V, única e absoluta — a ponto de divulgar que quer passá-la a todo o resto da humanidade, à força, se preciso.

Eu sou contra, sim, o processo imbecilizante por que passa, obrigatoriamente, cada nova geração de seres humanos. Sou contra, sim, a atitude de pais que literalmente obrigam seus filhos a acreditarem num sem-número de sandices só porque eles próprios também foram obrigados a acreditar. E ainda acham que estão fazendo a coisa certa.

E não pretendo desperdiçar meu tempo e energia contra duendes, pelo simples fato de não me sentir incomodado pelos seus adoradores. Esses, pelo menos até hoje, não queimaram vivo ninguém que não acreditasse em duendes; não fizeram guerras em nome deles; não forçaram cada nova geração a acreditar neles; não extorquiram dinheiro para a sua rede de divulgação da crença nos duendes; não ameaçaram nem coagiram os que não acreditavam; não pediram para que ninguém mais acreditasse no mesmo que eles, nem tentaram doutrinar a quantos pudessem, para que a crença nos duendes fosse global. No dia em que começarem a fazer isso, pode apostar que eu vou montar um site “dedicado” a eles também.

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Deus: aprecie com moderação

religião é uma droga

E há  sempre o caso do crente que exulta e se vangloria do fato de que “sua” igreja está crescendo:

— Somos, hoje, “tantos” milhões e a previsão para “tal” ano é de que esse número aumente para inacreditáveis “tantos” milhões!!!

Comparadamente, é a mesma alegria (ou esperança) que deveria ter o viciado em crack, por exemplo, ao saber que a quantidade de drogados no país está aumentando. Sim, porque, admitindo-se que esse número cresce de forma vertiginosa, é de se supor que o usuário de crack sonhe com o dia em que poderá fumar seu cachimbo despreocupadamente, já que se todo mundo estiver consumindo sua droga preferida, do policial que cumpre a lei ao deputado que a redige, ele certamente não será mais incomodado. Para o viciado, uma sociedade assim, onde todos seriam dependentes também; onde ele poderia curtir o seu barato de 10 segundos por baforada sem que ninguém viesse lhe encher o saco; onde ele poderia adquirir sua pedra legalmente em qualquer estabelecimento e fumá-la em qualquer lugar, “seria o céu!“.

Para o crente, é a mesmíssima coisa. Um lugar em que ninguém é mentalmente são, é um lugar onde não existe nenhum louco, porque a percepção da loucura só é possível numa mente sã.

Mas eis que você, amigo crente, ainda não está vivendo nesse lugar. E o Barrinhos aqui vai continuar enchendo o vosso saco, feito à imagem e semelhança do saco sagrado do Criador: o que você não quer enxergar é que o número de fiéis está crescendo vertiginosamente porque muita gente esperta há tempos percebeu como é fácil ganhar dinheiro apenas com um altar e umas cadeiras de plástico.

Tudo não passa de uma relação forte, eficaz e rentabilíssima entre o usuário de Deus, eternamente drogado, e as quadrilhas de traficantes, eternamente sedentas por dinheiro. E a demanda pela droga é tão grande, que quando os donos da boca de culto não se entendem quanto à divisão dos lucros, eles nem precisam fazer uma guerra entre suas quadrilhas. Eles apenas se separam, e o dissidente funda uma nova igreja, precisando apenas arcar com o trabalho de marketing para a nova marca.

E a receita é a mesma: esperteza + ganância + talento + cara de pau + fé em Deus = grana. Muita grana.

A ideia de Deus — deixando de fora a coação e o doutrinamento infantil — se sustenta à custa de fantasias, ilusões, enganos, ignorância, medos, carências, mitos e mentiras descaradas. Tudo isso muito bem compartilhado e propagandeado como verdades óbvias, provas absolutas e explicações incontestáveis.

Só  pra ficar num exemplo apenas…

Todo dia alguém perde um voo, pelos mais variados motivos. Eu, por exemplo, já perdi uma vez por ter dormido na sala de embarque. Enfim, sempre alguém se atrasa, fica doente, ou preso num engarrafamento. E o avião decola com um a menos. Isso acontece o tempo todo, em todas as partes do mundo e a vida segue normalmente. Entretanto, quando acontece um acidente aéreo sem sobreviventes, aquele passageiro que perdeu o voo, juntamente com todos os outros cristãos dopados que nem ele, vai atribuir tal “milagre” ao seu Deus misericordioso, que impediu que ele embarcasse, salvando sua vida tão preciosa e poupando sua família e amigos de sofrer com a tragédia. Como se todos os outros mortos no acidente não gostassem de viver e não fossem fazer falta a ninguém.

Para mim, particularmente, seria muito mais fácil crer num Deus que permitisse a queda de um avião, se, depois, eu ficasse sabendo, pela Patrícia Poeta, que o cara que perdeu o voo era um crente dos mais devotos, e todos os que morreram, ateus. Se não for o caso — e nunca é — , nós só ficamos com a cretinice de uma religião que, além de ver o mundo do jeito que lhe convém, quer impor essa visão doentia a todo o resto de nós.

O mundo religioso é um embuste, uma farsa. É o efeito de uma droga que te ensinaram a consumir antes mesmo de você aprender a andar. Sua hóstia consagrada é uma massa de pão; o sangue de Cristo que o padre e o papa bebem no altar é apenas vinho misturado com água; seu livro sagrado é uma coleção de mitos; a imagem de Jesus na sua camiseta, de olhos azuis, ondulados cabelos castanhos-claros, lábios finos, pele branca, e cara de quem acabou de sair de um salão de beleza, é tão inverossímil quanto a entidade que ela representa; seus dogmas são ridículos; suas orações, inúteis.

Se todas essas coisas que as pessoas te disseram que são verdades se revelam mentiras grotescas, você bem que poderia extrapolar o raciocínio e tender a achar que tudo o mais também não passa de uma fraude, e acabar por concluir que o que você consegue na vida por obra e graça do Espírito Santo eu posso conseguir, também, se orar fervorosamente, todas as noites, ao meu ferro de passar roupa.

Mas você não quer pensar assim; você não quer nem pensar nisso. Na verdade, você não quer nem mesmo pensar. Você não consegue sequer imaginar como seria viver fora desse seu mundinho mágico. E nem mesmo tenta. Por quê?

Porque você se viciou numa droga chamada Deus.


 

Deus: aprecie com moderação [versão completa]

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