Palavras ao acaso (4)

palavras ao acaso-fim

 

Sorte: um rótulo que você põe naquilo que te aconteceu de bom exatamente quando as chances de acontecer algo ruim eram bem maiores.

Azar: nome que você dá indiscriminadamente àquilo que te adveio por pura falta de sorte, ou apenas por incompetência.

Piedade: a vontade de interromper o sofrimento de uma outra criatura.

Inveja: pensamento idiota de que o mundo pegou tudo aquilo de que você precisa para ser feliz e deu de presente para as outras pessoas.

Cobiça: é querer algo que você sabe que não merece ter.

Arrependimento: desejo de voltar no tempo e fazer a coisa certa.

Ressentimento: sensação corrosiva provocada pela vergonha de pedir desculpa, ou pelo receio de desculpar.

Ingratidão: a defasagem descomunal que existe entre aquilo que recebemos e o que achávamos que merecíamos.

Flerte: ato sexual fortuito e intermitente realizado em público e a distância. 

Namoro: relação entre duas pessoas que, de comum acordo, só se encontram nos momentos em que estão dispostas, disponíveis e desejosas da companhia do outro, para assim desfrutarem breves momentos de intenso prazer.

Noivado: uma primavera que chega antes do inverno.

Orgulho: é a musculatura da nossa personalidade que precisamos desenvolver de forma que nem nos falte, nem nos sobre. 

 

Fotos em https://mymodernmet.com/baby-dont-cry-jill-greenberg/

Palavras ao acaso (3)

palavras ao acaso deusilusão

 

Milagre: intervenção sobrenatural concedida por um Deus supostamente justo em favor de um pecador que supostamente não a merece.

Talvez: um não educado, ou um sim safadinho.

Suspiro: um desejo que não virou nem ação, nem palavra.

Casamento: processo através do qual as pessoas descobrem que paixão tem data de validade.

Angústia: um endereço com o bairro e o nome da rua, mas sem o número da casa.

Perfume: lembrança que se pode respirar.

Fracasso: o jeito errado de ver algo que você poderia ter feito direito.

Acaso: uma forma tola de pensar que a vida segue um roteiro.

Humor: expressão irreprimível, incontestável e infalsificável de inteligência.

Família: pessoa gigante que foi dividida em várias pessoas de tamanho mais conveniente.

Ansiedade: enorme necessidade de comprar alguma coisa que você não sabe o que é. 

Lágrima: o único modo que seu coração encontrou para poder sangrar sem causar alarme.

Palavras ao acaso (2)

menina chorando

 

Dom: o nome que dão ao resultado do seu esforço e determinação.

Desejo: são os olhos que não têm mãos.

Saudade: vontade de ser feliz de novo.

Ódio: veneno que a gente toma na intenção de matar outra pessoa.

Perdão: é a Paz expressa em palavras.

Esperança: é a contingência do futuro que mais nos beneficia, agrada ou conforta.

Emoção: é o cutucão da batuta do mundo-maestro convidando você a tomar parte no concerto da vida.

Morte: estado no qual as coisas continuam sentindo cada vez menos a sua falta.

Ilusão: é a condição de sermos enganados por nós mesmos, às vezes de brincadeira, às vezes por ignorância, às vezes por distração, às vezes por necessidade. 

Erro: uma frequentemente negligenciada ferramenta de aperfeiçoamento.

Mágoa: é uma ferida que não deixamos cicatrizar por acharmos, inconscientemente, que merecemos a dor que ela nos provoca.

Consciência: é a pessoa que fala por nós quando estamos em silêncio.

 

Palavras ao acaso (1)

definições

 

Ciúme: é o Medo disfarçado de Amor.

Solidão: sensação opressiva de precisar dos outros para se sentir bem.

Religião: é o encontro da fraude com o desejo de ser enganado.

Paixão: é a deliciosa ilusão de voo, durante uma queda, enquanto o chão não chega.

Homossexual: pessoa que aprendeu a se gostar a ponto de se apaixonar por outra quase que completamente igual a ela própria.

Transexual: pessoa que nasceu no corpo errado.

: é o desejo que a gente tem de que as coisas sejam exatamente como a gente gostaria que fossem.

Felicidade: é uma praia linda que some completamente a cada maré alta.

Tristeza: é uma aula do curso que a gente faz para aprender a ser feliz.

Tédio: quando você está com preguiça de viver.

Decepção: a descoberta dolorosa de que as pessoas não vieram ao mundo para agradar a gente.

«Igreja: é o lugar onde as pessoas vão para perdoar Deus». (essa é do livro Casa das Estrelas, de Javier Naranjo)

A viagem (3)

 

a viagem (3)

 

Diz-se que, certa vez, um grande cientista do passado estava extremamente infeliz por não poder entender todas as coisas na sua plenitude. Um dia, passeando na praia, ele viu um buraco enorme na areia cheio de água do mar e sorriu de alívio. O cientista finalmente se deu conta de que, como o buraco, sua mente não poderia conter um mar de conhecimento, e era preciso se conformar com o que tinha.

Apesar de ser a maravilha que é, a inteligência humana tem seus limites. Na minha arrogância, eu fiz questão de ignorar essa verdade incrustada na nossa própria existência, e me predispus a entender algo inacessível à compreensão, tolamente esperando que o mar escoasse inteiro para dentro de um buraco na praia. 

O que poderia haver antes do Big Bang? 

Um deus eterno que existe para além do tempo e do espaço? Quem responde que Deus é a origem de tudo só troca um problema por outro ainda maior, porque Deus, por si só, é infinitamente mais inexplicável do que apenas um monte de matéria. 

O Big Bang foi, então, o colapso de um universo-mãe anterior ao nosso, que também vai implodir no futuro e gerar um universo-filho, num ciclo eterno de explosões primordiais? Essa abordagem até dá conta do que teria acontecido e do que poderia acontecer, mas também não responde como essa sanfona cósmica teve início. 

Ou antes do Big Bang não havia nada, nem tempo nem espaço, e tudo foi criado a primeira vez ali? Alguns físicos dizem que “o Nada é instável”, e que partículas subatômicas já foram detectadas pulando para dentro da existência, tão logo eles conseguiam impor uma vacuidade total em uma porção infinitesimal de espaço. Ainda assim: se o Big Bang é consequência do Nada, de onde diabos o Nada veio?

Talvez o universo tenha sempre existido? Ora, sendo o universo eterno, se tormarmos o instante “t” em que a Terra se formou, por exemplo, a eternidade que se estendia antes desse tempo “t” teria tornado impossível que “t” um dia chegasse a existir, para qualquer que fosse o “t” considerado.

Enfim, mesmo nossa excepcional imaginação parece só conseguir cavar apenas quatro mirradas possibilidades para trazer alguma luz ao assunto, mas sem muita lógica qualquer uma delas. 

Eu tive também minha lição de humildade na praia. Usando poderes indizíveis, manipulei as eras, deformei o espaço, destruí galáxias e voei no cosmos à velocidade da luz elevada a ela mesma. Fui até os confins do tempo para um instante antes da origem do universo e o que vi lá, depois de tudo isso, eu poderia ter visto sem esforço algum, sem sequer sair de casa: bastava pôr as mãos em concha sobre os meus olhos fechados dentro do meu quarto escuro.

A viagem (2)

 

singularity

 

Demorei uns 5 bilhões de anos, literalmente, para entender o que estava acontecendo. A nuvem de poeira em que se transformara a Via Láctea não tinha fugido com medo de mim: era o universo que estava encolhendo e, assim, tudo à minha volta se distanciava, me deixando para trás. 

Tendo o intelecto humano conseguido detectar que todos os corpos celestes estavam se afastando uns dos outros, concluiu-se muito sabiamente que deveria ter havido um momento no tempo em que tudo o que existe esteve reunido num único ponto do espaço. Como cada átomo é constituído basicamente de vazio, há mesmo uma lógica em imaginar um lugar no cosmos em que toda a matéria se reuniu sem nenhum espaço entre ela, com seus núcleos tão fortemente espremidos que se condensaram na forma de energia pura. Energia não precisa de espaço, mas nem por isso ela pode ser impedida de criá-lo. A esse momento no passado deram o nome de Singularidade. E eu estava vendo diante de mim cada partícula de matéria correr em direção a ela.

Eu fiquei extasiado olhando aquilo. Quando percebi, estava absolutamente sozinho no vácuo, sem a companhia de um único fóton, um grama que fosse de matéria escura. À minha frente, à medida que o tempo velozmente recuava em éons, pulsares piscavam por toda parte, como enfeites de Natal, do meio de nuvens de gás coloridas; buracos negros vomitavam estrelas; restos de galáxias acendiam um sem-número de novos sóis e formavam nebulosas que rodopiavam loucamente até se transformarem em novas galáxias, para, então, se desmancharem outra vez. E tudo sempre se distanciando mais e mais de mim.

Tive que me apressar para alcançar as últimas galáxias do cosmos (na verdade, as primeiras que surgiram), porque, quando chegasse o momento, eu queria estar bem próximo do colapso supremo para ver o que se escondia atrás do início de tudo. Já na iminência do fim (ou do começo, melhor dizendo), eu desacelerei o tempo e o ajustei para recuar no mesmo ritmo mundano com que se volta um vídeo no YouTube: segundo a segundo.

Numa convergência apocalíptica impossível de ser descrita, por estar muito além da compreensão dos nossos sentidos, toda a poeira cósmica que ainda restava, toda luz, toda radiação, toda matéria escura, cada pedaço do universo colidia violentamente e escorria agora como uma lava fina, a uma velocidade insondável, para um ponto minúsculo quase no infinito envolto na vastidão do Nada. Bastava olhar para saber que era ali a Singularidade. Voei para lá a tempo de acompanhar de perto o último filete de matéria do universo ser engolido por aquele ralo cósmico, achando que teria finalmente a resposta para aquela pergunta primordial sobre de onde veio tudo o que existe. Mas, de repente, não havia mais nada para ver. 

A Singularidade havia se consumado e se consumido. 

Atordoado no meio daquele vazio extremo, retrocedi o tempo infinitamente mais rápido do que jamais havia feito antes, e ainda assim nada aconteceu por novecentos trilhões de anos. Quando finalmente me convenci de que não havia nada por aquele caminho, dei a volta e acelerei na direção oposta, para o futuro, parando a poucos segundos antes do evento da Singularidade que daria origem, dali a mais de treze bilhões de anos, ao mundo de onde eu tinha vindo. Curioso para ver, pelo menos, o nascimento do universo, eu me posicionei a uns poucos anos-luz para o lado e esperei, apreensivo e solenemente emocionado, pelo Big Bang.

Foi quando meus olhos fictícios se esbugalharam de espanto, pois tudo permaneceu exatamente como estava: na mais completa, absoluta, irretocável e desesperadora escuridão.

A viagem (1)

deusilusao

 

Eu decolei na vertical, como o Super-Homem. Enquanto subia numa velocidade inexequível, instintivamente dirigi o olhar para as coisas que se afastavam sob o lugar onde deveriam estar os meus pés: minha casa, minha cidade, o continente, o planeta, o sistema solar. Quando eu parei, menos de meio minuto depois, a Via Láctea inteira estava tão distante que parecia ter o tamanho de um pires. Eu quis dizer alguma coisa, mas, assim como os meus pés, minha boca também não foi junto. Eu era apenas a minha consciência provida de visão, mas sem olhos e sem nada mais de mim mesmo, a não ser o deslumbramento por toda aquela imensidão enfeitada com galáxias, nebulosas, buracos negros, quasares e supernovas.

Apesar de estar maravilhado com a vista, eu não tinha ido ali a passeio: havia um trabalho a ser feito, e eu comecei sem demora. Apenas com a força da minha vontade, eu desloquei o universo para trás no tempo. No começo, bem devagar, por causa da inércia da existência, que se movia para frente, até então, como era de se esperar; mas logo tudo passou a retroceder aceleradamente. Com um misto de orgulho e desespero, eu contemplei a Via Láctea se desfazer: primeiro, os braços espiralados se esgarçaram como que puxados por mãos invisíveis; depois, a grande nuvem cintilante do centro também foi sugada para o espaço vazio, até todos os sóis se apagarem e tudo aquilo virar uma nuvem de poeira escura que rapidamente se afastou, talvez com medo desse novo deus destruidor de mundos em que eu havia me transformado.

No instante seguinte, eu me vi envolvido numa tristeza de tal magnitude que cheguei a ter pena de mim mesmo. Eu era o único ser humano de todo o universo, e já não havia nada mais nele que sequer pudesse lembrar minimamente que um dia eu havia existido: até a galáxia que continha o sistema solar no qual orbitava o planeta que abrigava a minha espécie havia desaparecido. Era como se eu tivesse morrido, e o meu inferno tivesse se revelado naquela infinitude de distâncias e solidão.  

Ali, desolado e arrependido, flutuando estático no vazio próximo do zero absoluto, onde não havia o em cima nem o embaixo, nem o ontem nem o amanhã; cercado por bilhões de pontos brilhantes que eu sabia que não eram estrelas, mas galáxias iguais à que tinha acabado de desintegrar, eu me dei conta de que ficar inerte seria como a morte dentro da morte. Entretanto, me mover nunca fez parte dos planos: em vez disso, eu iria mover o universo inteiro para trás no tempo, a uma velocidade inconcebível, até chegar à origem de tudo e testemunhar com os olhos da minha consciência cósmica o que existia antes do Big Bang.

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