Hífen — um castigo divino

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Eu poderia ter escrito o título acima com um hífen (-) no lugar do travessão (–). Ficaria bem estiloso e original porque o tema do texto de hoje apareceria representado duas vezes: por extenso e como sinal gráfico. Mas desisti da ideia, talvez movido pelo ódio que eu sinto por esse tracinho maldito que, segundo a Dad Squarisi, é um castigo de Deus. Além disso, gramaticalmente falando, estaria errado pôr um hífen ali. Com o travessão, é outra história, porque ele está com o mesmo papel dos dois-pontos, mas essa função não poderia ser desempenhada pelo hífen, que habita apenas o interior dos vocábulos.

O travessão, assim como os dois-pontos, é um sinal de pontuação, enquanto que o hífen é um sinal de que a gente está prestes a cometer um erro de ortografia.

O hífen já era amaldiçoado muito antes do Acordo Ortográfico entrar em vigor, mas, depois dele, teve aumentada a polêmica em torno de sua tracejante existência. Alega-se que as regras de emprego do hífen eram complicadas, porém tinham uma “certa lógica”; agora, com a reforma ortográfica, elas continuam complicadas e sem lógica alguma.  

Por exemplo, por que dois-pontos se escreve com hífen e ponto e vírgula se escreve sem?; por que para-choque tem hífen e paraquedas não tem?; por que baba-de-boi se escreve com hifens e baba de moça não?; por que cor-de-rosa se escreve assim e cor de laranja, assado?; no que a palavra pé-de-meia difere de pé de moleque, para se pôr hifens em uma e não na outra? Eu, particularmente, sei as respostas para todas essas perguntas; meu ódio pelo hífen é por outro motivo. 

Antes de revelar o que me entoja nessa praga divina, revelo que o prof. Sérgio Nogueira, no YouTube, acabou ajudando seus alunos a cometer mais pecados ortográficos do que normalmente eles já cometem por conta prórpria. Neste vídeo, sobre as novas regras do Acordo, ele ensina que pé de cabra (a ferramenta) e não me toques (sinônimo de melindres) são palavras compostas escritas com hífen, o que está errado. Por quê? A explicação mais simples e rápida: essas palavras constam como entradas do VOLP (imagem e link acima) e aparecem lá sem hífen. A explicação mais detalhada é a que segue.

Nos compostos (=palavras que se formam de outras) não se emprega o hífen quando eles já aparecem “ligados” por uma palavra da língua (que fará o papel do hífen). Daí a razão de ponto e vírgula, baba de moça (=um tipo de doce), de moleque, de cabra e não me toques.

No caso das locuções (=grupo de palavras com um sentido específico) não se põe hífen de jeito nenhum*: cor de laranja, passo a passo, dia a dia, lava a jato**, de alto a baixo, pôr do sol, etc. A locução não deverá ser hifenizada mesmo quando ela aparecer na frase se passando por um substantivo: “O passo a passo que ele elaborou está cheio de erros”. Pelas regras antigas, passo a passo seria hifenizado no exemplo acima. 

Agora, quanto àquelas incongruências, é o seguinte:

Baba-de-boi, que é um tipo de palmeira, leva hífen porque atende à regra das palavras que designam espécies botânicas e zoológicas, que sempre serão hifenizadas: bem-te-vi (pássaro), bem-me-quer (flor), pé-de-cabra (planta), não-me-toques (flor).

pé-de-meia e cor-de-rosa devem ser escritas com hífen pelo mesmo motivo que paraquedas deve ser escrita sem ele: porque a ABL assim convencionou, alegando força da tradição. 

Como eu disse, não é por conta de todos esses senões que eu odeio o hífen. Eu odeio o hífen por causa da Base XX do Acordo Ortográfico, que trata da divisão silábica, segundo a qual o hífen da palavra composta deve ser escrito no início da linha seguinte, quando ele coincidir com o hífen da translineação, que é a divisão de uma palavra entre o fim de uma linha e o começo da outra. Por exemplo, se a palavra para-choque não cabe numa linha, ela poderá ser translineada assim: para-, com o hífen da divisão silábica no fim da linha e, iniciando a linha seguinte, -choque, com o hífen do composto. Em paraquedas, a translineação seria feita apenas com o hífen da divisão silábica, no fim da linha, para-, e quedas iniciando a linha de baixo.

Muito simples de se entender, mas um inferno para se executar quando o texto digitado difere da apresentação “impressa” na tela, como é o caso de várias plataformas na internet, como esta na qual estou escrevendo agora.

Ah, Deus!

O Inferno vá lá, mas o Hífen, tenha misericórdia!

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*Segundo a Nota Explicativa que acompanha o Acordo Ortográfico, por estarem consagradas pelo uso, somente as locuções listadas no texto da Base XV devem receber hífen. São elas: água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-ropa.

**Há também “lava-jato”, mas é substantivo.

 

A NORMAL (parte 1) – Republicação

ateu

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Muito embora o ateísmo ainda não seja considerado uma religião, o ateu crê que Deus não existe e, portanto, ele também manifesta um certo tipo de crença.”

Desde algumas poucas décadas atrás, quando o catolicismo deixou de ser a única cerveja à venda no barzinho das ilusões, e as bocas de culto se tornaram muito mais numerosas nos nossos bairros do que farmácias e padarias juntas, os empresários da fé acharam esse raciocínio perfeito para convencer os dizimistas a continuarem contribuindo, sem precisar dar ouvidos ao que viesse a sair da boca de um ateu, do mesmo modo que não precisavam levar em consideração nenhum discurso de um crente de uma outra igreja. Não é difícil de imaginar por que um evangélico jamais vai aceitar os argumentos de uma testemunha de Jeová, por exemplo, que não casam com suas próprias convicções religiosas. Se a testemunha de Jeová é substituída por um mórmon, um católico ou um ateu, o resultado é o mesmo, e mais ou menos pelo mesmo motivo. Essa é a ideia.

Tal manobra desonesta perpetrada ao longo de tantos anos tinha mesmo que dar frutos. Não por acaso, já preenchi alguns formulários online que, requisitando meus dados pessoais, apresentavam Ateus como opção a se marcar no campo Religião. Quando não vinha nesse formato, eu tinha que escolher Outros, obriga-toriamente, uma vez que a página não aceitava que o campo Religião ficasse em branco. Isso me fazia chancelar o equívoco de que “sim, eu tenho uma religião, mas não está listada aqui”.

Quase sempre eu não tinha a quem reclamar, mas quando recebi uma ficha cadastral semelhante no meu próprio ambiente de trabalho, achei que alguém me devia uma satisfação. Imprimi uma cópia do formulário, à guisa de prova, catei minha edição de luxo de Deus, um delírio, encadernado em capa dura e com a borda de cada página pintada em ouro, e saí pelos corredores, pisando forte e bufando de ódio, pronto para iniciar uma Cruzada.

Olha, eu entendo a sua questão. Mas eu acho que a pessoa que elaborou o formulário entendeu que, se o senhor marcar Ateus no campo Religião, o senhor vai estar deixando subentendido que é porque não tem religião alguma.”

Claro que “a pessoa que elaborou o formulário” poderia muito bem ter substituído Ateus ou Outros por Não tem, sem precisar deixar nada subentendido, afinal, quem fosse ler meu cadastro observaria que, no campo ‘Religião’, eu havia marcado ‘Não tem’. A conclusão me parece bem mais óbvia. O problema é que, certamente, “a pessoa que elaborou o formulário” era uma pessoa religiosa, assim como a moça do RH que me atendeu, bem como o chefe dela, meu próprio chefe e toda a mesa diretora da empresa, então… eu achei melhor voltar pra minha sala sem causar escândalos.

Inevitavelmente, eu me vi filosofando sobre o tema, e tirei algumas conclusões talvez bem originais. O primeiro dado que considerei está representado na frase que abre esse texto e que, sem dúvida, serve perfeitamente para reforçar a blindagem da mente religiosa às investidas da razão. Mas também é um exemplo perfeito de sofisma, uma palavra que tem uma das mais belas definições que se pode encontrar num dicionário: 

sofisma 1. argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade, que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa.

(Houaiss)

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Parte 2   –   Parte 3   –   Parte 4

 

Uma história sem final feliz (Pt. 3)

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Até hoje, quantos dias você realmente aproveitou o máximo que pôde? Quanta gente interessante você conheceu? Que lugares inesquecíveis você  visitou? A quantas festas você foi? Quantos amigos você fez? Pra quantas pessoas você disse ‘eu te amo’? Até hoje, quantas histórias incríveis você tem pra contar? Será que alguém iria gostar de ler a sua biografia?

Eu normalmente me comporto como se fosse viver ainda mais 200 anos. E, pior: como se as pessoas que eu amo fossem durar isso tudo também. Mas todos os dias, todas as manhãs, eu me obrigo agora a encarar a verdade. E ela, a verdade, é inescapavelmente clara, inevitavelmente simples, e imutavelmente certa: eu vou viver, no máximo, mais algumas poucas décadas. E vai chegar o dia em que eu vou pensar que talvez não me restem mais do que alguns poucos anos, e, por fim, o dia em que eu vou me dar conta de que terei somente alguns minutos de vida.

Quando esse momento chegar, eu espero ter uma coleção interminável de respostas para aquelas perguntas. Porque, muito provavelmente, isso vai ser a única coisa que irá me confortar quando chegar a minha hora de me despedir de mim mesmo.

Quando você é criança, a morte não faz o menor sentido. Na verdade, ela não lhe diz respeito, nem lhe interessa. É quando você começa a realmente se dar conta do que é viver que a morte se lhe apresenta como uma lembrança inconveniente, como a certeza de que há um ladrão à espreita no quintal, esperando você sair para roubar a casa.

Dentre todos os danos que as religiões nos causam — como indivíduos, como sociedades e como espécie —, o maior deles é, sem dúvida, o de instilar nos nossos cérebros a ideia infantil de que vamos viver para sempre.

Não, queridos, não nessa vida! Porque aqui você já sabe como a história termina, e nunca tem um final feliz. Aqui você sempre morre. Nós estamos falando de um outro mundo; na verdade, de uma outra dimensão. Um lugar mágico onde essas regras daqui não se aplicam; onde o tempo não existe, e coisas que detestamos, como sofrimento, tristeza e morte, não fazem o menor sentido. Lá tudo é perfeito, bonito, alegre e… o melhor: lá é tudo Prá-Sem-Prê! O quê? Como que eu sei disso? Ora, está tudo aqui nesse livro.

A atitude correta aqui seria sugerir que uma pessoa assim fosse submetida a algum tipo de tratamento psiquiátrico. Mas não… Você compra a ideia. Você se deixa levar pelo fascínio doentio que esse pensamento infundado desperta, e não só aceita a fantasia como se esforça para divulgá-la, para que ela se espalhe como um vírus, contamine a todo mundo e ninguém venha lhe dizer, depois, que você está se enganando. Porque é justamente isso o que você quer: se enganar; acreditar que a sua história não vai acabar como parece que vai.

É o pensamento que sempre nos vem à mente para espantar essa sensação de estarmos sendo cercados aos poucos: você ouve que algum parente distante morreu; depois morrem seus avós, seus tios, seus pais, seus irmãos. Você percebe algo vindo na sua direção, a passos lentos, talvez; mas inexoravelmente constantes. De repente você se dá conta de que não há para onde fugir; que não há como escapar ao mesmo destino que os outros já tiveram. Com você não vai ser diferente. E é nesse ponto que entra a religião, para te vender uma ideia mentirosa, mas que te traz um benefício absurdo: viver essa vida imaginando que não será a última. E vendo na morte um novo começo, não o fim da sua história.

Porque todo mundo espera que uma história tenha sempre um final feliz.

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Como fundar sua própria igreja [2/4]

Capítulo 2 – Aulas teóricas

Evidentemente que, para mandar em uma igreja evangélica, você precisa ter a mínima noção de como funciona uma igreja. Mas não se preocupe: não serão necessários dez anos de seminário nem curso de Teologia para se aprender, visto que até garotinhas de cinco anos conseguem chefiar multidões de crentes. A melhor fonte para você são as próprias igrejas que já existem e fazem sucesso, como a Igreja Universal. Comece a ir em alguns cultos da IURD, veja como o pastor fala e como ele faz para convencer o povo de que o dízimo de fato está afastando delas o demônio.

À noite, em vez de cair nas baladas, assista ao programa da Igreja Universal na Record, um prato cheio de métodos e técnicas de conversão em massa de pessoas. Lembre-se de anotar todas as frases de efeito proferidas pelos pastores e todos os versículos da Bíblia citados, mas pelo amor de Deus, cuidado para você também não se converter à IURD; não se esqueça de que os traficantes nunca se viciam nas drogas.

Além de acompanhar a prática conversiva na Igreja Universal, você também deverá ter um material de estudo em casa, que não precisa ser uma Bíblia. Recomendo um daqueles caderninhos vendidos em lojas evangélicas que vêm com uma lista de versículos bíblicos prontos, e também versões da Bíblia para crianças, daquelas que são cheias de imagens e texto bem simples, que qualquer moleque entende e se converte na hora (mas você não deve se converter de jeito algum, não esqueça). Depois de alguns dias de estudo teórico, quando você se sentir capaz de enrolar algumas pessoas com um discurso messiânico-capitalista, já poderá pensar na construção do templo.

Capítulo 3 – Construindo o templo

Fachada da sua igreja.

Para ter uma igreja evangélica, é fundamental um lugar destinado às pregações. Para isso você precisa arranjar um templo onde funcionará a Igreja Multinacional da Máfia de Deus. No começo, o templo não precisará ocupar a área de um campo de futebol e/ou uma sede estadual da Igreja Universal; o tamanho deve ser suficiente para juntar de 100 a 1000 pessoas no máximo. Templos muito grandes exigem maiores despesas com aluguel e contas de água, luz e telefone e, por ora, você não pode pagar tudo isso. Alugue um barracão do tamanho de um auditório, com um banheiro no máximo (mas que seja limpo, né?), e está ótimo por enquanto. Dentro do barracão, coloque várias cadeiras plásticas de baixo custo e improvise um altar à frente, com um crucifixo de madeira (pode ser aquele da casa da sua avó) e um microfone, se possível, senão você pode simplesmente falar um pouco mais alto e pronto.

Quanto à localização da igreja, prefira sempre comunidades grandes e pobres, de preferência a maior favela da sua cidade, afinal, gente pobre é muito mais fácil de manipular, se bem que o dízimo per capita não será grande coisa, mas igreja nenhuma começou já convertendo o Kaká e a Mara Maravilha logo de cara. Além disso, se o seu público inicial for carente, ninguém vai ligar para a falta de infra-estrutura no seu barracão clerical. O seu templo não poderá dar muitas despesas iniciais, como já foi dito acima; somando aluguel e as contas de água, luz e telefone, não passe de mil reais por mês. Pelo menos você não terá de pagar IPTU, por se tratar de uma igreja.

Capítulo 4 – Convertendo os primeiros adeptos

Esse é o objetivo das suas pregações.

Depois de arranjar uma sede inicial, está na hora de arrebatar otários fiéis para a Igreja Multinacional da Máfia de Deus. Se você seguiu ipsis litteris o capítulo anterior, não será difícil arrumar gente em meio à favela que você escolheu. Basta você prometer às pessoas que a sua igreja vai tirá-las daquela pobreza toda, que só existe por causa da ação do capeta sobre elas, e na pior das hipóteses, mesmo que a maioria morra pobre, a sua igreja lhes garantirá a chegada ao Paraíso, onde nunca mais haverá privações e blablablá.

Para falar com os potenciais adeptos, espere até o próximo domingo e vá até algum ponto frequentado por toda a comunidade, podendo ser uma feira livre, um camelódromo ou o boteco da esquina, e passe o dia fazendo pregações a quem passar por lá, afirmando todas as qualidades dessa religião salvadora e omitindo os defeitos. Não se esqueça de citar vários versículos bíblicos, por isso a importância daquele caderninho comprado na livraria evangélica. Nos outros dias, tente seguir de barraco em barraco falando com os moradores da comunidade sobre a sua igreja, mas tenha cuidado para não parecer Testemunha de Jeová, apenas diga que a sua nova igreja poderá lhes dar um novo sentido à vida, acabar com o sentimento de pobreza e com certeza garantir a chegada ao céu. Também tenha cuidado redobrado em não abordar a casa do traficante da região antes de ter recolhido pelo menos alguns dízimos.

O seu objetivo inicial é converter em torno de 100 pessoas para a igreja. Consideremos que o público é pobre e a renda mensal média desse povo gira na casa de 700 reais, portanto serão mais ou menos 70 reais de cada um por mês. Haverá fiéis um pouco mais abonados, uma classe média baixa talvez, com seus 1000 reais mensais, mas também tem os que não passam de 500 contos, por isso a média 700. Com esse público de 100 crentes, a receita total será de 7000 reais, contando só os dízimos. A despesa será de cerca de 1000 reais como foi falado acima, portanto, se der tudo certo, você terá um lucro mensal de 5 a 6 mil reais no começo. No primeiro mês, é melhor você ainda continuar no seu emprego normal, para poder custear os primeiros aluguéis e contas, mas com o tempo você deverá dar total atenção à igreja, quando você puder viver dos dízimos e ofertas.


Como fundar sua própria igreja [1/4]

Recebi por e-mail esse pequeno manual.

Ele vai ser publicado em 4 partes, para ensinar você como ganhar dinheiro vendendo um produto pelo qual o cliente vai passar a vida toda pagando, mas que só vai receber depois de morto.

INTRODUÇÃO

Aleluia, irmão! Você, por meio deste livro, agora você poderá criar a sua própria igreja evangélica e ser tão poderoso quanto Edir Macedo e R. R. Soares! Basta seguir os seguintes passos:

Capítulo 1 – Nome e denominação da igreja
Capítulo 2 – Aulas teóricas
Capítulo 3 – Construindo o templo
Capítulo 4 – Convertendo os primeiros adeptos
Capítulo 5 – Cultos
Capítulo 6 – Expandindo o quadro de pastores
Capítulo 7 – Expandindo a igreja
Capítulo 8 – Atividades extras
Capítulo 9 – Abrindo filiais
Capítulo 10 – Arrebatando a mídia (Pequenas igrejas, Grandes negócios)

Capítulo 1 – Nome e denominação da igreja

Para iniciar a sua igreja protestante (que é sinônimo de evangélico se você não sabia), antes de mais nada você deve escolher o tipo de protestantismo a ser seguido. São muitas opções: Igrejas Luteranas, Batistas, Metodistas, Presbiterianas, Anglicanas, Biscaterianas e o diabo a quatro, mas a opção de longe mais recomendada são as igrejas pentecostais, que fazem um sucesso imenso no Brasil e não têm a obrigação de se pautar nas regras da Reforma Protestante, que crente nenhum faz questão de conhecer. Ou, melhor ainda, siga a linha neopentecostal, que é igual aos pentecostais, com a diferença de que as pessoas não podem ver televisão à vontade e as mulheres precisam usar aquelas saias horrorosas e deixar o cabelo descuidado.

Agora escolha qual será o nome da sua igreja. Isso não será difícil; basta você usar a sua criatividade. Uma boa fórmula é começar o nome por Igreja, acrescentar um adjetivo enaltecedor, com o objetivo de passar uma ideia de abrangência, e, por último, um sinônimo para o lugar em que Deus vive, ou pelo menos que a maioria da população acredita ser o tal lugar. Também pode ser qualquer outro lugar bíblico, como por exemplo o Monte Sinai ou a muralha de Jericó. Abaixo segue um esquema:

Igreja + Adjetivo + do(a) + Substantivo + de Deus

Variantes sugeridas para o adjetivo:

Universal
Internacional
Interdimensional
Galáctica
Mundial
Intercontinental
Multinacional
Sensacional
Piramidal
Hexagonal
Maioral
Procedural
Carnal
Dodecagonal

Variantes sugeridas para o substantivo:

Reino
Graça
Universo
Poder
Empresa
Ordem
Máfia
Praça de Pedágio
Quadrilha
Patota
Turminha
Buraco
Suvaco
Barraco
Galáxia
Império

Para fazer exemplos, vamos pegar três modelos já existentes e adicionar alguns dos itens acima e criar alguns nomes de igrejas neopentecostais:

Igreja Universal do Reino de Deus
Igreja Internacional da Graça de Deus
Igreja Mundial do Poder de Deus

A partir destes três e dos itens sugeridos acima:

Igreja Galáctica do Universo de Deus
Igreja Intercontinental da Ordem de Deus
Igreja Multinacional da Máfia de Deus
Igreja Sensacional do Pagode de Deus
Igreja Carnal do Suvaco de Deus
Igreja Dodecagonal da Patota de Deus

Se você quer modelos mais sofisticados, também é possível substituir Deus por outras variantes bíblicas, mas aí não há uma receita de bolo. Mesmo assim darei alguns exemplos mais avançados:

Igreja Interdimensional da Praça de Pedágio da Muralha de Jericó
Igreja do Santo Dízimo de Cristo
Igreja da Mina de Ouro no Monte Sinai
Igreja de Jesus Cristo e Maria Madalena no Barraco de Deus
Igreja do Santo Dinheiro de Wall Street

Perfeito, a nossa igreja evangélica já tem um nome agora. Para ilustrar melhor este livro, usaremos o nome Igreja Multinacional da Máfia de Deus a partir deste ponto. O próximo passo é aprender como que se comanda uma igreja crente.

dinheiro-pastor-evangelico

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Parte final)

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Depois do ato sexual, o espermatozoide vai levar de 8 a 12 horas para chegar até o óvulo e penetrá-lo, e mais 24 até se fundir com ele numa célula única. As divisões sucessivas que darão origem a um novo ser só vão começar dali a mais 40 horas, e o óvulo ainda precisará de 2 semanas para chegar no útero e tentar se fixar nele. Tudo dando certo até aqui, só em mais 2 meses o embrião ganhará sua primeira rede de neurônios, num total de três células. Os primeiros 3 neurônios dos seus futuros 86 bilhões.

Eu, particularmente, não vejo o menor problema em uma gestação ser interrompida no dia seguinte à fecundação, ou na sua primeira quinzena, por exemplo. Mas até que ponto eu continuaria sem “ver o menor problema”? Minha resposta mais sincera: eu não sei.

Por isso é tão importante a opinião dos meus pares, cidadãos iguais a mim, que compartilhem o mesmo código moral que eu; pessoas que tivessem aversão a sacrifícios humanos, a chantagens e genocídios, por exemplo. Mas o que eu não posso aceitar deles, é que seus argumentos venham embrulhados na sua fé religiosa. E por dois motivos bem simples.

O primeiro, é que eles não poderiam me convencer de que eu deveria dar ouvidos ao seu Deus específico, descartando todos os outros dos quais já ouvi falar. Além da vontade de estarem adorando o deus certo; além do desejo de que esse um seja o deus verdadeiro e os outros sejam todos falsos, eles não têm mais nada a oferecer.

O segundo motivo, é que eles precisariam me mostrar que seus padrões morais são os mesmos desse Deus da sua preferência, caso contrário, não haveria justificativa para usar sua fé como argumento.

A “questão do aborto” se nos apresenta como um problema que precisa de uma solução. E a solução não vai cair do céu. Ela terá que vir de nós mesmos, mas só quando nos dermos o trabalho de parar para discutirmos o assunto: com responsabilidade, com inteligência, com discernimento e, acima de tudo, sem recorrer a nenhum desses conjuntos de certezas hipócritas chamados de religião.

Não é a crença em uma criatura mágica habitante de uma dimensão insondável que torna uma pessoa boa e suas decisões acertadas. Citando um grande pensador, “Pessoas religiosas fazem coisas boas não porque são religiosas, mas porque são boas.” Não é uma religião que vai nos dizer o que é ser “humano”, nem é o que nos tornará melhores. O que nos tornará melhores é a fé que devemos ter em nós mesmos, como seres racionais capazes de diferenciar o que é certo do que é errado; aquilo que nos prejudica, daquilo que nos engrandece; o que pode nos levar a viver mais como indivíduos e melhor como sociedade, daquilo que pode nos aniquilar, ou nos fazer envergonhar a própria Evolução por nos ter permitido um cérebro tão maravilhoso, mas que não soubemos como usar.

O aborto, assim como a eutanásia e a pena de morte, são questões para se discutir até que a nossa sociedade global lhes dê uma resposta única, porque eu não conheço mais de uma humanidade habitando este planeta. O que há são pessoas em diferentes lugares cultuando diferentes criadores do universo, cada um dizendo uma coisa diferente sobre os nossos mesmos problemas.

A religião pretende nos convencer de que a fé em deuses nos é mais útil do que a nossa razão, e ludibria cada nova geração ensinando que é com base na fé religiosa que construímos nossa moral. Dois equívocos tão perniciosos, deletérios e ultrajantes para a dignidade humana que seus propagadores deveriam ser procurados como criminosos. Para nossa infelicidade, porém, não só eles ainda são vistos como pessoas de respeito, como são investidos de indevida autoridade para falar em nosso nome, isso quando não se outorgam o direito de dar a palavra final justamente sobre aqueles dilemas que nos furtamos a decidir por nós mesmos.

A polêmica sobre o aborto é só uma das questões morais que ainda precisamos resolver. Mas para chegarmos a um consenso sobre o que é certo e errado, é preciso parar de argumentar em nome de Deus, e tentar eliminar as nossas dúvidas, usando toda a nossa humanidade, em nome da Vida.

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Consultei: Vida: o primeiro instante.

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 6)

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Você seria capaz de torturar uma criança por 7 dias, até matá-la, como forma de punição aos pais dela?

Você seria capaz de afogar todos os seus filhos se eles não estivessem se comportando de acordo com o que você esperava deles?

Você seria capaz de exigir que alguém matasse o próprio filho como uma prova de obediência a você?

Você seria capaz de permitir que alguém arrasasse — física, social e psicologicamente — a vida de uma pessoa que te ama, só para “testar” se o amor que ela sente é mesmo verdadeiro, e se ela ainda continuaria tendo essa devoção a você, mesmo estando no fundo do poço?

Você torturaria um inocente até à morte, como parte de um ritual planejado por você mesmo, para se sentir em condições de perdoar as outras pessoas por não seguirem as suas ordens?

Não? Parabéns. Eu também não. E acho que nenhuma pessoa minimamente decente que você conheça responderia o contrário.

Mas Deus não seria minimamente decente, se existisse. Não pelos nossos padrões. Segundo a Bíblia, ele não só praticou esses atos imorais (com os quais você, obviamente, não concordou), como centenas de outros que também não receberiam sua aprovação.

Donde se chega à inevitável pergunta: 

Para que diabos te interessaria, então, saber o que Deus acha ou deixa de achar com relação a assuntos que envolvam a nossa vida em sociedade, se, de fato, todos nós rejeitamos o código de conduta que ele nos impôs, justamente porque não concordamos com ele, por considerar o modo como ele trata a vida humana moralmente inaceitável?

E eis que só há uma inevitável resposta:

Porque, na sua cabeça, o universo é dele, as regras foram feitas por ele, é ele quem manda, e, caso você o contrarie, você vai se ferrar. Eternamente.

É essa a prisão intelectual a que o religioso se sujeita, precisando justificar os atos imorais de sua divindade imoral, devido a um medo pavoroso do castigo eterno que essa mesma divindade fez questão de apregoar, o máximo que pôde, enquanto esteve aqui embaixo com a gente, em forma humana.

Em todos os Evangelhos, Jesus Cristo sempre se ocupou mais em nos falar do Inferno.

…continua…

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