Uma história sem final feliz (Pt. 3)

.

Até hoje, quantos dias você realmente aproveitou o máximo que pôde? Quanta gente interessante você conheceu? Que lugares inesquecíveis você  visitou? A quantas festas você foi? Quantos amigos você fez? Pra quantas pessoas você disse ‘eu te amo’? Até hoje, quantas histórias incríveis você tem pra contar? Será que alguém iria gostar de ler a sua biografia?

Eu normalmente me comporto como se fosse viver ainda mais 200 anos. E, pior: como se as pessoas que eu amo fossem durar isso tudo também. Mas todos os dias, todas as manhãs, eu me obrigo agora a encarar a verdade. E ela, a verdade, é inescapavelmente clara, inevitavelmente simples, e imutavelmente certa: eu vou viver, no máximo, mais algumas poucas décadas. E vai chegar o dia em que eu vou pensar que talvez não me restem mais do que alguns poucos anos, e, por fim, o dia em que eu vou me dar conta de que terei somente alguns minutos de vida.

Quando esse momento chegar, eu espero ter uma coleção interminável de respostas para aquelas perguntas. Porque, muito provavelmente, isso vai ser a única coisa que irá me confortar quando chegar a minha hora de me despedir de mim mesmo.

Quando você é criança, a morte não faz o menor sentido. Na verdade, ela não lhe diz respeito, nem lhe interessa. É quando você começa a realmente se dar conta do que é viver que a morte se lhe apresenta como uma lembrança inconveniente, como a certeza de que há um ladrão à espreita no quintal, esperando você sair para roubar a casa.

Dentre todos os danos que as religiões nos causam — como indivíduos, como sociedades e como espécie —, o maior deles é, sem dúvida, o de instilar nos nossos cérebros a ideia infantil de que vamos viver para sempre.

Não, queridos, não nessa vida! Porque aqui você já sabe como a história termina, e nunca tem um final feliz. Aqui você sempre morre. Nós estamos falando de um outro mundo; na verdade, de uma outra dimensão. Um lugar mágico onde essas regras daqui não se aplicam; onde o tempo não existe, e coisas que detestamos, como sofrimento, tristeza e morte, não fazem o menor sentido. Lá tudo é perfeito, bonito, alegre e… o melhor: lá é tudo Prá-Sem-Prê! O quê? Como que eu sei disso? Ora, está tudo aqui nesse livro.

A atitude correta aqui seria sugerir que uma pessoa assim fosse submetida a algum tipo de tratamento psiquiátrico. Mas não… Você compra a ideia. Você se deixa levar pelo fascínio doentio que esse pensamento infundado desperta, e não só aceita a fantasia como se esforça para divulgá-la, para que ela se espalhe como um vírus, contamine a todo mundo e ninguém venha lhe dizer, depois, que você está se enganando. Porque é justamente isso o que você quer: se enganar; acreditar que a sua história não vai acabar como parece que vai.

É o pensamento que sempre nos vem à mente para espantar essa sensação de estarmos sendo cercados aos poucos: você ouve que algum parente distante morreu; depois morrem seus avós, seus tios, seus pais, seus irmãos. Você percebe algo vindo na sua direção, a passos lentos, talvez; mas inexoravelmente constantes. De repente você se dá conta de que não há para onde fugir; que não há como escapar ao mesmo destino que os outros já tiveram. Com você não vai ser diferente. E é nesse ponto que entra a religião, para te vender uma ideia mentirosa, mas que te traz um benefício absurdo: viver essa vida imaginando que não será a última. E vendo na morte um novo começo, não o fim da sua história.

Porque todo mundo espera que uma história tenha sempre um final feliz.

.


Anúncios

Como fundar sua própria igreja [2/4]

Capítulo 2 – Aulas teóricas

Evidentemente que, para mandar em uma igreja evangélica, você precisa ter a mínima noção de como funciona uma igreja. Mas não se preocupe: não serão necessários dez anos de seminário nem curso de Teologia para se aprender, visto que até garotinhas de cinco anos conseguem chefiar multidões de crentes. A melhor fonte para você são as próprias igrejas que já existem e fazem sucesso, como a Igreja Universal. Comece a ir em alguns cultos da IURD, veja como o pastor fala e como ele faz para convencer o povo de que o dízimo de fato está afastando delas o demônio.

À noite, em vez de cair nas baladas, assista ao programa da Igreja Universal na Record, um prato cheio de métodos e técnicas de conversão em massa de pessoas. Lembre-se de anotar todas as frases de efeito proferidas pelos pastores e todos os versículos da Bíblia citados, mas pelo amor de Deus, cuidado para você também não se converter à IURD; não se esqueça de que os traficantes nunca se viciam nas drogas.

Além de acompanhar a prática conversiva na Igreja Universal, você também deverá ter um material de estudo em casa, que não precisa ser uma Bíblia. Recomendo um daqueles caderninhos vendidos em lojas evangélicas que vêm com uma lista de versículos bíblicos prontos, e também versões da Bíblia para crianças, daquelas que são cheias de imagens e texto bem simples, que qualquer moleque entende e se converte na hora (mas você não deve se converter de jeito algum, não esqueça). Depois de alguns dias de estudo teórico, quando você se sentir capaz de enrolar algumas pessoas com um discurso messiânico-capitalista, já poderá pensar na construção do templo.

Capítulo 3 – Construindo o templo

Fachada da sua igreja.

Para ter uma igreja evangélica, é fundamental um lugar destinado às pregações. Para isso você precisa arranjar um templo onde funcionará a Igreja Multinacional da Máfia de Deus. No começo, o templo não precisará ocupar a área de um campo de futebol e/ou uma sede estadual da Igreja Universal; o tamanho deve ser suficiente para juntar de 100 a 1000 pessoas no máximo. Templos muito grandes exigem maiores despesas com aluguel e contas de água, luz e telefone e, por ora, você não pode pagar tudo isso. Alugue um barracão do tamanho de um auditório, com um banheiro no máximo (mas que seja limpo, né?), e está ótimo por enquanto. Dentro do barracão, coloque várias cadeiras plásticas de baixo custo e improvise um altar à frente, com um crucifixo de madeira (pode ser aquele da casa da sua avó) e um microfone, se possível, senão você pode simplesmente falar um pouco mais alto e pronto.

Quanto à localização da igreja, prefira sempre comunidades grandes e pobres, de preferência a maior favela da sua cidade, afinal, gente pobre é muito mais fácil de manipular, se bem que o dízimo per capita não será grande coisa, mas igreja nenhuma começou já convertendo o Kaká e a Mara Maravilha logo de cara. Além disso, se o seu público inicial for carente, ninguém vai ligar para a falta de infra-estrutura no seu barracão clerical. O seu templo não poderá dar muitas despesas iniciais, como já foi dito acima; somando aluguel e as contas de água, luz e telefone, não passe de mil reais por mês. Pelo menos você não terá de pagar IPTU, por se tratar de uma igreja.

Capítulo 4 – Convertendo os primeiros adeptos

Esse é o objetivo das suas pregações.

Depois de arranjar uma sede inicial, está na hora de arrebatar otários fiéis para a Igreja Multinacional da Máfia de Deus. Se você seguiu ipsis litteris o capítulo anterior, não será difícil arrumar gente em meio à favela que você escolheu. Basta você prometer às pessoas que a sua igreja vai tirá-las daquela pobreza toda, que só existe por causa da ação do capeta sobre elas, e na pior das hipóteses, mesmo que a maioria morra pobre, a sua igreja lhes garantirá a chegada ao Paraíso, onde nunca mais haverá privações e blablablá.

Para falar com os potenciais adeptos, espere até o próximo domingo e vá até algum ponto frequentado por toda a comunidade, podendo ser uma feira livre, um camelódromo ou o boteco da esquina, e passe o dia fazendo pregações a quem passar por lá, afirmando todas as qualidades dessa religião salvadora e omitindo os defeitos. Não se esqueça de citar vários versículos bíblicos, por isso a importância daquele caderninho comprado na livraria evangélica. Nos outros dias, tente seguir de barraco em barraco falando com os moradores da comunidade sobre a sua igreja, mas tenha cuidado para não parecer Testemunha de Jeová, apenas diga que a sua nova igreja poderá lhes dar um novo sentido à vida, acabar com o sentimento de pobreza e com certeza garantir a chegada ao céu. Também tenha cuidado redobrado em não abordar a casa do traficante da região antes de ter recolhido pelo menos alguns dízimos.

O seu objetivo inicial é converter em torno de 100 pessoas para a igreja. Consideremos que o público é pobre e a renda mensal média desse povo gira na casa de 700 reais, portanto serão mais ou menos 70 reais de cada um por mês. Haverá fiéis um pouco mais abonados, uma classe média baixa talvez, com seus 1000 reais mensais, mas também tem os que não passam de 500 contos, por isso a média 700. Com esse público de 100 crentes, a receita total será de 7000 reais, contando só os dízimos. A despesa será de cerca de 1000 reais como foi falado acima, portanto, se der tudo certo, você terá um lucro mensal de 5 a 6 mil reais no começo. No primeiro mês, é melhor você ainda continuar no seu emprego normal, para poder custear os primeiros aluguéis e contas, mas com o tempo você deverá dar total atenção à igreja, quando você puder viver dos dízimos e ofertas.


Como fundar sua própria igreja [1/4]

Recebi por e-mail esse pequeno manual.

Ele vai ser publicado em 4 partes, para ensinar você como ganhar dinheiro vendendo um produto pelo qual o cliente vai passar a vida toda pagando, mas que só vai receber depois de morto.

INTRODUÇÃO

Aleluia, irmão! Você, por meio deste livro, agora você poderá criar a sua própria igreja evangélica e ser tão poderoso quanto Edir Macedo e R. R. Soares! Basta seguir os seguintes passos:

Capítulo 1 – Nome e denominação da igreja
Capítulo 2 – Aulas teóricas
Capítulo 3 – Construindo o templo
Capítulo 4 – Convertendo os primeiros adeptos
Capítulo 5 – Cultos
Capítulo 6 – Expandindo o quadro de pastores
Capítulo 7 – Expandindo a igreja
Capítulo 8 – Atividades extras
Capítulo 9 – Abrindo filiais
Capítulo 10 – Arrebatando a mídia (Pequenas igrejas, Grandes negócios)

Capítulo 1 – Nome e denominação da igreja

Para iniciar a sua igreja protestante (que é sinônimo de evangélico se você não sabia), antes de mais nada você deve escolher o tipo de protestantismo a ser seguido. São muitas opções: Igrejas Luteranas, Batistas, Metodistas, Presbiterianas, Anglicanas, Biscaterianas e o diabo a quatro, mas a opção de longe mais recomendada são as igrejas pentecostais, que fazem um sucesso imenso no Brasil e não têm a obrigação de se pautar nas regras da Reforma Protestante, que crente nenhum faz questão de conhecer. Ou, melhor ainda, siga a linha neopentecostal, que é igual aos pentecostais, com a diferença de que as pessoas não podem ver televisão à vontade e as mulheres precisam usar aquelas saias horrorosas e deixar o cabelo descuidado.

Agora escolha qual será o nome da sua igreja. Isso não será difícil; basta você usar a sua criatividade. Uma boa fórmula é começar o nome por Igreja, acrescentar um adjetivo enaltecedor, com o objetivo de passar uma ideia de abrangência, e, por último, um sinônimo para o lugar em que Deus vive, ou pelo menos que a maioria da população acredita ser o tal lugar. Também pode ser qualquer outro lugar bíblico, como por exemplo o Monte Sinai ou a muralha de Jericó. Abaixo segue um esquema:

Igreja + Adjetivo + do(a) + Substantivo + de Deus

Variantes sugeridas para o adjetivo:

Universal
Internacional
Interdimensional
Galáctica
Mundial
Intercontinental
Multinacional
Sensacional
Piramidal
Hexagonal
Maioral
Procedural
Carnal
Dodecagonal

Variantes sugeridas para o substantivo:

Reino
Graça
Universo
Poder
Empresa
Ordem
Máfia
Praça de Pedágio
Quadrilha
Patota
Turminha
Buraco
Suvaco
Barraco
Galáxia
Império

Para fazer exemplos, vamos pegar três modelos já existentes e adicionar alguns dos itens acima e criar alguns nomes de igrejas neopentecostais:

Igreja Universal do Reino de Deus
Igreja Internacional da Graça de Deus
Igreja Mundial do Poder de Deus

A partir destes três e dos itens sugeridos acima:

Igreja Galáctica do Universo de Deus
Igreja Intercontinental da Ordem de Deus
Igreja Multinacional da Máfia de Deus
Igreja Sensacional do Pagode de Deus
Igreja Carnal do Suvaco de Deus
Igreja Dodecagonal da Patota de Deus

Se você quer modelos mais sofisticados, também é possível substituir Deus por outras variantes bíblicas, mas aí não há uma receita de bolo. Mesmo assim darei alguns exemplos mais avançados:

Igreja Interdimensional da Praça de Pedágio da Muralha de Jericó
Igreja do Santo Dízimo de Cristo
Igreja da Mina de Ouro no Monte Sinai
Igreja de Jesus Cristo e Maria Madalena no Barraco de Deus
Igreja do Santo Dinheiro de Wall Street

Perfeito, a nossa igreja evangélica já tem um nome agora. Para ilustrar melhor este livro, usaremos o nome Igreja Multinacional da Máfia de Deus a partir deste ponto. O próximo passo é aprender como que se comanda uma igreja crente.

dinheiro-pastor-evangelico

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Parte final)

.

Depois do ato sexual, o espermatozoide vai levar de 8 a 12 horas para chegar até o óvulo e penetrá-lo, e mais 24 até se fundir com ele numa célula única. As divisões sucessivas que darão origem a um novo ser só vão começar dali a mais 40 horas, e o óvulo ainda precisará de 2 semanas para chegar no útero e tentar se fixar nele. Tudo dando certo até aqui, só em mais 2 meses o embrião ganhará sua primeira rede de neurônios, num total de três células. Os primeiros 3 neurônios dos seus futuros 86 bilhões.

Eu, particularmente, não vejo o menor problema em uma gestação ser interrompida no dia seguinte à fecundação, ou na sua primeira quinzena, por exemplo. Mas até que ponto eu continuaria sem “ver o menor problema”? Minha resposta mais sincera: eu não sei.

Por isso é tão importante a opinião dos meus pares, cidadãos iguais a mim, que compartilhem o mesmo código moral que eu; pessoas que tivessem aversão a sacrifícios humanos, a chantagens e genocídios, por exemplo. Mas o que eu não posso aceitar deles, é que seus argumentos venham embrulhados na sua fé religiosa. E por dois motivos bem simples.

O primeiro, é que eles não poderiam me convencer de que eu deveria dar ouvidos ao seu Deus específico, descartando todos os outros dos quais já ouvi falar. Além da vontade de estarem adorando o deus certo; além do desejo de que esse um seja o deus verdadeiro e os outros sejam todos falsos, eles não têm mais nada a oferecer.

O segundo motivo, é que eles precisariam me mostrar que seus padrões morais são os mesmos desse Deus da sua preferência, caso contrário, não haveria justificativa para usar sua fé como argumento.

A “questão do aborto” se nos apresenta como um problema que precisa de uma solução. E a solução não vai cair do céu. Ela terá que vir de nós mesmos, mas só quando nos dermos o trabalho de parar para discutirmos o assunto: com responsabilidade, com inteligência, com discernimento e, acima de tudo, sem recorrer a nenhum desses conjuntos de certezas hipócritas chamados de religião.

Não é a crença em uma criatura mágica habitante de uma dimensão insondável que torna uma pessoa boa e suas decisões acertadas. Citando um grande pensador, “Pessoas religiosas fazem coisas boas não porque são religiosas, mas porque são boas.” Não é uma religião que vai nos dizer o que é ser “humano”, nem é o que nos tornará melhores. O que nos tornará melhores é a fé que devemos ter em nós mesmos, como seres racionais capazes de diferenciar o que é certo do que é errado; aquilo que nos prejudica, daquilo que nos engrandece; o que pode nos levar a viver mais como indivíduos e melhor como sociedade, daquilo que pode nos aniquilar, ou nos fazer envergonhar a própria Evolução por nos ter permitido um cérebro tão maravilhoso, mas que não soubemos como usar.

O aborto, assim como a eutanásia e a pena de morte, são questões para se discutir até que a nossa sociedade global lhes dê uma resposta única, porque eu não conheço mais de uma humanidade habitando este planeta. O que há são pessoas em diferentes lugares cultuando diferentes criadores do universo, cada um dizendo uma coisa diferente sobre os nossos mesmos problemas.

A religião pretende nos convencer de que a fé em deuses nos é mais útil do que a nossa razão, e ludibria cada nova geração ensinando que é com base na fé religiosa que construímos nossa moral. Dois equívocos tão perniciosos, deletérios e ultrajantes para a dignidade humana que seus propagadores deveriam ser procurados como criminosos. Para nossa infelicidade, porém, não só eles ainda são vistos como pessoas de respeito, como são investidos de indevida autoridade para falar em nosso nome, isso quando não se outorgam o direito de dar a palavra final justamente sobre aqueles dilemas que nos furtamos a decidir por nós mesmos.

A polêmica sobre o aborto é só uma das questões morais que ainda precisamos resolver. Mas para chegarmos a um consenso sobre o que é certo e errado, é preciso parar de argumentar em nome de Deus, e tentar eliminar as nossas dúvidas, usando toda a nossa humanidade, em nome da Vida.

.

.

..


Consultei: Vida: o primeiro instante.

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 6)

.

Você seria capaz de torturar uma criança por 7 dias, até matá-la, como forma de punição aos pais dela?

Você seria capaz de afogar todos os seus filhos se eles não estivessem se comportando de acordo com o que você esperava deles?

Você seria capaz de exigir que alguém matasse o próprio filho como uma prova de obediência a você?

Você seria capaz de permitir que alguém arrasasse — física, social e psicologicamente — a vida de uma pessoa que te ama, só para “testar” se o amor que ela sente é mesmo verdadeiro, e se ela ainda continuaria tendo essa devoção a você, mesmo estando no fundo do poço?

Você torturaria um inocente até à morte, como parte de um ritual planejado por você mesmo, para se sentir em condições de perdoar as outras pessoas por não seguirem as suas ordens?

Não? Parabéns. Eu também não. E acho que nenhuma pessoa minimamente decente que você conheça responderia o contrário.

Mas Deus não seria minimamente decente, se existisse. Não pelos nossos padrões. Segundo a Bíblia, ele não só praticou esses atos imorais (com os quais você, obviamente, não concordou), como centenas de outros que também não receberiam sua aprovação.

Donde se chega à inevitável pergunta: 

Para que diabos te interessaria, então, saber o que Deus acha ou deixa de achar com relação a assuntos que envolvam a nossa vida em sociedade, se, de fato, todos nós rejeitamos o código de conduta que ele nos impôs, justamente porque não concordamos com ele, por considerar o modo como ele trata a vida humana moralmente inaceitável?

E eis que só há uma inevitável resposta:

Porque, na sua cabeça, o universo é dele, as regras foram feitas por ele, é ele quem manda, e, caso você o contrarie, você vai se ferrar. Eternamente.

É essa a prisão intelectual a que o religioso se sujeita, precisando justificar os atos imorais de sua divindade imoral, devido a um medo pavoroso do castigo eterno que essa mesma divindade fez questão de apregoar, o máximo que pôde, enquanto esteve aqui embaixo com a gente, em forma humana.

Em todos os Evangelhos, Jesus Cristo sempre se ocupou mais em nos falar do Inferno.

…continua…

.

.

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 5)

.

Quando, por algum motivo, temas polêmicos como eutanásia, pena de morte ou aborto voltam a despertar o interesse do público, as tevês costumam inserir, em seus programas mais populares, algum religioso comentando o assunto, uma vez que entendem que ele representa e personifica a moral da nossa “sociedade cristã”. São aqueles padres-cantores, um membro da alta hierarquia católica, ou um desses famosos pastores-multimídia-donos-de-igreja, que vêm nos dizer o que Deus espera de nós, nesses casos extremos em que o nosso entendimento coletivo do que seja “certo” e “errado” é chamado a decidir quando — e “se” — nos é permitido tirar a vida de uma pessoa, ou mesmo nunca deixar que ela venha  a existir.

Longe de ser um ponto a favor da democracia, ou um tributo à diversidade de opiniões; longe de ser uma demonstração de civilidade, isso é apenas a confirmação de que nos acostumamos com a hipocrisia como se ela fizesse parte do clima.

É preocupante como, nos dias de hoje, não nos incomodamos quando uma pessoa, em nada diferente de nós mesmos, resolve se investir da autoridade de quem conhece as intenções e vontades de um ser supremo, perfeito, eterno e superpoderoso, que está, a todo instante, monitorando a gincana que inventou, para, conforme nossa pontuação final, poder nos premiar com o Céu ou nos castigar com o Inferno — duas dimensões mágicas que foram descobertas, há mais de dois mil anos, por criadores de cabras de um deserto no Oriente Médio.

Essa hipocrisia travestida de coisa sagrada fascina tanto os cristãos que eles se recusam a perceber que estão apenas fingindo, descaradamente, para si mesmos e para os seus confrades, que a sua moral tem alguma coisa a ver com a moral do seu Deus. Mas isso ainda não nos traz tanto prejuízo, como sociedade, quanto o fato de todo o resto de nós aceitar esse culto à hipocrisia de uma forma tão inerte, como se a divulgação, em cadeia nacional, das opiniões desses xamãs de araque servisse para alguma coisa, ou, pelo menos, não fosse lá assim tão prejudicial pra ninguém, no fim das contas.

Mas é prejudicial, sim. A moral de Deus não é o nosso padrão de moral. Aceitar a inversão dessa verdade é ser conivente com toda a farsa religiosa, que só tem atrasado o nosso desenvolvimento humano e tecnológico ao longo da nossa história, sem falar em todo o sofrimento trazido a reboque, como punição a nós mesmos por sermos tão tolos.

As declarações na tevê de um padre ou pastor evangélico sobre o que Deus quer que façamos em relação ao aborto ou à manipulação de células-tronco, por exemplo, não deveria nos interessar, porque a moral de Deus não nos serve como referência. E a prova disso é que o cristão, de qualquer denominação religiosa, não a segue, não a aceita, e, na maioria das vezes, sequer a conhece.

A moral do Deus bíblico, quando não é volúvel e contraditória em si mesma, apresenta-se absurdamente incompatível com a nossa, contrária ou altamente danosa a ela.

Não devemos aceitar que a crença religiosa num deus específico oriente nosso julgamento naquelas questões de vida e morte porque, para isso, as nossas decisões precisariam estar em consonância com a moral dessa divindade, e ela não está. O cristão finge o contrário e, por condicionamento, medo e vício psicológico, tenta fortalecer sua fé bovina na ilusão de que sua moral vem de Deus. Mas há algo que se opõe a esse pensamento dentro da cabeça do próprio crente, só que trancafiado numa região inacessível à sua razão. Uma constatação tão irrefutável e incômoda que aqueles padres, pastores e até o papa devem trazê-la aprisionada no mais profundo dos calabouços mentais, porque se, inadvertidamente trazida à tona, viesse a escapar para o consciente coletivo do fiéis, seria o fim dessa religião:

Deus é imoral.

 …continua…

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 4)

.

.

Ninguém deveria se posicionar contra ou a favor do aborto sem antes se submeter a um pequeno teste que eu vou reproduzir aqui, comigo mesmo no papel de “rei Salomão”. Funciona assim: a cada situação hipotética, envolvendo uma solicitação para que um aborto seja realizado, eu terei que decidir o que fazer e justificar a decisão tomada. 

Situação 1

Uma grávida de quase 8 meses me faz o pedido para abortar a criança, porque descobriu que o pai do bebê estava de caso com outra mulher, e ela não quer mais ter um filho com ele.

Decisão: INDEFERIDO.

Interromper a gravidez nesse estágio seria assassinato: uma barriga de 8 meses já envolve um ser humano.

Situação 2

Uma mulher me faz o pedido de autorização para tomar “a pílula do dia seguinte”, pois transou com o namorado sem preservativo, mesmo estando no período fértil.

Decisão: DEFERIDO.

Esse tipo de anticoncepcional atua impedindo que ocorra a fecundação e descamando a parede interna do útero, para que um óvulo fecundado não se fixe nele, e seja eliminado naturalmente. É o que ocorre a cerca de 50% de todos os óvulos fecundados, mesmo quando as mamães querem muito engravidar, e ninguém acha que “vidas” foram perdidas nesses casos, nem faz passeatas nem velórios por causa delas.

Situação 3

Uma grávida de 6 meses pede para proceder o aborto, uma vez que vários exames, feitos e repetidos nos últimos 30 dias, diagnosticaram que o feto não tem cérebro.

Decisão: DEFERIDO.

Em 98% dos casos de anencefalia, os bebês morrem na primeira semana após o nascimento; os outros 2% não resistem a mais do que uns poucos meses. Não há por que exigir que uma mulher leve a cabo uma gravidez que só serviria para debilitá-la, física e psicologicamente, sem que o feto tivesse nenhum benefício.

Situação 4

Uma mulher fez o teste de gravidez um mês após ter sido vítima de estupro e, descobrindo-se grávida, quer fazer o aborto.

Decisão: DEFERIDO.

Mesmo tendo cometido a imprudência de esperar pelo atraso da menstruação para, só então, fazer o teste de gravidez, ainda estamos falando de um amontoado de células que, embora já apresente uma estrutura primordial que dará origem a um coração, só vai começar a esboçar um sistema nervoso dali a mais 30 dias. A opção da mulher em não querer ser mãe de uma criança gerada nessas condições infames é simplesmente indiscutível.

Situação 5

Uma mulher solicita autorização para interromper a gravidez de 3 meses, porque se verificou que o feto estava muito mal formado, sem os membros superiores e inferiores, e ela não quer ser a responsável por gerar um ser humano com tamanho grau de deformidade, que passará toda a vida dependendo dos outros para tudo e qualquer coisa, além de alegar que passaria o resto de sua própria vida sofrendo em ver um filho em tais condições.

Decisão: Ups!

Situação 6

Uma mulher pede para interromper a gravidez de menos de um mês, depois de ter engravidado acidentalmente. Ela e o marido decidiram que aquele não seria o melhor momento para o casal ter um filho.

Decisão: Ups!

Meu julgamento foi baseado na minha moral, no meu entendimento do que seja “certo” e “errado”, no meu conhecimento de mundo. É algo muito parecido com um cálculo matemático que, através de uma fórmula insondável, pesa os prós e os contras, compara as consequências, pondera os motivos, avalia os prejuízos, os riscos e os benefícios, além de umas outras tantas variáveis, e fornece um resultado límpido, um “x” austero e decidido, que me diz o que fazer em cada caso.

Nas quatro primeiras situações, essa fórmula me bastou para me convencer de qual decisão tomar. Mas por que ela não me valeu nas duas últimas hipóteses? Resposta: porque eu percebi que não tinha o discernimento necessário para “julgar” esses casos; como se faltassem dados a serem computados. Nessas situações, e por isso mesmo, experimenta-se a extrema necessidade de buscar o apoio moral dos demais:

O que as outras pessoas fariam? O que elas pensam a respeito? 

As respostas a essas perguntas, entretanto, precisam ser racionais. O consenso que irá se originar delas será um somatório de todos aqueles “x”, depois de inseridos os dados que ficaram faltando. A nossa moral deve ser guiada pela nossa razão, pelo senso comum do que seja “certo” e “errado”, “aceitável” e “inaceitável”, “humano” e “desumano”. A nossa moral é o que justifica os nossos atos através da nossa humanidade.

No próximo texto, eu vou mostrar por que, no debate que envolve questões de vida e morte, como a eutanásia, a pena capital e o aborto, a fé religiosa precisa ficar — obrigatoriamente — fora daquela equação.

.

…continua…

%d blogueiros gostam disto: