Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 5)

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Quando, por algum motivo, temas polêmicos como eutanásia, pena de morte ou aborto voltam a despertar o interesse do público, as tevês costumam inserir, em seus programas mais populares, algum religioso comentando o assunto, uma vez que entendem que ele representa e personifica a moral da nossa “sociedade cristã”. São aqueles padres-cantores, um membro da alta hierarquia católica, ou um desses famosos pastores-multimídia-donos-de-igreja, que vêm nos dizer o que Deus espera de nós, nesses casos extremos em que o nosso entendimento coletivo do que seja “certo” e “errado” é chamado a decidir quando — e “se” — nos é permitido tirar a vida de uma pessoa, ou mesmo nunca deixar que ela venha  a existir.

Longe de ser um ponto a favor da democracia, ou um tributo à diversidade de opiniões; longe de ser uma demonstração de civilidade, isso é apenas a confirmação de que nos acostumamos com a hipocrisia como se ela fizesse parte do clima.

É preocupante como, nos dias de hoje, não nos incomodamos quando uma pessoa, em nada diferente de nós mesmos, resolve se investir da autoridade de quem conhece as intenções e vontades de um ser supremo, perfeito, eterno e superpoderoso, que está, a todo instante, monitorando a gincana que inventou, para, conforme nossa pontuação final, poder nos premiar com o Céu ou nos castigar com o Inferno — duas dimensões mágicas que foram descobertas, há mais de dois mil anos, por criadores de cabras de um deserto no Oriente Médio.

Essa hipocrisia travestida de coisa sagrada fascina tanto os cristãos que eles se recusam a perceber que estão apenas fingindo, descaradamente, para si mesmos e para os seus confrades, que a sua moral tem alguma coisa a ver com a moral do seu Deus. Mas isso ainda não nos traz tanto prejuízo, como sociedade, quanto o fato de todo o resto de nós aceitar esse culto à hipocrisia de uma forma tão inerte, como se a divulgação, em cadeia nacional, das opiniões desses xamãs de araque servisse para alguma coisa, ou, pelo menos, não fosse lá assim tão prejudicial pra ninguém, no fim das contas.

Mas é prejudicial, sim. A moral de Deus não é o nosso padrão de moral. Aceitar a inversão dessa verdade é ser conivente com toda a farsa religiosa, que só tem atrasado o nosso desenvolvimento humano e tecnológico ao longo da nossa história, sem falar em todo o sofrimento trazido a reboque, como punição a nós mesmos por sermos tão tolos.

As declarações na tevê de um padre ou pastor evangélico sobre o que Deus quer que façamos em relação ao aborto ou à manipulação de células-tronco, por exemplo, não deveria nos interessar, porque a moral de Deus não nos serve como referência. E a prova disso é que o cristão, de qualquer denominação religiosa, não a segue, não a aceita, e, na maioria das vezes, sequer a conhece.

A moral do Deus bíblico, quando não é volúvel e contraditória em si mesma, apresenta-se absurdamente incompatível com a nossa, contrária ou altamente danosa a ela.

Não devemos aceitar que a crença religiosa num deus específico oriente nosso julgamento naquelas questões de vida e morte porque, para isso, as nossas decisões precisariam estar em consonância com a moral dessa divindade, e ela não está. O cristão finge o contrário e, por condicionamento, medo e vício psicológico, tenta fortalecer sua fé bovina na ilusão de que sua moral vem de Deus. Mas há algo que se opõe a esse pensamento dentro da cabeça do próprio crente, só que trancafiado numa região inacessível à sua razão. Uma constatação tão irrefutável e incômoda que aqueles padres, pastores e até o papa devem trazê-la aprisionada no mais profundo dos calabouços mentais, porque se, inadvertidamente trazida à tona, viesse a escapar para o consciente coletivo do fiéis, seria o fim dessa religião:

Deus é imoral.

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Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 4)

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Ninguém deveria se posicionar contra ou a favor do aborto sem antes se submeter a um pequeno teste que eu vou reproduzir aqui, comigo mesmo no papel de “rei Salomão”. Funciona assim: a cada situação hipotética, envolvendo uma solicitação para que um aborto seja realizado, eu terei que decidir o que fazer e justificar a decisão tomada. 

Situação 1

Uma grávida de quase 8 meses me faz o pedido para abortar a criança, porque descobriu que o pai do bebê estava de caso com outra mulher, e ela não quer mais ter um filho com ele.

Decisão: INDEFERIDO.

Interromper a gravidez nesse estágio seria assassinato: uma barriga de 8 meses já envolve um ser humano.

Situação 2

Uma mulher me faz o pedido de autorização para tomar “a pílula do dia seguinte”, pois transou com o namorado sem preservativo, mesmo estando no período fértil.

Decisão: DEFERIDO.

Esse tipo de anticoncepcional atua impedindo que ocorra a fecundação e descamando a parede interna do útero, para que um óvulo fecundado não se fixe nele, e seja eliminado naturalmente. É o que ocorre a cerca de 50% de todos os óvulos fecundados, mesmo quando as mamães querem muito engravidar, e ninguém acha que “vidas” foram perdidas nesses casos, nem faz passeatas nem velórios por causa delas.

Situação 3

Uma grávida de 6 meses pede para proceder o aborto, uma vez que vários exames, feitos e repetidos nos últimos 30 dias, diagnosticaram que o feto não tem cérebro.

Decisão: DEFERIDO.

Em 98% dos casos de anencefalia, os bebês morrem na primeira semana após o nascimento; os outros 2% não resistem a mais do que uns poucos meses. Não há por que exigir que uma mulher leve a cabo uma gravidez que só serviria para debilitá-la, física e psicologicamente, sem que o feto tivesse nenhum benefício.

Situação 4

Uma mulher fez o teste de gravidez um mês após ter sido vítima de estupro e, descobrindo-se grávida, quer fazer o aborto.

Decisão: DEFERIDO.

Mesmo tendo cometido a imprudência de esperar pelo atraso da menstruação para, só então, fazer o teste de gravidez, ainda estamos falando de um amontoado de células que, embora já apresente uma estrutura primordial que dará origem a um coração, só vai começar a esboçar um sistema nervoso dali a mais 30 dias. A opção da mulher em não querer ser mãe de uma criança gerada nessas condições infames é simplesmente indiscutível.

Situação 5

Uma mulher solicita autorização para interromper a gravidez de 3 meses, porque se verificou que o feto estava muito mal formado, sem os membros superiores e inferiores, e ela não quer ser a responsável por gerar um ser humano com tamanho grau de deformidade, que passará toda a vida dependendo dos outros para tudo e qualquer coisa, além de alegar que passaria o resto de sua própria vida sofrendo em ver um filho em tais condições.

Decisão: Ups!

Situação 6

Uma mulher pede para interromper a gravidez de menos de um mês, depois de ter engravidado acidentalmente. Ela e o marido decidiram que aquele não seria o melhor momento para o casal ter um filho.

Decisão: Ups!

Meu julgamento foi baseado na minha moral, no meu entendimento do que seja “certo” e “errado”, no meu conhecimento de mundo. É algo muito parecido com um cálculo matemático que, através de uma fórmula insondável, pesa os prós e os contras, compara as consequências, pondera os motivos, avalia os prejuízos, os riscos e os benefícios, além de umas outras tantas variáveis, e fornece um resultado límpido, um “x” austero e decidido, que me diz o que fazer em cada caso.

Nas quatro primeiras situações, essa fórmula me bastou para me convencer de qual decisão tomar. Mas por que ela não me valeu nas duas últimas hipóteses? Resposta: porque eu percebi que não tinha o discernimento necessário para “julgar” esses casos; como se faltassem dados a serem computados. Nessas situações, e por isso mesmo, experimenta-se a extrema necessidade de buscar o apoio moral dos demais:

O que as outras pessoas fariam? O que elas pensam a respeito? 

As respostas a essas perguntas, entretanto, precisam ser racionais. O consenso que irá se originar delas será um somatório de todos aqueles “x”, depois de inseridos os dados que ficaram faltando. A nossa moral deve ser guiada pela nossa razão, pelo senso comum do que seja “certo” e “errado”, “aceitável” e “inaceitável”, “humano” e “desumano”. A nossa moral é o que justifica os nossos atos através da nossa humanidade.

No próximo texto, eu vou mostrar por que, no debate que envolve questões de vida e morte, como a eutanásia, a pena capital e o aborto, a fé religiosa precisa ficar — obrigatoriamente — fora daquela equação.

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…continua…

Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 3)

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Interromper uma gravidez nos seus estágios finais não poderia ser outra coisa que não assassinato. Uma gestação de 38 semanas já produziu um novo ser humano. O bebê estar dentro da barriga da mãe e não nos braços dela é apenas um detalhe irrelevante. Uma avaliação racional, porém, não permite que se tenha esse mesmo pensamento com relação a um óvulo que acabou de ser invadido por um espermatozoide.

Uma pessoa joga fora mais material genético quando assoa o nariz do que o contido num zigoto, que é o nome que o óvulo recebe até conseguir se fixar na parede do útero — duas semanas após ter sido fecundado —, quando passa a ser chamado de embrião. Impedir que esse pequeno grupo de células venha a se transformar num ser humano, pela interferência direta no processo, é um atentado à vida tão grande quanto aquele que uma mulher comete quando recusa o convite de um homem para um jantar ou para um “cineminha”. Nos dois casos, levando-se em conta as possibilidades e potenciais, tudo passaria a ser uma questão de tempo até que um novo ser vivo viesse ao mundo.

A Igreja Católica entende que a vida começa na fecundação, pelo que justifica sua acirrada oposição ao aborto. Entretanto, ela não demonstra a mesma preocupação com os embriões descartados nas clínicas de fertilidade, onde de cada 10 óvulos fecundados em laboratório, em média, apenas 3 são selecionados para inseminar a futura mamãe. Os outros 7 podem ser congelados em Nitrogênio líquido, mas o mais provável é que sejam apenas borrifados com álcool comum.

E qual a diferença entre um óvulo fecundado no útero materno e outro fecundado num tubo de ensaio? Considerando-se apenas os óvulos: nenhuma. Por que, então, a Igreja parece não dar a mínima para esses últimos?

Porque a religião só se preocupa com ela mesma.

Acompanhe o raciocínio. Doutrinada no princípio moral de que uma gravidez não deve ser interrompida, uma família católica em que a mulher engravidou contra a vontade irá, obrigatoriamente, ganhar um novo membro e aumentar de tamanho. Já uma família católica em que a mulher não consiga engravidar, pelos meios normais, também poderá crescer em número, desde que ninguém se incomode em fazer barulho pelos 7 lindos “bebezinhos” que serão quimicamente dissolvidos em álcool de farmácia.

A Igreja Católica, como qualquer outro dirigente de um sistema de crenças, precisa exercer controle sobre seus crentes. Só através do controle, ela poderá manter-se no poder; e quanto mais gente para controlar, mais poder ela terá. Por isso a campanha mundial de oposição ao aborto, mesmo que nos primeiros dias de gestação. Por isso a proibição intransigente ao uso de métodos contraceptivos, mesmo que seja para evitar que as pessoas disseminem um vírus mortal.

No fim das contas, a polêmica do aborto para a Igreja é somente uma questão política. Do ponto de vista moral, não haveria como se justificar um respeito tão grande em relação a um embrião dentro de uma mulher, e um desprezo de igual tamanho a todos os outros que boiam em soluções estéreis, sem futuro e sem religião, dentro de frios túmulos de vidro.

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Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 2)

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Tudo leva a crer que a grande polêmica sobre o aborto reside no fato de que nos é moralmente inaceitável tirar a vida de um ser humano, mais ainda quando ele está  tão indefeso quanto um bebê no útero materno. Mas, para se tirar a vida de um ser humano, é preciso, antes, que exista um ser humano.

Na Roma antiga, o aborto em qualquer estágio da gravidez era moralmente aceitável, porque o bebê  só era visto como um indivíduo, um cidadão, após o nascimento. Platão, que defendia o “aborto obrigatório” para mulheres que engravidassem após os 40 anos, acreditava que a “alma” só entrava no corpo no momento do parto. Já para Aristóteles, a vida intrauterina se iniciava com o primeiro movimento do feto, que acontecia por volta de 40 dias depois da fecundação, para o sexo masculino, ou 90 dias, para o feminino, pois, sendo seres inferiores, as mulheres se desenvolviam mais lentamente.

Essa concepção aristotélica da origem da vida foi chancelada por figurões da Igreja, como Tomás de Aquino e Agostinho, tornando-se a visão oficial do catolicismo até o século 16, quando o papa Sixto V proibiu a interrupção da gravidez sob pena de excomunhão, que é quando o papa assina um documento obrigando Deus a enviar uma pessoa para o Inferno. Entretanto, o sucessor de Sixto V, o papa Gregório IX, após uma reunião com o Criador, revogou essa lei e ficou tudo como estava antes, até o século 19, quando o papa Pio IX conseguiu convencer Deus de que, realmente, a vida humana se inicia quando o espermatozoide entra no óvulo.

Estamos esperando o resultado de uma nova audiência que o papa Chico terá com Deus, para acertar algumas arestas com o Todo-Poderoso, uma vez que, se for para considerar um óvulo fecundado como sendo uma pessoa, Deus vai ter sua reputação de projetista inteligente terrivelmente abalada, porque 50% desses óvulos não conseguem se fixar na parede do útero, sendo expelidos naturalmente na menstruação. Logo, por extrema e injustificada incompetência, pois ele é perfeito, Deus seria responsável por mais abortos do que qualquer doutorzinho de clínica clandestina. E outra, como querer considerar que o ser humano se origina no encontro do óvulo com o espermatozoide se, até 15 dias após a fecundação, o embrião pode se dividir e produzir 2 ou 3 seres humanos distintos?

Essas perguntas Deus não pode deixar de responder. Enquanto não responde, por tradição, a Igreja Católica permanece com sua posição de dois séculos atrás, confirmando a tese de que Deus é meio lentinho para tomar decisões importantes.

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Aborto: a batalha entre fé, moral e razão (Pt. 1)

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Não, senhora! A decisão de dar prosseguimento ou de interromper uma gravidez não deve ser única e incondicionalmente  sua.

Essa posição radical é apenas o resultado de uma campanha intransigente, feita por militantes birrentas de um feminismo anacrônico, que, acho eu, não tendo mais como entrar em evidência queimando sutiãs em praça pública, procuram outras formas de mostrar que ainda estão “na ativa” — e, aparentemente, sem nenhuma outra ocupação útil, sem mais nada para fazer além de tentar nos convencer de que as mulheres ainda precisam dessa militância na mídia, para conseguir-lhes alguma coisa.

Precisam não. Uma vez que a nossa sociedade cristã adquiriu a maturidade necessária para renegar a política fundamentalmente sexista e ostensivamente machista do seu próprio Deus, a mulher perdeu o estigma que o Criador havia lhe imposto de ser inferior imundo e contaminante, concebido apenas para o conforto e usufruto do homem, fazendo com que o feminismo perdesse sua razão de ser. E questões como discrepâncias de salário e assédio sexual, por exemplo, podem muito bem ser resolvidas, hoje, sem a necessidade de passeatas.

 

Mas, para efeito de raciocínio, considere-se a adesão plena àquela causa: a decisão sobre o que fazer com a vida que carrega dentro de si caberia, exclusiva e incondicionalmente, à gestante; à mulher; à fêmea da nossa espécie. Isso recorrendo-se, talvez, ao argumento feminista de que, afinal, “o corpo é dela”.

Nós temos um princípio moral pelo que se entende que ninguém tem o direito de fazer o que bem quiser com o próprio corpo. Ninguém tem, por exemplo, o direito de tirar a própria vida, bem como até incorre em crime aquele que auxilie uma pessoa a se matar, ou assista ao seu suicídio de braços cruzados. Sendo assim, não é porque tem uma vida em formação dentro do seu corpo que uma mulher possa requerer o direito de decidir sobre o que fazer com ela. Ceder a esse apelo insensato seria considerar moralmente aceitável uma gestante interromper a gravidez, aos sete, oito meses, só porque descobriu que estava sendo traída pelo pai da criança, com o qual não teria mais intenção de constituir família; ou fazer o aborto na terceira, quarta semana, porque apareceu uma viagem imprevista e a barriga seria uma bagagem que ela não iria querer levar.

Também não seria aceitável, por exemplo e em contrapartida, permitir que uma mulher teimasse em levar a cabo uma gravidez que a conduziria à morte, contrapondo à argumentação clínica, embasada em séculos de conhecimento acumulado, sua esperança folclórica na intervenção sobrenatural de um ente superpoderoso habitante de uma dimensão mágica que, tendo recebido telepaticamente suas preces, salvaria ela e a criança.

Ninguém em sã consciência se posicionaria a favor de tais atitudes, logo, o argumento feminista não se sustenta. A polêmica sobre o aborto — quando é ou não aceitável, quando pode ou não pode, quando deve ou não uma gravidez ser interrompida — não deve ser avaliada, muito menos decidida, como se fosse uma questão sexista — ela é uma questão moral. E a nossa moral nos sugere que todo ser humano tem o direito à vida.

Uma vez entendida essa parte, resta apenas recorrer à razão para entender, também, quando a fusão de um espermatozoide com um óvulo deixa de ser um aglomerado de células, como as que são descartadas sem culpa ao se cortar o cabelo ou fazer as unhas, e se transforma num “ser humano”.

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DEUS – Manual do Usuário

Introdução

Parabéns!

Você acaba de estar adquirindo um produto de altíssima qualidade e de eficácia comprovada por um incalculável número de pessoas, das mais diversas culturas, ao longo de milhares de anos! Um produto quase tão onipresente no mundo quanto a Coca-Cola! Quase tão eficiente e perfeito quanto o Windows 8!

Entretanto nós fortemente recomendamos que você leia antes todas as instruções contidas neste manual! Somente a leitura cuidadosa deste guia vai estar assegurando a você um correto uso de Deus, evitando assim possíveis transtornos causados pelo seu manuseio inadequado, bem como a subutilização de suas funções. 

O completo conhecimento dos assuntos tratados aqui servirá para prevenir que você possa estar colocando Deus em contato com coisas altamente danosas ao equipamento, como raciocínio e bom senso, que fatalmente poderão estar afetando o seu desempenho.

(Dê atenção especial ao Cap. 1 – Recomendações de Segurança.)

Lembramos que, se você nasceu num país de tradição cristã (ou, pelo menos, nasceu numa família cristã), Deus foi instalado no seu cérebro automaticamente e já se encontra pronto para uso, mas é necessário ler, o quanto antes, o Cap. 4 – Manutenção da Carga da Beteria, ou você poderá estar correndo o risco de se tornar um ateu e, assim, poderá estar dando um tremendo desgosto aos seus pais e aos seus entes mais queridos!

IMPORTANTE!

Caso você tenha nascido num país que instalou indevidamente o deus errado no seu cérebro, você pode estar consultando imediatamente o Cap. 2 – Instalação Manual, antes de estar prosseguindo com a leitura.  

Uma vez instalado com sucesso, o produto tem garantia vitalícia contra defeitos de fabricação, sendo que todo e qualquer problema que ele possa estar apresentando atribuído à operação incorreta por parte do usuário. Ainda assim, você pode estar se dirigindo a uma de nossas inúmeras Assistências Técnicas Autorizadas perto da sua casa. Com um pouco de sorte, talvez haja uma bem aí na esquina da sua rua!

Lembramos, finalmente, que cada Assistência Técnica tem sua própria versão de Deus, bem como total autonomia para estar cobrando o valor ideal nas taxas de instalação, reinstalação, atualização e reparos que julgar necessários ao produto, variando desde um pagamento simbólico e/ou opcional, até quantias absurdas que levam muitos incautos à falência e até à penúria. Entretanto, para efeito legal, informamos que o valor máximo cobrado não pode estar excedendo a 10% dos seus ganhos mensais.

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Cap. 1 – Recomendações de Segurança

Cap. 2 – Instalação Manual

Cap. 3 – Conhecendo o Produto

Cap. 4 – Manutenção da Carga da Bateria

Cap. 5 – Recarga Autônoma da Bateria: Fé

Cap. 6 – Funções – Parte I

Cap. 7 – Funções – Parte II

Cap. 8 – Funções – Parte III

Cap. 9 – Solução de Problemas

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A NORMAL (fim)

anormal

Numa sociedade que não vê o descrente com bons olhos, formulários de dados pessoais listam no campo Religião a opção Ateus. Fazendo um paralelo com o campo Automóvel, a exata correspondência teria que ser uma opção como Não sei dirigirÉ como se o ‘amotorista’ tivesse que assumir para si mesmo que lhe falta algo, além do carro. Não tem seria a resposta mais precisa para indicar a relação do ateu com a religião, mas não é a mais conveniente, porque a sociedade quer deixar claro que, como no caso do ‘amotorista’, também lhe falta algo: a competência, a habilidade, a capacidade intelectual para perceber Deus.

Um equívoco que o onipresente preconceito contra ateus conseguiu enfeitar e vender como verdade, é a declaração de que “o ateísmo também é um tipo de crença”, onde se percebe o sofisma que pretende confundir a crença vinculada apenas à falta de conhecimento, com a crença religiosa e com a fé. O fato de ser impossível provar que deuses são apenas fruto da imaginação humana, que é o argumento ateísta, não transforma um ateu num crente na inexistência de deuses, muito menos na inexistência de um Deus específico.

Como ninguém nunca me perguntou em quais deuses eu não acredito, ou quais cidades eu nunca visitei, ou quais nomes não são o meu nome, eu elaborei a minha Teoria Taxonômica Sofismática da Negativização, pelo que se estabelece a relevância que se dá às coisas que “não são”. Por exemplo, alguém que não sabe ler nós definimos como analfabeto, admitindo-se como padrão a capacidade da leitura; mas não designamos como ‘amotorista’ aquele que não sabe dirigir. Isso porque existe uma intenção social embutida na negativização dos termos. Seria vantajoso para a sociedade se todo mundo soubesse ler? Sim. Então nomeia-se a condição negativa: analfabeto. Seria vantajoso se todo mundo soubesse dirigir? Não!! Então melhor esquecer o ‘amotorista’, porque palavras negativizadas sempre mexem com os brios das pessoas, e ninguém vai querer mais gente aprendendo a dirigir e entupindo as ruas com ainda mais carros. 

Nesses moldes tem-se o “descrente”, na sua forma mais popular “ateu”, cuja definição é propagandeada como sendo aquele que crê na inexistência de Deus. Só que não faz sentido acreditar na inexistência de algo, assim como não faz sentido aprender a não ler, ou a não dirigir. 

O ateísmo é apenas uma reação à crença religiosa, do mesmo modo que a força Normal é a reação da força Peso. Assim como a Normal, o ateísmo não existe por si, nem faz nada além de tentar manter as coisas em equilíbrio, evitando que o ser humano, ao desafiar a gravidade da razão, despenque no abismo de sua própria loucura.

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