Quando o assunto é a Bíblia…

Quando o assunto é a Bíblia, o crente sabe quando um versículo tem que ser tomado ao pé da letra e quando precisa ser reinterpretado; sabe quando uma lei  divina ainda é válida para os nossos dias ou se só serviu para a época em que foi escrita; sabe quando uma passagem contém a exata palavra de Deus e quando foi indevidamente misturada às idiossincrasias do autor terreno que a escreveu, ou às peculiaridades e influências do seu próprio tempo; sabe quando ‘a Palavra’ está mesmo escrita no texto e quando está escondida nas entrelinhas; sabe diferenciar um relato ‘real’ de um ‘alegórico’; e sabe até quando Deus mandou escrever uma coisa e quis dizer outra.

.

A versão original do Pecado Original

creating-worlds-aa

Capítulo 1

DEUS: Bem-vindo ao Paraíso, Adão! Não te assustes, ó pá!! Eu sou o teu Criador! Fui eu que te fiz; não me tenhas medo. Só vim saber o que tu achaste da minha Obra.

ADÃO: Eu… Eu… não sei o que vos diga.

DEUS: Como assim “não sei o que vos diga”? Pois eu criei um universo inteiro para ti, e não recebo elogio algum em troca? Estou a passar-me!

ADÃO: Mas eu abri os olhos pela primeira vez ainda esta manhã; nem deu tempo de perceber no que estou metido…

DEUS: Pois não te faças de rogado. Eu sou Deus. Sou todo-poderoso, onipresente, onisciente, eterno, perfeito e imutável. Sou o teu Senhor e Criador. Que isto te baste! Agora dá uma boa olhada em volta e vê que beleza que ficou isto aqui! Fiz tudo isto justamente para tu poderes me encher de elogios, e ainda estou a esperar por um, ao que parece.

ADÃO: Deixai-me ver… Eu diria que realmente…  é um lugar muito… Ei!, o que são aquelas coisas?

DEUS: Hein?! Onde? Ah, aquilo são as nuvens. Elas são água em forma de vapor. A função delas é condensar e cair na forma de chuva para prover o mundo com água líquida, que é o que sustenta toda a vida que eu criei. Depois de vir-se à terra, a água evapora e volta a ser nuvem. Eu projetei tudo nos mínimos detalhes, como podes ver, e cada coisa tem uma função específica. Sendo perfeito, eu teria mesmo que criar um mundo perfeito, pois não? Mas tu dizias…

ADÃO: E o que há para além das nuvens?

DEUS: Além das nuvens? Ora, essa é boa! Além das nuvens há de haver o cosmos, ora bolas!; um sem-fim de galáxias, quasares, asteroides, matéria escura, buracos negros… Uma infinidade de coisas.

ADÃO: Para que serve um buraco negro?

DEUS: Tu tens muita lata para ficares aí à sombra da bananeira a perguntar-me tamanhas estultices.

ADÃO: Mas vós dissestes que cada coisa tinha uma função…

DEUS: O que eu disse foi para tu olhares “em volta” e não “para cima”, entendeste? Vê aí e diz-me logo o que achaste.

ADÃO: Bem, vejamos… O que é aquela coisa grandona ali ao lado daquela coisinha de pernas finas?

DEUS: Ora pois, aquilo são animais, e tu precisarás dar nome a eles.

ADÃO: Ah… Então o grandão com a juba eu vou chamar de leão. A coisinha de pernas finas que está a saltitar alegremente em volta dele vai chamar-se gazela. Eles parecem tão amigos, não é?

DEUS: De facto! Criei todos os seres em perfeita harmonia, mas deixei para ti a muita grande honra de dar o nome a todos os animais da terra.

ADÃO: Opa! Mas eu pensava que seriam apenas aqueles dois. Reparastes na infinidade de bichos que há por aí? E só de insetos há de haver mais de dois milhões de espécies! Como arranjarei eu tempo para nomear tudo?

DEUS: Tempo não é problema. Tu vais viver para sempre, Adão. Agora também não é por isto que eu posso ficar a esperar para sempre tu elogiares o meu trabalho! Foi para isto que eu te criei. E não fica a mexer nisso aí, tás a ver?!

ADÃO: Qual a função disto, afinal? Está a aumentar de tamanho…

DEUS: Para, eu já disse! Estátua!

ADÃO: Parei! Pronto! Só tencionava saber para que isto haveria de servir. E quanto ao buraco negro? Esquecestes de reponder…

DEUS: Quem anda esquecido aqui és tu, percebes? E o elogio que ainda não me fizeste?

ADÃO: Pronto. Eu achei o lugar muito aprazível. Fostes por demais caprichoso, está-se a ver.

DEUS: Ah, Obrigado! São muitos anos a virar frangos.

ADÃO: Mas há uma coisa…

DEUS: Uma coisa?

ADÃO: Na verdade mesmo são duas… Quer dizer… Três, ao todo…

DEUS: Olha, se tu quiseres manter a tua saúde em perfeito estado, eu acho bom tu desembuchares duma vez…

ADÃO: É que isto está a ser-me de grande incómodo. Esta manhã, eu sentei na grama… e a grama é bem viçosa, percebestes? Bem viçosa e… deveras pontuda. E eu achei bem desagradável sentar na grama, porque…

DEUS: Já entendi! Está anotado; vejo isto depois. Próxima!

ADÃO: Pois bem. É sobre isto de dar nome a bichos e estar a fazer-te elogios… Eu não sei direito quem sois vós, nem quem sou eu, nem o que estou a fazer aqui. Aliás, nem mesmo sei onde é este “aqui”. Isto tudo está- -me a enfastiar.

DEUS: Próxima!

ADÃO: É que eu só tenho visto estes… estes animais o dia todo… E agora aparecestes vós; mas não há ninguém igual a mim e isto me incomoda também. Eu achava que vós poderíeis…

DEUS: Vira aqui um pouquinho, Adão. Coisa pouca.

ADÃO: Virar? Assim? Então… Eu achava que vós poderíAaaaaai!! O que vem a ser isto?!

DEUS: Isto chama-se dor. Não era para tu sentires dor, mas, já que pediste companhia, eu vou fazer uma mulher de uma de tuas costelas.

ADÃO: Isto doeu-me à vera! Mas por que vós não poderíeis fazer uma mulher sem me aleijar deste jeito?! Por um acaso também fizestes as galáxias e os buracos negros a partir de costelas?

DEUS: Quem anda à chuva, molha-se, pois não?

.’images-1

Capítulo 2

DEUS: Pronto. Aí está tua companhia, Adão (Gen 1:27). Que nome pretendes dar a ela?

ADÃO: “Eis aqui agora o osso de meus ossos e a carne da minha carne; ela se chamará Virago, porque do varão foi tomada.”

DEUS: Virago? Ai, que me deu até dor de cabeça. Nada disso: chamá-la-ás de Eva. E vou recolher-me agora, porque a ficar contigo neste tró-ló-ló nunca mais é sábado. Até amanhã!

ADÃO: E o que estaremos nós a fazer na vossa ausência?

DEUS: Eu vos abençoo. Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se mova sobre a terra. (Gen 1:28) Quanto a ti, rapariga…

EVA: Tu tá falando comigo?

ADÃO: Eva! Isto são modos?

DEUS: …, conversaremos quando eu desocupar-me de coisas mais importantes. Não vou poder ficar mais tempo convosco hoje.

EVA: Por mim tá beleza, mas eu tô cheia de fome. Onde tem um lugar aberto a essa hora pra gente tirar a barriga da miséria?

DEUS: Eis que vos tenho dado toda erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. (Gen 1:29-30) Até amanhã!

EVA: Se a gente pode comer de tudo e é tudo de graça, eu tô dentro… Ué! Pra onde é que ele foi?

ADÃO: Desapareceu no ar! Parece gostar de exibir-se!

EVA: Na boa: qual é a desse cara?

ADÃO: Ele é Deus. Onipotente, onisciente, onipresente, eterno, perfeito e imutável. Foi ele que nos criou e a tudo mais que tu estás a ver. Na verdade ele criou apenas a mim; mas consoante o papel dele de Criador, eu pedi-lhe para criar um outro da minha estirpe.

EVA: Vocês dois são criadores de estirpe?

ADÃO: Não. Eu pedi-lhe para que criasse um outro parecido comigo. Mas pelo que estou a notar, tu és bem diferente…  

EVA: Credo!! Por que esse troço tá apontando pra mim?

ADÃO: Eu realmente não sei por que isto está a agir desta maneira, mas ficou assim depois que tu aparececeste. Antes era diferente; e menor.

EVA: E que porra é essa de querer me chamar de Jivago? Tu acha que eu tenho cara de traveco, seu filho da puta?

ADÃO: Não, rapariga.

EVA: Rapariga é a sua vó!

ADÃO: Eva, acalma-te! O nome era Virago, mas eu não sei de onde eu tirei aquilo. Era como se eu estivesse a ler um script! Muito estranho! Eu, na verdade, penso que tu és muita linda…

EVA: Minino, esse negócio aí tá tremendo grudado no teu corpo. É o vento, será?

ADÃO: Eu cá estou a suspeitar que não seja. Tu não queres ir comigo para ali embaixo daquela árvore?

EVA: Pode ser… Tu me explica o que tá acontecendo, que eu não tô entendendo bulhufas! A gente vai sentar aqui embaixo, nessa grama pontuda? Ai, que susto!! Olha ali no pé de pau! Que bicho feio é esse?

ADÃO: Ah, este cá ainda não tem nome. Deus  mandou- -me nomear todas as criaturas do mundo, mas, até agora, só dei nome para três apenas. Para duas, de facto, desde que ele não aceitou o nome que te dei.

EVA: Não fode! Tu queria me chamar de Jivago!

ADÃO: Era Virago. Mas eu gostava de saber por que tu falas tantos palavrões deste jeito…

EVA: Puta que pariu!, é mesmo; eu já tinha reparado. Mas tu acredita que eu não consigo evitar essa merda? Parece até que foi ele que me criou assim. É como se ele quisesse fazer eu parecer inferior a tu, só pode!

ADÃO: O que estás a dizer?

EVA: “O que estás a dizer”. Tu acha que eu consigo falar desse jeito, todo certinho que nem vocês dois falam? Porra nenhuma! Aí tu já pensou a gente num evento social? O povo todo ouvindo tu com essa fala de criador de estirpe e eu falando feito uma… Rapariga! Ele me chamou de rapariga?  

ADÃO: Não é o que tu estás a pensar. Depois explico-te isto. Mas escuta: Deus está com este assunto de dar-me atribuições, e eu vou requerer teu auxílio. Lembra-te do que te disse sobre nomear todos os bichos do mundo? Quando eu penso que só de insetos há de haver mais de dois milhões de espécies…

EVA: Dois milhões!? Porra!, dois milhões de espécies de inseto é inseto pra caralho!!

ADÃO: Pois não?!

EVA: Mas e esse bicho grosso e comprido aí. Que nome tu vai dar pra ele?

ADÃO: Estava a pensar em Mister Adão… rsrs

EVA: Não, seu convencido! Esse outro aí no chão!

ADÃO: Ah, sim. Que tal serpente?

EVA: É bem melhor do que Jivago, com certeza. Mas, se tu, Adãozinho, me quiser sentadinha do seu lado na grama, vai ter que tirar essa serpente daí.

ADÃO: Pois está arrumado. Eu a ponho aqui neste galho de árvore… Pronto! E agora… 

EVA: Eita que o teu negócio tá me cutucando na coxa…

ADÃO: Tu és muita linda, sabias?

EVA: Muita linda? Ai, para!! rsrsss Vem cá! Que babado era aquele de “frutificai e multiplicai-vos”? Tu entendeu?

ADÃO: Pois tu acreditas que esta foi a única coisa que eu entendi até este ponto? Agora é saber se tu queres que eu te explique a ti.

EVA: Te explique a ti? Teu dicionário tá nervoso, num tá não? rsrsrsrs 

.”’images-2

Capítulo 3

DEUS: Adão! Adão!

ADÃO: Estou cá! Por que não viestes ontem?

DEUS: Porque ontem era o Sétimo Dia da Criação; o dia que eu já reservara para o meu descanso, ora pois!

ADÃO: Mas anteontem vos despedistes com “até amanhã”, então eu achava que…

DEUS: Mas “até amanhã” é o que toda gente diz ao despedir-se; não significa que se venha mesmo a dar-se as caras no outro dia. Mas olha isto: eu te fiz uma túnica de peles, por causa do incómodo da grama.

ADÃO: Mas por que só fizestes a minha?! E isto lembrou- -me que os outros bichos não sentem incómodo com a grama pontuda, nem com o frio da noite, nem com o vento constante que causa desconforto no atrito com a pele. Vós não acharíeis mais conveniente ter-me feito com algum tipo de proteção natural? Talvez uma pele mais resistente como a do búfalo, ou com pelos para me aquecer como a dos ursos?

DEUS: Adão. Sério. Eu te criei com um propósito e não era para ser este de fazer-me listas de coisas a corrigir.

ADÃO: E qual propósito seria?

DEUS: Não é da tua conta, opá! E é isto: vim dizer-te que tu podes comer dos frutos de qualquer árvore, exceto daquela que eu pus bem ali no meio do jardim. Se tu comeres do fruto daquela árvore, tu morrerás. (Gen 2:16-17)

ADÃO: Mas ainda anteontem vós dissestes: 

  Eis que vos tenho dado toda erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. (Gen 1:29)

ADÃO: Por que só agora vindes com esta exceção??!!

DEUS: Isto também tem um propósito. E também não é da tua conta. Mas eu vou repetir para que tu depois não venhas a dizer que não foste avisado:

  Come de todas as árvores do Paraíso, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás. (Gen 2:16-17)

ADÃO: Como fica isto de dizerdes que podíamos comer dos frutos de “todas as árvores”, se deixastes uma árvore venenosa tão acessível no meio do jardim, e só dois dias depois vindes dar este aviso?

DEUS: Como eu já bem notara: tu reclamas demasiado! Sorte que ainda estou eu com paciência para aturar-te. Só não te confias muito nisto. A notícia boa é que hoje eu vou te dar um ajudante.

ADÃO: Ajudante? Alguém para ajudar-me na escolha dos nomes dos mais de dois milhões de espécies de insetos? 

DEUS: Hei de ignorar este teu comentário, para teu próprio bem, percebes? O caso é que não é bom que o homem esteja só. Tu vais cair em sono profundo para eu tirar uma de tuas costelas, e dela fazer uma mulher. (Gen 2:18-22)

ADÃO: Mas vós já fizestes isto anteontem, no Sexto Dia! Não vos lembrais?

  E criou Deus o homem à sua imagem e semelhança; e criou-os homem e mulher. (Gen 1:27)

EVA: Ô, Adão! ADÃÃÃÃÃO!! Chega aqui na moita! O leão tá pegando a leona e ela fica é de quatro, enquanto ele vem por trás!! A gente tava fazendo errado, mané! Deve ser por isso que eu tô com as costas tudo fudida da porra daquela grama do caralho!

DEUS: Mas quem é essa desbocada?!

ADÃO: É a Virago. Digo: a Eva! Vós não aparecestes ontem, então eu e a Eva… nós passamos o dia todo… nos conhecendo… 

EVA: ADÃÃÃ-ÃO!! Vem ver isso! Quem sabe tu descobre o que tu tá fazendo de errado, porque o leão, meu filho, tá pegando a leona já tem mais de quarenta minutos, e eu ainda não ouvi ele pedir pra “dar uma descansadinha” não, tá?

ADÃO: É “leoa”, Eva!! “LEOA”!!! 

DEUS: Ela será eternamente amaldiçoada por isto!

ADÃO: Só por errar o nome de um bicho? E por falar em bicho, nós estamos a viver ao relento, feito bicho. E isto de dormir sob as estrelas pode ser romântico, mas não é nada cómodo, nem saudável. Eu pensava que vós pudésseis criar um tipo de…

DEUS: Estou a me referir a ela ser amaldiçoada por ter fechado os olhos do homem para a inocência, tendo-os aberto para o pecado.

ADÃO: Pecado? O que é pecado?

DEUS: Vós não deveríeis ter feito o que fizestes! Vós me desobedecestes!

ADÃO: Mas não vos lembrais do que dissestes anteontem?

  Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra. (Gen 1:28) 

ADÃO: Vós deixastes a mim sozinho no paraíso com uma mulher nua, com instruções para nos multiplicarmos, e só agora vindes falar de pecado? Pelo que nos tomais então? Havemos de ser bactérias?

DEUS: Tu te revoltaste contra o teu Criador. E não és mais digno de estar na presença dele. Eu te expulso deste paraíso e, de hoje em diante, a terra será maldita por tua causa. Tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra, de que foste tomado. Porque tu és pó, e em pó te hás de tornar.

ADÃO: Ô, Ééééva! ÉÉÉÉVA!!! Corre aqui que nos desgraçamos!

EVA: Ai, o que foi? Deixa eu respirar, que eu vim numa carreira só! Cara, eu vi uma chimpanzoa fazendo uma coisa muito safada com um chimpanzéu. Tu vai se amarrar…

DEUS: E tu, rapariga…

EVA: Rapariga é a senhora sua avó!

ADÃO: Eva, não piora as coisas. Fica calada.

EVA: E tu tá pensando que porque me comeu agora manda em mim? 

ADÃO: Cala-te, Eva!

EVA: Cala-te o caralho! 

DEUS: …, eu multiplicarei os teus trabalhos, e especialmente os de teus partos; tu darás à luz com dor os teus filhos, e estarás para sempre sob o poder do teu marido; e ele te dominará.

ADÃO: Falei para te calares, não falei?

__________

 

Um mundo quase perfeito

 shutterstock_47799625

Se eu estivesse prestes a criar um mundo para os meus filhos, como ele seria? Bem que poderia ser muito parecido com este; mas esqueça os terremotos, vulcões, furacões, tornados, tsunamis, tempestades solares, meteoritos, efeito estufa, secas, pragas, pestes, enchentes, eras glaciais. Num mundo criado de acordo com a minha vontade, essas coisas só existiriam no cinema, onde as pessoas iriam se quisessem ver como seria um mundo sem um ser supremo que as amasse.

Valendo-me da minha perfeição, eu teria criado o ser humano perfeito. E de uma vez só, como, aliás, era o que se achava que Deus tinha feito. Nada de deixar tudo à mercê de um processo evolutivo que levaria bilhões de anos e infestaria seu DNA de erros e mutações sem fim, que teriam como consequência previsível o surgimento de todo tipo de doenças e malformações que só causariam sofrimento desnecessário. Não que haja sofrimentos necessários, mas, talvez, sofrimentos inevitáveis, como o da rejeição de um amor não correspondido, ou o provocado pela ausência de alguém que foi embora ou faleceu. 

No meu mundo as pessoas viveriam trezentos anos, e só morreriam de velhice. Recorrendo aos meus poderes supremos, eu jamais permitiria que ninguém sofresse um acidente, um machucado, um arranhão que fosse. Ninguém se afogaria, ninguém seria atropelado ou assassinado. Todas as pessoas do mundo me conheceriam e saberiam da minha presença, porque eu estaria dentro da mente de cada uma, fazendo com que elas se enxergassem como um todo, como parte de algo infinitamente maior chamado humanidade, vendo a si mesmos em cada um de seus semelhantes.

E se, por algum motivo impensado, uma pessoa levantasse a mão para outra, eu apareceria a tempo de impedir que essa mão baixasse. Quando um carro perdesse os freios, ou um avião perdesse a força das turbinas, eu surgiria do nada para evitar uma catástrofe. E se um vaso despencasse de um prédio, eu o conduziria suavemente até a calçada, ante os olhares agradecidos dos transeuntes, já tão acostumados a me ver apelar para a minha onipresença e onipotência de forma a nunca deixar que nada de mal acontecesse a ninguém. 

Eu não iria interferir no livre-arbítrio da minha criação, exceto se essa prerrogativa fosse usada para ferir ou prejudicar seu semelhante. Mas isso seria uma raríssima exceção. Como eles veriam o outro como a si mesmos, não haveria crimes nem ofensas, nem motivo algum pelo qual matar ou morrer, como diz uma certa canção. Ninguém em sã consciência usaria de seu livre-arbítrio para ferir-se ou prejudicar a si mesmo. E eles teriam suas consciências sãs, porque seria a consciência herdada de seu Criador. Além do mais, eles seriam todos sãos. Nada de câncer, AVC, epilepsia, Alzheimer, cegueira, surdez, loucura, autismo, depressão, gripe, infarto, AIDS, cáries, torcicolo, dor de barriga, bicho-de- -pé.

Abolidos a dor, o sofrimento, as doenças do corpo e da mente, a indiferença e o desamor de cada um por seu semelhante, todos os hospitais, presídios, quartéis, delegacias e manicômios seriam transformados em praças; cada farmácia, numa sorveteria. As pessoas se importariam umas com as outras, e se ajudariam mutuamente como um irmão ajuda outro irmão. E todos cuidariam do planeta e do seu futuro coletivo como quem cuida de um jardim.

Um jardim livre de serpentes, de pecados, e de qualquer maldição. 

pecado

 

Tu, Vós, Ela

— Então…?M.M

— Certamente tu não me puseste a par de todos os detalhes…

— O que dizes?!!

— Por exemplo: a tortura antes da execução…

— Não me refiro a isso! Já não te disse que eu posso te chamar de “tu”, mas que tu tens que me chamar de “vós”?

— Eu nunca consegui conjugar a segunda pessoa do plural. Eles riam de mim na escola, tá legal? Eu sofri bullying. Foi por isso que eu fugi pro deserto.

— E perdeste um tempo preciosíssimo, quando poderias ter estado fazendo o que te mandei lá para fazer. Voltaste em cima das buchas, quase no fim do prazo que te dei. Não é à toa que estou preocupado. Mas, enfim… Saiu tudo conforme planejei?

— É… Pode-se dizer que sim… Tipo… Fiz tudo o que você, digo, o que vós mandais eu fazer.

— “Vós mandais”?

Mandeis?

— “Que vós mandastes”!!!

— Ok… Fiz tudo que vós mandastes eu fazer.

— Foi difícil arranjar os dois discípulos conforme te instruí?

— Dois? Não seriam doze?

— Eu disse “dois”. Dois! Um que te trairia, e o outro que escreveria sobre tua passagem na Terra.

— Uai!, mas só uma pessoa iria escrever sobre mim?

— Mas é claro! Não quero um monte de gente inventando coisas absurdas só para o próprio livro ficar mais interessante do que os dos outros.

— Tá… Pois, nesse caso, se vós permitísseis

— “Permitirdes”.

— Que é isso?

— Infinitivo flexionado.

— Vaaalha! Eu disse o quê?

— Imperfeito do subjuntivo.

— Pois bem. Se vós permitirdes, eu vou dar uma descidinha rápida lá pra consertar isso também.

— Como assim “também”?

— É que vós tenhirdes me dito para…

— “Tínheis”.

— Vós tínheis me dito pra marcar uma data de retorno, confere?

— De fato. Quanto mais eficiente tu tiveres sido, mais rápido poderias voltar.

— Então… Foi o que eu pensei. Acontece que eu não tô muito a fim de voltar, não.

— Ooooo quêêêê??!

— Não quero mesmo. E não é nem tanto pelo que fizeram comigo. Mas é muito quente lá, venta pra… venta demais, o tempo todo entrando areia nos olhos da gente! Se eu tivesse nascido mais pro lado ali da Europa, vá lá… Um clima mais agradável, com neve…

— Chega! Marcaste para quando a tua volta?

— Olha, eu não lembro ao certo porque foi logo no começo, né? Foi uma época de só perambular pelas cidades fazendo acampamento, bebendo vinho e batendo papo. Daí que eu acho que disse que voltaria logo, antes que eles morressem de velhice, eu acho. Mas eu tava pensando que vós… o senhor… Tava pensando que o senhor mesmo podia querer ir em pessoa no meu lugar. Ou em Espírito. Assim… eu fui lá com a maior das boas intenções e eles me detonaram daquele jeito? E como eu não tenho um irmão mais velho, o senhor bem que podia descer lá e dar uma lição neles! Um dilúvio de lava seria uma ideia bem…

— Tu vais voltar, mas com toda a tua glória, com todo o teu exército!

— Exército??! Ooooolha… Agora sim! Se vai ter segurança, tudo bem.

— Mas, primeiro, todo mundo tem que já esperar pelo teu regresso.

— Quanto a isso, sem problemas, porque a mulher de Judas – o outro, meu primo – a mulher dele tava lá quando eu disse que não ia me demorar. A essas alturas, Judeia, Samaria, Galileia e até Roma já estão sabendo. Ô mulherzinha…

— Mas tem que ser toda a Terra. Tu andaste pelo mundo todo fazendo milagres, pois não?

— Como assim “pelo mundo todo”? Ali era lombo de jumento, colega! Não tinha bunda que desse conta! Eu fiz o que deu.

— Eu te falei para andar sobre as águas! Era a isso a que me referia: usar teus poderes para cruzar os oceanos.

— Ah, tá. Eu tinha entendido literalmente. Mas não vos estressardes porque…

— “Não vos estresseis”.

— Não vos estresseis, porque eu volto lá e dou o prazo que vós acheis melhor.

— “Achardes melhor”.

— Tá vendo por que eu fugi pro deserto?

— Voltas lá coisa nenhuma! O que está feito está feito. O que tu queres que pensem de nós? Que somos amadores? Tu não voltarás até que toda a Terra esteja a te esperar.

— Então babou, porque eu dei a entender que voltava tipo… em duas décadas.

— Duas décadas? Em dois mil anos ainda vai estar faltando a Coreia do Norte!

— Sério? Mas a Coreia do Norte que se dane: o resto do mundo vai tá conosco. Digo, convosco! Quer dizer… Na verdade: comigo, né? Porque… Vós saberdes que…

— Que marmota é essa?!

— “Sa-Saibais”? “Sabêsseis”?

— É “sabeis”!! Mas que negócio é esse de que o mundo vai estar “contigo”?

— Sim… Eu tava pensando que, poxa vida… Vós sois – o verbo ser e o “to be” eu sei decorado. Poi bem, vós sois muito duro, muito dramático, muito violento, e eu cheguei lá com isso de paz e amor, de dar a outra face… O pessoal gostou um bocado!

— Mas tu não disseste a eles que as leis do Antigo Testamento estavam revogadas?

— Quer dizer que aquilo de fazer sacrifícios, apedrejar quem trabalha fim de semana, cônjuge infiel, homossexuais, adoradores de outros deuses, filhos desobedientes… Isso tudo deixou de valer?

— Foi o que te mandei dizer.

— Putz! Esqueci geral! E olha que tive um bom motivo pra lembrar. Depois que voltei do deserto, sem ter dado notícias por 18 anos, mamãe me deu uma surra que me deixou de cama. Por pouco uma chinela havaiana não vira o símbolo do cristianismo. E agora? O que a gente faz?

— Saulo. Volta lá e aparece a Saulo de Tarso. Ele difundirá o que tu negligenciaste.

— Saulo? Aquilo é um cangaceiro! Um capitão do mato! Uma carniça! Ele prenderia a própria mãe se visse ela fazer o pelo-sinal.

— Ele vai colaborar.

— Pois eu duvido muito.

— Faz como te digo: surpreende-o num lugar ermo, subjuga-o e enfia isso nele.

— Cruz-credo! Mas enfiar onde? Ah, tá. É autoexplicativo. Deixa comigo.

— Diz-lhe que, se ele não colaborar, isso vai arder como pimenta, e vai aumentar de diâmetro.

— Misericórdia! Quem teve essa ideia, gente? Deixa pra lá. Tudo bem. Mando ele falar o negócio lá que eu esqueci, e também posso dizer que eu só volto daqui a dois mil anos? Ou a gente espera pela Coreia do Norte?

— Não. Deixa isso quieto. Ninguém vai notar. À medida que passarem as gerações, as pessoas continuarão esperando de todo jeito. Preciso de tempo para consertar as coisas que não saíram como planejei.

— Tem mais uma coisa que também não saiu muito conforme o planejado…

— O quê?

— Sabe a Maria Madalena?

— Ahhhrrr!! Maldito Dan Brown!

— Quem é esse?

— Cala-te! Não quero ouvir nem mais um pio sobre esse assunto. Tu vais ficar aqui com a bunda colada nesse trono respondendo preces e cuidando da religião que nasceu da tua morte. Eu vou pensar num meio de evitar um mal maior…

— Mas e a Madal?

— Ouve bem. Tu ficas aí cuidando da tua igreja. Para cada vez que tu pronunciares o nome, ou mesmo para cada vez que tu tiveres pensamentos, quer sejam eles lúbricos ou castos, direcionados àquela desqualificada, tu terás mais uma denominação cristã na Terra para tomares de conta. E só te digo uma coisa: eu não digo é nada. E ainda te digo mais: só te digo isso!

 

Eu sou o fantoche do Diabo

o bem e o mal 

.

Dia desses eu fui abordado na porta da minha casa por duas irmãs que tinham invadido a rua com outros frequentadores da sua boca de culto. Como vi que ninguém estava carregando material suficiente para fazer uma fogueira, resisti ao impulso de correr para dentro de casa, e sorri pra elas duas, fingindo ser a pessoa mais doce do mundo. Os outros membros do bando passavam e sorriam pra mim, enquanto pareciam apertar, ainda com mais força, suas Bíblias contra os seus respectivos sovacos.

De repente, surgiu um anjinho do meu lado esquerdo, que é o lado do coração, que é o órgão responsável pelas minhas emoções e pelos meus pensamentos bons. Ele me cochichou dizendo que eu fosse educado e cortês, e tentasse assimilar, no meu coração, a mensagem que elas estavam querendo passar. Ao mesmo tempo, do meu lado direito, que é o lado do meu apêndice, que é o órgão responsável por me lembrar que eu não entendo nada de biologia, apareceu um diabinho rabudo e vermelho que disse: “Detona!”. Dessa vez eu decidi seguir o conselho do anjo, porque a minha psiquiatra me garantiu que essas vozes na minha cabeça só vão me deixar em paz depois que eu me tornar uma pessoa menos belicosa.

Elas começaram até bem: “A gente pode falar com você um minuto?”. Aí eu disse: “Sim”. Uma delas, então, me apresentou um panfleto impresso com algumas sentenças ao lado de quadradinhos [supostamente para alguém marcar com um X] onde eu li rapidamente coisas como a) Deus, b) Homem, c) Mídia, etc. Enquanto segurava o papel na minha frente, ela perguntou: “Você pode me dizer quem controla o mundo?”. Aí eu disse: “Não”. Foi quando ela começou rapidamente a me esclarecer sobre como tudo é extremamente simples: bastaria amar a Deus e ler a Bíblia, que todos os meus problemas e os problemas do mundo se resolveriam; e que todos os meus problemas, bem como os problemas do mundo, eram frutos do pecado.

Pacientemente, eu a ouvi durante quase quarenta segundos; mas aquele diabinho estava agora arranhando meu apêndice com uma serrinha de unha, então eu tive que interrompê-la:

— Me dê um exemplo de pecado.

— Desobedecer as leis de Deus é pecado.

— Me dê um exemplo de pecado.

Minha professora de catecismo me chamou muitas vezes de “impertinente” por bem menos do que isso.

— O marido trair a esposa é um exemplo de pecado.

— E por que você acha que maridos traem as esposas?

— Porque eles cedem às tentações do Diabo.

Aqui o diabinho vermelho parou de lixar o meu apêndice e ficou prestando atenção na conversa.

— Quer dizer que, se eu fosse casado com você e tivesse um caso com a sua irmã aí, isso seria culpa do Diabo?

— Não: seria culpa sua e dela, por cederem à tentação dele. 

— Então a ideia de transar com a sua irmã foi posta na minha cabeça pelo Diabo?

— Foi… — ela disse, disfarçadamente avaliando a distância que se encontrava do resto do grupo, ao longo da rua. 

— Você acreditaria em mim se eu dissesse que, se sua irmã aí fosse bem feia, magrela e tivesse mau hálito, o Diabo poderia fazer o diabo, e mesmo assim eu jamais trairia você com ela?

Elas não quiseram continuar a conversa, por algum motivo. Despediram-se entre apressados conselhos para que eu lesse a Bíblia, e foram se juntar aos outros do bando, que também não deviam entender nada de biologia, a ponto de achar que o desejo que um homem tem de transar com mais de uma mulher é motivado por uma criatura malévola que habita uma dimensão mágica.   

  

 

Perdoa-me, porque pequei

 

mulher-cristã

Eis que você é o motivo de eu estar levemente embriagado, porque eu raramente bebo. E nem é porque tenha alguma intolerância alcoólica, mas sim uma certa aversão a paraísos artificiais. Talvez seja repugnância. Na verdade, repugnância me veio à mente agora só porque lembrei do que senti quando me perdi contemplando a adolescência que você está sepultando por baixo das suas folgadas roupas de crente e dos cabelos longos presos num coque sem graça, enquanto sai por aí abordando pessoas na rua para tentar contagiá-las com a sua doença mental sagrada. Me perdoe se fui rude, mas você devia ter ouvido sua amiga e continuado seu caminho logo depois que mencionei que era ateu e que não tinha tempo: nem para vocês duas nem para nenhuma das três personalidades do seu Deus esquizofrênico.

Como já disse, eu raramente bebo; e também raramente se passa um dia sem que eu me arrependa de alguma coisa. E me arrependi de ter sido grosseiro com você. Me arrependi tanto e imediatamente que, logo depois, parei num barzinho de mesas na calçada, enquanto observava você se afastando magoada, sua saia longa demais escondendo suas pernas finas e coxas magras, certamente cheias de pelos ensebados e fedorentos, porque talvez seu Deus também a proíba de usar sabonete Dove

Como ainda era muito cedo e eu era o primeiro cliente; e como a moça que veio à mesa me atender era infinitamente mais bonita do que você (e devia até usar Dermacyd Neutralize), eu pedi uma cerveja. Quando ela perguntou qual marca eu queria beber, eu pedi pra ela escolher: pra mim todas têm gosto de xixi gelado. Mas não disse isso pra ela, é claro. E também nunca bebi xixi gelado, só pra você saber. Na verdade, eu nunca bebi xixi de jeito nenhum. Enquanto a moça do bar não voltava, eu fiquei pensando em como puxar assunto. Você sabe: não custava nada soltar umas gracinhas e tentar a sorte, afinal, ela era muito bonita mesmo. Não, você não sabe. Você não frequenta barzinhos, muito menos leva cantada.

Mas, aí, meus olhos se voltaram pra você de novo. Era uma rua longa e bem iluminada. Ainda podia ver sua bunda chocha, seus quadris duros e seu cocó de moça de igreja. Mas sua figura longilínea e seu andar suave prenderam minha atenção como a angústia costuma prender o choro. E, de repente, eu desejei ter deixado você ler aquele trecho da Bíblia que você estava marcando tão aflitamente com seu dedinho. Foi quando você se virou na minha direção. E ficou imóvel, me olhando. Eu congelei. O Inferno congelou. Eu te magoei.

No que você estava pensando, ali parada, olhando pra mim? Eu não sei. E também não sei quanto tempo demorou aquilo. O que eu sei foi que a linda garçonete veio e foi embora, me deixando sozinho com uma cantada que perdeu a vontade de existir, e com uma garrafa preta de xixi gelado que eu tomei mais para me punir do que por qualquer outra coisa.

O interessante é que sempre que passo perto de um bar, meus olhos de vampiro aposentado me obrigam a contemplar o eterno desespero da existência humana disfarçado nesse ritual de socialização e acasalamento, em que cada lata de cerveja se destina a resfriar, por algumas poucas horas, o inferno de cada um. Hoje você foi o meu inferno.

__________________________

Estou republicando esse texto pra me lembrar de nunca mais magoar ninguém em nome de Deus.

O Estupro Sagrado da Virgem Maria

>

Bendito é o fruto do vosso ventre: Jesus!

>

O Evangelho de Mateus meio que passa por cima do assunto, sem querer entrar muito em detalhes, o que é bem compreensível, visto a natureza deveras escabrosa do ocorrido. Mas o livro de Lucas, segundo o meu ponto de vista, descreve uma recatada moça de família, virgem e maritalmente comprometida sendo vítima de assédio sexual seguido de estupro.

Na verdade, e a bem da verdade, o termo “estupro” não se ajusta perfeitamente nesse caso específico. É que, tecnicamente falando, o nosso Código Penal não abrange a situação em que o intercurso sexual se dá sem a presença do estuprador, mesmo que, como prova do crime, tenha resultado numa gravidez indesejada, como foi a de Jesus Cristo. Uma vez que o meliante autor do delito estava presente apenas em Espírito, esse crime hediondo escapuliu do devido enquadramento legal, visto que um princípio jurídico determina que nenhum ato pode ser considerado criminoso sem uma lei prévia que o estabeleça como tal.

Explica-se, então, que a atitude divina para com aquela plebeia judia só não pode ser considerada adequadamente um estupro por conta de nossa ferrenha atenção às normas que nós mesmos criamos. Mas se não foi aquilo um estupro, teria sido o quê? Um contato imediato do sexto grau? Para quem não sabe, um CI-VI é aquele em que um humano tem relações sexuais com extraterrestres. (No caso em questão, o E.T. seria Deus; ele “não é terreno”, logo, a terminologia se aplica.)

Assim, por falta de uma nomenclatura vigente; por o caso em apreço não ter se configurado uma conjunção carnal propriamente dita — segundo nossas próprias definições — , eu passarei a adotar uma expressão própria para me referir ao ato da concepção do Salvador, daquele que é a Luz do mundo e sem o qual ninguém chegará ao Pai.

Segundo a Bíblia, embora não esteja lá assim tão claramente posto, Deus assediou sexualmente e violentou de uma forma sobrenatural a Virgem Maria. Um caso clássico, portanto, de “estupro sagrado”.  

E é isso que passo a analisar agora, dando início com a transcrição do B.O., digo, das Escrituras:

E estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada de um varão chamado José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria.

Entrando pois o anjo onde ela estava, disse-lhe:

“Deus te salve, cheia de graça! O Senhor é contigo! Bendita és tu entre as mulheres.”

Ela quando o ouviu, turbou-se do seu falar, e discorria pensativa que saudação seria esta. Então o anjo lhe disse:

“Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.” (…)

E disse Maria ao anjo:

“Como se fará isso, pois eu não conheço varão?” 

E respondendo, o anjo lhe disse:

“O Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá da Sua sombra. E por isso mesmo o Santo, que há de nascer de ti, será chamado Filho de Deus.” (…)

Então, disse Maria:

“Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”

E o anjo se apartou dela.

(Lucas, 1:26-38)

.

CONTINUAÇÃO:

Um estupro versículo a versículo (parte 1)

Um estupro versículo a versículo (parte 2)

Não deixe de ler, também:      A Cobiçada Vagina de Nossa Senhora

.

%d blogueiros gostam disto: