Nós todos casamos com a pessoa errada

Sobre outro tipo de desILUSÃO: minha tradução de “We all married the wrong person“.

Casais em crise frequentemente atingem o ponto em que se convencem de que não foram feitos um pro outro. Isso precede a decisão de terminar a relação e sair em busca da “pessoa certa”. Infelizmente, as chances de um casamento bem-sucedido diminuem a cada nova tentativa. Psiquiatra e autor de The Secrets of Happily Married Men [Os segredos dos homens bem casados], The Secrets of Happily Married Women [Os segredos das mulheres bem casadas], e The Secrets of Happy Families [Os segredos das famílias felizes], o doutor Scott Haltzman diz que aqueles casais estão corretos; nós todos casamos com a pessoa errada. Eu achei seus comentários em entrevistas na tevê tão intrigantes que pedi para entrevistá-lo e me aprofundar no assunto.

O doutor Haltzman diz que, mesmo que achemos que conhecemos bem uma pessoa quando casamos com ela, nós somos temporariamente cegos pelo nosso amor, o que tende a minimizar ou ignorar atributos que podem tornar a relação complicada ou completamente difícil. Adicionalmente, ambos os indivíduos trazem diferentes expectativas em relação ao casamento, e nós mudamos tanto individualmente quanto como casal ao longo do tempo. Ninguém tem uma garantia de que se casou com a pessoa certa, diz Dr. Haltzman, portanto você tem que assumir que casou com a pessoa errada. Isso não significa necessariamente que seu casamento não possa ser bem-sucedido.

“A maioria de nós perde um tempo enorme escolhendo através de possíveis parceiros na esperança de terminarmos com a pessoa certa. Algumas pessoas acreditam que isso é uma procura pela alma gêmea… o único e verdadeiro amor. Se você entra ou não num casamento acreditando que o seu par é A pessoa certa, você certamente acredita que ele ou ela é UMA pessoa certa para você”, diz Dr. Haltzman.

Ele explica que se o sucesso de um casamento fosse baseado em fazer a escolha certa, então aqueles que cuidadosamente escolhem um bom par continuariam sustentando sentimentos positivos na maior parte do tempo, e por um longo período. A teoria de que escolher bem leva ao sucesso estaria comprovada. “Mas as taxas de divórcio em si e por si mesmas dão um grande testemunho da falácia dessa teoria”, diz Dr. Haltzman. Mesmo os casais que permanecem casados não se descrevem completamente felizes um com o outro, ele acrescenta, mas, sim, bem comprometidos um com o outro.

“Se acreditamos que temos que encontrar a pessoa certa para casar, então o desenrolar do nosso casamento se torna um constante teste para ver se fomos corretos naquela escolha”, diz Dr. Haltzman, acrescentando que a cultura moderna não apoia manter promessas. Em vez disso, ele diz que nós recebemos a repetida mensagem, “Você merece o melhor”. Segundo ele, essas atitudes contribuem para a insatisfação conjugal.

Dr. Haltzman compartilhou algumas pesquisas comigo sobre os efeitos negativos na nossa sociedade de consumo, em que sempre se tem uma grande quantidade de opções — o que pode levar ao aumento de expectativas e baixa satisfação. Um livro chamado The Choice Paradox [O paradoxo da escolha], de Barry Schwartz, apresenta pesquisas que vão de encontro ao senso comum. (Farei outro post* sobre isso em breve, porque esse assunto dá muito pano pra manga.) Eu vou direto ao ponto e revelo que as pessoas são mais felizes com as escolhas que fazem quando existe pouca coisa para escolher. Com muitas opções, nós podemos ficar sobrecarregados e arrependidos, e constantemente questionando nossas decisões. Hoje, as pessoas sentem que têm muitas opções de parceiros e temem perder oportunidades com parceiros “certos” em potencial. Isso pode acontecer mesmo após a pessoa já ter se casado, quando começa a questionar a toda hora a decisão que tomou.

“Minha filosofia básica é a de que, quando escolhemos um par, temos que começar com a premissa de que não estamos escolhendo baseado em todo o conhecimento e informação sobre ele ou ela”, diz Dr. Haltzman. “Contudo, fora dos extremos cenários de violência doméstica, drogas, infidelidade — que são de longe bons argumentos para se admitir que se casou com a pessoa errada, e onde é inseguro ou insalubre continuar casado — nós precisamos dizer, “Essa é a pessoa que eu escolhi, e eu preciso encontrar um jeito de desenvolver um senso de proximidade com ela pelo que ela é, e não pelo que eu fantasiei que seria”.

Esse jeito de trabalhar a relação pode levar a uma experiência a dois mais profunda e significativa. Dr. Haltzman dá as seguintes dicas para nos ajudar a reconectar ou melhorar nossos laços:

– Respeite o seu par por suas qualidades positivas, mesmo quando ele tenha algumas importantes qualidades negativas.

– Seja a pessoa certa, em vez de ficar procurando pela pessoa certa.

– Seja uma pessoa amável, em vez de ficar esperando para ser amada.

– Seja atencioso, em vez de esperar receber atenção.

Para frisar os últimos pontos, Dr. Haltzman diz que muitas pessoas que se esforçaram para manter uma relação acabam dizendo, “Eu fiz o bastante”. Mas muito poucos de nós dizem isso de nossas próprias crianças. “Em vez disso, nós dizemos que, apesar de suas imperfeições, não iríamos querer outras no lugar delas; e, contudo, nossos filhos podem ser muito mais insuportáveis do que nossos companheiros.”

Finalmente, ele adverte, “Tenha a atitude de que essa é a pessoa com a qual você vai passar o resto da sua vida, então você precisa encontrar um jeito de fazer isso dar certo, em vez de viver procurando por uma rota de fuga”.

*O “outro” post Aqui .


Não, Deus não é Amor

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Mais uma de Amor

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Amor – O Início

Você  perde o sono, a fome, sobe às nuvens e sente a vida virar de ponta-cabeça. Mas o que, afinal, faz com que uma pessoa se apaixone por outra?

por Jeanne Callegari


“Quer viver um grande amor? Pergunte-me como.” Parece uma promessa de charlatão – afinal, não existe nada mais imprevisível que a paixão, certo? Milhões de palavras foram gastas, ao longo dos séculos, para descrever os mistérios dela. Do matemático Blaise Pascal (“o coração tem razões que a própria razão desconhece”) ao físico Albert Einstein (“como a ciência poderia explicar um fenômeno tão importante como o amor?”), todas as maiores mentes da humanidade se declararam impotentes frente aos mistérios e caprichos da paixão. Elas estavam erradas. A ciência está começando a descobrir que existe, sim, lógica no amor. E, quem sabe, até uma fórmula. Matemáticos da Universidade de Genebra estudaram 1 074 casamentos, analisando diversas características dos cônjuges, e chegaram a uma fórmula do que seria o par ideal – com maior taxa de felicidade e menor risco de separação. A mulher deve ser 5 anos mais jovem e 27% mais inteligente do que o homem (o ideal é que ela tenha um diploma universitário, e ele não). E é preciso experimentar bastante antes de decidir: uma análise feita pelos estatísticos John Gilbert e Frederick Mosteller, da Universidade Harvard, apontou que, se você se relacionar com 100 pessoas durante a vida, suas chances de encontrar o par ideal só chegam ao auge na 38ª relação. Faça tudo isso e você será premiado com 57% mais chance de ser feliz. Mas, se você achou essas condições meio sem sentido, ou no mínimo difíceis de seguir, acertou. As conclusões são puramente estatísticas, ou seja, projetam um cenário ideal e não levam em conta as decisões que as pessoas realmente tomam: praticamente todos os casais estudados pelos cientistas suíços (para ser mais exato, 99,81%) não viviam seguindo à risca a fórmula. Afinal, as pessoas não são equações. São uma pilha de neurotransmissores, hormônios – e experiências.

Imagine que você está numa festa. Muita gente interessante, troca de olhares, azaração. Na dança do acasalamento humano, os homens dão mais valor à beleza e à juventude – e as mulheres estão mais preocupadas com o nível socioeconômico do parceiro (sim, isso inclui dinheiro). Você provavelmente já sabe disso. É universal. “Num levantamento que fizemos com 10 mil pessoas, em 37 países, essas diferenças sempre se mantiveram – independentemente de local, habitat, sistema cultural ou tipo de casamento”, afirma o psicólogo evolutivo David Buss, da Universidade do Texas, em seu livro A Evolução do Desejo. O que você não sabe é que essa diferença não é um clichê sexista – tem uma explicação cerebral. Quando o homem olha uma foto de sua mulher ou namorada, sua atividade cerebral se concentra nas áreas de processamento visual – como a área fusiforme, que processa as imagens de rostos. Já quando a mulher vê o homem, aciona circuitos relacionados a memória, atenção e motivação – como o corpo do núcleo caudato e do septo. Conclusão: para as mulheres, a beleza realmente não é o principal.

Ela é importante. Mas não é um objetivo em si; é um instrumento que a mulher usa para descobrir mais sobre o homem. Um estudo da Universidade de Michigan comprovou que, quando estão cogitando ficar ou ter um caso passageiro, as mulheres costumam preferir homens de traços bem marcados, masculinos. Mas, na hora de pensar numa relação séria, optam pelos que têm traços mais delicados. Isso acontece porque os homens de traços duros costumam ser saudáveis e passar genes de boa qualidade para os descendentes – e por isso são considerados instintivamente atraentes pela mulher. Mas eles também geralmente têm mais testosterona – hormônio que aumenta a propensão à violência e à infidelidade.

OS SEMELHANTES SE ATRAEM

Em 68% dos relacionamentos sérios (e 53% dos passageiros), as pessoas são apresentadas por um conhecido. Cerca de 60% dos romances surgem em ambientes semiprivados, como escola, trabalho ou uma festa – lugares onde a afinidade entre as pessoas é naturalmente maior. Só 10% dos romances se originam em bares e baladas.

COISA DE PELE

Homens e mulheres preferem o odor de pessoas cujo sistema imunológico seja complementar ao deles (o que ajuda a gerar descendentes saudáveis). Mas cuidado com a pílula anticoncepcional: ela pode distorcer essa comunicação olfativa, fazendo a mulher perder a capacidade de reconhecer o que a atrai.

PAIXÃO = AVENTURA

Quer fazer o romance engatar? Procure fazer coisas novas e/ou excitantes junto com a outra pessoa – como viajar ou andar de montanha- russa. É sério. Esse tipo de atividade eleva o nível de dopamina no cérebro, ativando os mecanismos relacionados à paixão.

Ou seja: os machões não são bons pares. E parecem estar saindo de moda. Pesquisadores da Universidade de Stirling, na Escócia, apresentaram uma série de fotos de homens para 4 791 mulheres de 30 países, entre eles o Brasil. E descobriram o seguinte: quanto melhor o sistema de saúde de um país, mais as mulheres preferem homens com traços femininos. Isso acontece porque, existindo menos doenças, as mulheres não dependem tanto de genes superfortes (presentes nos machões) para gerar descendentes saudáveis. E passam a preferir homens com rosto delicado. Mas o Brasil, caso você esteja se perguntando, ficou em último lugar no estudo – nossas mulheres, junto com as mexicanas, são as que mais preferem homens com cara de machão (Bélgica e Suécia, por outro lado, são o paraíso para os homens delicados). “Homens muito atraentes costumam ir atrás da estratégia de reprodução mais conveniente para eles: as relações de curto prazo. Já os mais femininos tendem a ser melhores provedores”, afirmou a psicóloga Lise DeBruine, autora do estudo, ao jornal inglês Guardian.

Seja como for, um pouquinho de feiura pode até ajudar o homem. Um estudo feito em 2008 pela Universidade do Tennessee avaliou 82 casais e descobriu que, quando a mulher é linda e o homem apenas razoável, o casal se comporta de forma mais positiva, com mais harmonia e companheirismo. A tese é que, como o homem está recebendo algo que valoriza muito, a beleza, ele dá duro para manter o relacionamento – o que acaba melhorando seu convívio com a mulher.

CHEGUE MAIS PERTO

Vocês se olharam, se interessaram, alguém tomou a iniciativa de ir falar com o outro. Antes mesmo de abrirem a boca, seus corpos já começaram a se comunicar. Sabe quando as pessoas dizem que “bateu uma coisa de pele”? Isso realmente existe. E tem fundamento científico. Preferimos pessoas cujo sistema imunológico seja complementar ao nosso, com quem possamos gerar descendentes geneticamente mais variados, com maior capacidade de resistir a doenças. E, como ninguém tem placa na testa dizendo qual tipo de sistema imunológico tem, o jeito que o corpo inventou de perceber e comunicar isso foi o cheiro.

Ok, o cheiro combinou e vocês partiram para a conversa – que pode ou não dar certo. O que precisa acontecer para que ela não acabe num silêncio constrangedor depois de 10 minutos? Sua história pessoal, os valores da família, da comunidade, as relações que já viveu, tudo isso ajuda a moldar o que você espera das pessoas – principalmente aquelas com as quais pretende ter algum tipo de relacionamento amoroso. “Enquanto crescemos, vamos criando um conceito da pessoa por quem iremos nos apaixonar, baseado nos exemplos que encontramos por aí. E os parceiros que encontramos podem corresponder a essa expectativa ou não”, explica Semir Zeki, neurologista da University College London e autor de estudos sobre o cérebro das pessoas apaixonadas. Existem muitos testes que ajudam a descobrir qual é o seu tipo de personalidade e saber quais outros combinam com ele (em super.abril.com.br/revista/teste-do-amor você encontra um teste baseado nas conclusões da americana Helen Fisher, antropóloga da Universidade Rutgers e uma das maiores especialistas do mundo nas relações entre amor e cérebro).

Mas o que vai acontecer daqui para a frente no relacionamento tem mais a ver com a dança de hormônios dentro da sua cabeça. Ou você já viu alguém tomar racionalmente a decisão de se apaixonar? A natureza criou 3 mecanismos cerebrais que controlam o amor nos seres humanos: luxúria, paixão/romance e ligação. O mecanismo da luxúria (desejo sexual) está ligado à quantidade do hormônio testosterona – tanto em homens quanto em mulheres. Já o impulso da paixão e do romance é alimentado pela dopamina. E o terceiro sistema, da ligação e do companheirismo, é alimentado pela ocitocina (na mulher) e pela vasopressina (no homem). Os 3 sistemas são independentes. Ou seja: uma mulher pode amar o marido, estar apaixonada pelo vizinho e sentir atração pelo Johnny Depp, tudo ao mesmo tempo. Uma confusão só. “É como se houvesse uma reunião de comitê na sua cabeça”, brinca Helen Fisher. E, para complicar ainda mais as coisas, esses sistemas interferem uns com os outros. Uma coisa leva a outra, principalmente quando as pessoas vão para a cama. O sexo pode aumentar os níveis de dopamina – que provoca paixão e romance. E o orgasmo provoca a descarga de ocitocina e vasopressina – os hormônios da ligação. É por isso que, biologicamente, não existe sexo 100% sem compromisso. Você sempre corre o risco de acabar se apaixonando por alguém com quem não tinha intenção de se envolver.

E assim foi para vocês. A noite foi incrível, e parece que a paixão está começando a rolar. Como ter certeza? É fácil. Você vai ficar meio aéreo, passar a comer e dormir menos e ficar horas e horas pensando na pessoa amada – um comportamento compulsivo, similar ao dos viciados em drogas. É isso mesmo: o neurotransmissor da paixão, a dopamina, é o mesmo envolvido nos casos de dependência química. E mexe com uma parte muito profunda do cérebro: o núcleo accumbens, que controla o sistema de recompensa – mecanismo que faz o indivíduo buscar coisas prazerosas (como comida, sexo ou amor). Ele tem uma influência incrivelmente forte sobre nós. “O sistema de recompensa avisa o cérebro sempre que uma coisa boa está para acontecer. Ficamos altamente motivados, antecipando o prazer que virá”, diz Suzana Herculano-Houzel, neurologista da UFRJ e autora do livro Sexo, Drogas, Rock`n`roll… & Chocolate – O Cérebro e os Prazeres da Vida Cotidiana.

A partir de agora, sua felicidade depende da outra pessoa. Se ela telefona ou manda um e-mail, você vai ao paraíso. Quando ela some, você vive uma agonia lenta, desesperada. Se você está sentindo tudo isso, comemore. Está apaixonado.

CONTINUE LENDO:

Amor – O Meio

Amor – O Fim

Nada a ver com Deus (fim)

 

 

 

Nossos cérebros se tornaram para os nossos genes mais ou menos o que a Skynet se tornou para o sistema de defesa americano, no filme O Exterminador do Futuro: era para ser uma ferramenta utilíssima, mas que, de tão perfeita, adquiriu consciência e resolveu mudar as regras do jogo.

Nós também assumimos o controle e nos rebelamos contra os nossos criadores. Nós não somos mais nossos genes. Pelo menos não totalmente.

Hard-wired é um termo em inglês que designa um sistema que não pode ser reconfigurado pelo usuário através de um software. Se você não gostou da configuração que veio no equipamento, vai ter que abri-lo e fazer as alterações desejadas direto no hardware. Boa sorte.

Temos muito disso ainda em nossos corpos. Muita coisa hard-wired, como nossa altura, cor da pele, predisposição a certas doenças e maior resistência a outras. Entretanto, desde que, há 100 mil anos, nosso cérebro atingiu a capacidade que temos hoje, em termos fisiológicos, ele mesmo escreveu e nos disponibilizou um programa que reconfigura certas coisas que eram hard-wired.

Ainda temos nossos instintos, muito úteis e sempre a postos para nos tirar de enrascadas ou para nos fazer evitá-las; vivemos perfeitamente bem com nosso organismo funcionando em piloto-automático, sem que precisemos gerenciar coisas altamente vitais como circulação sanguínea, respiração e sistema imunológico; mas toda vez que alguém começa um regime, ou se torna vegetariano, ou usa um método contraceptivo, ou adota uma criança, ou decide fazer sexo única e exclusivamente com o amor da sua vida, nós damos uma prova a nós mesmos de que não somos mais robores desajeitados controlados por uma sequência inanimada de substâncias químicas.

Nós hoje podemos, por escolha e por vontade, ditar o que fazer e o que não fazer com relação a certos comandos que, antes, eram acionados automaticamente, e eram inacessíveis à reprogramação ou controle. Nós, hoje, podemos dizer que não somos animais, porque já não nos comportamos como animais; e justamente por termos desenvolvido a habilidade de refrear nossos instintos e a capacidade única de agir — às vezes com muito custo, mas às vezes, também, com muito prazer — contra a nossa própria natureza.


 

 

O vampiro que não bebia sangue humano*

 

(*) Eu detestei esse filme, e até tinha pensado em colocar a foto do “Pão” Pitt, que também fez outro vampiro que se recusou a se alimentar de sangue humano, no filme Entrevista com o Vampiro. Só que ele caiu em tentação e não ia fundamentar bem o argumento do post. O do Crepúsculo é mais determinado, e achei, sim, que ele seria um ótimo exemplo de criatura que se rebela contra seus próprios genes: um vampiro vegetariano!! Sem falar nessa foto que ilustra bem o foco principal da série: o Amor, um tema que não tem nada a ver com Deus.

 

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Nada a ver com Deus (parte 4)

 Mulher/Homem. Óvulo/Espermatozoide. Qualidade/Quantidade. Não entendeu ainda por que um homem que coloca uma aliança no dedo tá dando um tiro no pé? Deixa eu organizar de outro modo:

Mulher – Óvulo – Qualidade.

Homem – Espermatozoide – Quantidade.

Visualizou? Não? Deixa eu separar em tópicos, então, já que eu não sei desenhar.

Um óvulo é uma célula muito cara ao organismo feminino. Ele é tão dispendioso para a fêmea que ela só consegue amadurecer apenas um a cada ciclo de 3 semanas, mais ou menos. O espermatozoide, ao contrário, é uma célula de baixíssimo custo ao organismo do macho: é apenas um rolinho de DNA envolto numa capinha vagabunda de proteína. Por ser barato e fácil de fabricar, um macho produz milhões de células reprodutoras por dia.

Depois que engravida, a fêmea vai arcar sozinha com todo o desconforto e peso — literalmente — da produção do novo ser. É ela que vai ter seu corpo deformado, seus órgãos internos espremidos, e ter que parir, com dor e com risco, a sua cria; e, depois, ainda amamentá-la e cuidar dela durante um certo tempo. Se uma fêmea engravida hoje, ela só vai estar totalmente livre para acasalar de novo — e assim repassar seus genes (que é, biologicamente, o motivo da sua existência) — daqui a, digamos, um ano. Como ela sabe que todo esse processo é demorado e sofrido, ela precisa fazer valer a pena e não vai engravidar de “qualquer um”.

Se um macho engravida uma fêmea hoje, ele sabe que ela vai passar os próximos meses ocupada com a gestação do seu descendente e vai achar isso muito legal, né não? Mas… o que diabos ele vai fazer, então, com os milhões de espermatozoides que vai continuar produzindo, todo dia, durante esse tempo?

Geneticamente, macho e fêmea estão programados para deixar tantos descendentes quantos forem possíveis. Mas o ritmo em que eles podem fazer isso é absurdamente desproporcional.

A fêmea, depois que escolhe seu macho pelo porte físico e beleza — visando repassar essas características aos próprios descendentes —, e depois de ter perdido tanto tempo nesse processo de seleção, não vai mais querer ter todo esse trabalho de novo. Mesmo porque seria desnecessário se a escolha foi bem feita: ela vai querer o macho escolhido para gerar todos os seus descendentes. Isso é levado tão a sério que ela até se sujeitará a dividi-lo com outras fêmeas, donde vem o conceito de macho-alfa.

Quando selecionado por uma fêmea, o macho vai acasalar com ela. Isso porque ele não arrastaria a asa pra uma com a qual não quisesse brincar de papai-e-mamãe. Não é uma “seleção”, mas o macho sabe que precisa ser escolhido por uma fêmea que se enquadre dentro de certos critérios: ela será jovem; ele vai avaliá-la como sendo de um padrão de beleza acima do dele, ou, pelo menos, igual; ela terá seios fartos e ancas largas, maçãs do rosto salientes, dentes bonitos, cabelos volumosos e brilhantes. Tudo isso lhe acena com altíssimas possibilidades de ter filhos sadios e bonitos, já que é de seu interesse que eles também não tenham dificuldade em encontrar seus próprios parceiros sexuais, para continuarem a propagação de seus genes. Mas o macho não aceita dividir sua fêmea com outros machos, porque não teria como ter garantida a sua paternidade. Ele poderia perder tempo e energia criando o filho de outro, ajudando a eternizar os genes de outro, em vez dos seus.

E fica assim: a fêmea escolhe, escolhe, escolhe, escolhe e escolhe, e depois de dizer “É esse!”, vai ser “esse”. Tendeu? O macho não escolhe, mas, dentre umas tantas fêmeas do seu grupo pelas quais ele se sentir atraído fisicamente — o que se traduz por perceber que elas lhe dariam descendentes bonitos e saudáveis —, ele vai procurar fazer por onde ser escolhido por uma delas. E quando conseguir ser aceito, ele vai acasalar, deixar sua “sementinha” germinando dentro dela… e vai partir para a próxima.

Não é um troço lá muito romântico, eu sei. Mas diz aí: quem foi que te disse que era pra ser?


<< Parte 1


Nada a ver com Deus (parte 3)

 

 

Quando um homem e uma mulher começam a namorar, eles dizem para quem quiser ouvir que estão apaixonados. Quando decidem viver a vida toda ao lado um do outro (na verdade eles vão tentar, né?), eles vão querer justificar tal atitude dizendo que “se amam”.

— Papai, mamãe, eu e o Barros… bom… nós nos amamos e vamos nos casar!

É esse pensamento equivocado que, geralmente, leva um casal apaixonado a fazer aquela promessa imbecil, no altar, na frente de um monte de parentes e amigos. Mas esse é o maior erro que eles já cometeram e que poderão cometer em relação ao outro. Não existe o pecado original? Pois esse é o erro original: não fosse por ele, não haveria casamento e, por conseguinte, não haveria Inferno.

Você pode amar seu pai, sua mãe, sua filha, seu irmão, e até pode amar a sua esposa, com a qual conviveu bem ou mal, aos troncos e barrancos, pelos últimos 30 anos; mas o que dois pombinhos consumam com um “sim”, após aquela pergunta fatídica, não tem nada a ver com amor. É apenas um ritual tolo, equivocado e desastroso imposto pela sociedade, que, embora oficialize e faça propaganda do tesão que um está sentindo pelo outro, vai violentamente de encontro a milhões e milhões de anos de programação genética.

Para Richard Dawkins, nós somos robores desajeitados controlados remotamente pelos nossos genes.* Somos apenas a carcaça que protege, transporta e repassa os seus Criadores invisíveis, que não se estressam com esse lance de pecado, muito menos se importam com o que façamos de nossas vidas, tendo nos deixado apenas dois Mandamentos:

1. Sobrevivam;

2. Procriem.

A consciência que temos de nossa própria existência e do mundo ao nosso redor é apenas um subproduto dessas máquinas orgânicas que os genes desenvolveram para sobreviver. E eles sobrevivem. Nós não.

E só não nos importamos muito com isso por um desses dois motivos: ou por ignorância, porque, quando você não está devidamente inteirado dos fatos, pode ficar tentado a considerar apenas os mitos; ou pelo distanciamento involuntário da realidade, que é o que faz, por exemplo, você saborear alegremente uma picanha argentina mal passada, sem se dar conta de que está devorando um cadáver.

Segundo Geoffrey Miller, “do ponto de vista dos genes de um macho, o corpo em si é um navio-prisão que afunda. A morte chega, cedo ou tarde. A única salvação [nada a ver com Deus] é através de um tubo de escape que termine dentro do corpo de uma fêmea carregando um óvulo fértil.”

Qualquer fêmea, se é que você me entende.

“Para os genes da fêmea, o corpo também é um navio que afunda; mas ela tem quase tudo que é necessário para produzir outros corpos: óvulos, útero, leite. A única coisa que lhe falta é o DNA de um macho. Mas há muitos pretendentes disponíveis no mercado. E eles são tantos que a fêmea pode se dar ao luxo de ser exigente.

Qualidade se torna o ponto-chave.”

Esse conflito de interesses — qualidade x quantidade — é, basicamente, o que torna o casamento uma instituição que tende a desmoronar sob o próprio peso, à medida em que os anos (ou meses) passam. Raramente é a morte que põe fim àquele voto leviano de amor vitalício que foi feito no altar…

Você pode ter tido a cara de pau de, um dia, ter prometido a uma moça bonita amá-la “até que a morte nos separe”. Mas os seus genes não prometeram nada! A ninguém. Mesmo porque, para eles, essa promessa não faria o menor sentido:

Eles são imortais.

 

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* Não deixe de ler:   O outro nome de Deus


Nada a ver com Deus (parte 2)

A Mente Seletiva — como a seleção sexual moldou a evolução da natureza humana

O último relacionamento amoroso decente que eu tive já tem mais de uma década; e quase durou isso também: seis anos.

Acho que deve estar escrito em algum lugar que, depois que o namorado dá dois presentes de Natal consecutivos à namorada, é preciso marcar a data do noivado. Mas com Tatiana foi diferente. Quando começamos a namorar, ela havia acabado de completar 17 anos; quando terminamos, ela já ia pros 23. Mas ela nunca — nunca — tocou no assunto “casamento”, nem mesmo depois que, aos 19, resolveu fazer um test-drive comigo e moramos juntos por todo um mês. Deu tudo certo, mas Tatiana deve ter percebido que eu jamais iria querer passar disso: um namorado de mostruário, do tipo que funciona bem, que já foi testado inúmeras vezes, mas que você não vai levar pra casa.

“Eu não presto pra marido”. Foi essa a conclusão a que eu cheguei, depois que Tatiana saiu da minha vida, e depois que eu passei dez anos sem conseguir mais entrar na vida de ninguém. Alguma coisa estava errada comigo e eu não fazia a menor ideia do que era.

A única coisa que eu já sabia era que jamais iria prometer amar alguém até que a morte nos separe”. Essa promessa imbecil que duas pessoas se fazem na frente de um monte de parentes e amigos é a coisa mais hipócrita e mais ridícula que um ser humano pode dizer a outro. A menos que um dos dois já esteja pensando em cometer assassinato.

Eu tomei conhecimento da existência desse livro em julho de 2007, numa coluna da revista Veja. Apenas lendo uma resenha, eu intuitivamente percebi que essa tese de Geoffrey Miller iria me dar a resposta para a pergunta que os olhos de Taty me fizeram na última vez em que nos vimos: Por que não?.

Como não achei o livro em lugar nenhum na minha cidade, comprei um exemplar em inglês na internet. Quando terminei de ler as quase quinhentas páginas desse livro sagrado, eu não era mais eu. Pessoas religiosas costumam dizer que “nasceram de novo em Cristo”. Pois eu, extasiado, boquiaberto e estupefato, havia nascido de novo em mim e para mim mesmo: eu era, simplesmente, um Buda. Eu estava desperto.

Sim. Agora. Eu sabia.

Sabia quem eu era, como eu era e por que eu era. Não só sabia as respostas; sabia as perguntas. Não só sabia as regras; sabia que era um jogo. Não só sabia o que fazia um homem e uma mulher decidirem passar o resto de suas vidas juntos, como sabia por que essa decisão estava fadada ao fracasso.

O amor que um macho sente por uma fêmea, assim como Deus, também não passa de uma ilusão.

<< Parte 1

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