O Diário de Anne Frank

Anne-Frank

Nunca me interessei em ler O DIÁRIO DE ANNE FRANK até semana passada, quando meu irmão me apareceu com um volume muito bem encadernado em que se lia na capa: edição definitiva. Meu irmão me explicou que aquela era a edição completa do diário, e que todas as outras em circulação tiveram vários trechos censurados pelo pai da menina, dono dos direitos autorais. Que trechos eram esses?, eu quis saber. Trechos que falavam de pessoas que, ainda vivas na época, não autorizaram que o livro as mencionasse; bem como os que traziam Anne relatando uma aventurazinha homossexual, a descrição detalhada de sua vulva e seus encontros eróticos com o rapazinho que também estava escondido no Anexo Secreto.

Peguei o livro emprestado do meu irmão e comecei a leitura imediatamente. Já nas primeiras páginas, entretanto… eu percebi que havia alguma coisa muito, mas muito errada ali. Se você já leu BLINK ou, como eu, passou toda a adolescência lendo e relendo as aventuras de Sherlock Holmes, saberá identificar a sensação de alerta que o seu cérebro lhe envia num piscar de olhos. E o meu cérebro, assim como os meus olhos, foram treinados à exaustão, anos a fio, por nada mais nada menos que Sir Athur Conan Doyle. Se isso não bastasse, eu também sou escritor, e um escritor enxerga os textos de forma um tanto diferente daquele que apenas os consome.

O diário de Anne Frank que todo o mundo conhece é uma fraude; não foi escrito por ela.

Eu, na minha petulância, achei que tinha feito uma descoberta e tanto, mas, durante os três minutos em que larguei o livro para fazer uma rápida pesquisa na internet, descobri que essa suspeita foi levantada tão logo O Diário foi publicado, e que o pai de Anne, Otto Frank, foi processado em Nova Iorque, no começo da década de 1960, pelo jornalista e escritor americano Meyer Levin, ao qual foi condenado a pagar cinquenta mil dólares pelo trabalho de ter escrito o diário de sua filha.

Mesmo assim, eu li todo o livro em dois dias, só mesmo por curiosidade. Mas fiquei o tempo todo pensando: se, na nossa época, alguém pode fraudar algo tão fácil de ser desmascarado (como eu desmascarei em poucos minutos) e mesmo assim a verdade continua inacessível à grande parte das pessoas, o que pensar, então, de uma estória da carochinha que se espalhou por todo o mundo sobre um judeu-mágico que viveu há dois mil anos?

Como as pessoas podem ser tão cegas? Isso eu não posso responder, mesmo que meus olhos tenham sido treinados por Conan Doyle na arte de desvendar fraudes. Mas eu sei como elas podem ser tão gananciosas, e sei como a ganância torna as pessoas petulantes, assim como eu. Em 1980, Otto Frank processou, na Alemanha, dois jornalistas que escreveram matérias denunciando o embuste que o estava tornando novamente rico. Após os tribunais alemães submeteram os quatro volumes originais do diário a peritos em grafologia, chegou-se à conclusão de que todo o diário havia sido realmente escrito por uma mesma pessoa, e foi dado ganho de causa aos jornalistas. Otto Frank perdeu de novo. E, de novo, a fraude foi revelada.

“Como?”, você pode estar se perguntando…

Elementar, meu caro Watson! Todo o suposto diário de Anne Frank havia sido escrito com caneta esferográfica, que não haviam sido inventadas até 1951.

Anne Frank morreu de tifo, num campo de concentração nazista, em 1944. 


%d blogueiros gostam disto: