A honestidade do ateísmo – fim

<< Parte 1

Nós agora podemos ver o erro do teísta promovendo seu Deus:

 Teísta: ― Creia nele.

Ateu: ― Ele, obviamente, não existe.

Teísta: ― Vocês, ateus, acham que sabem de tudo.

Ateu: ― Eu não tenho que saber tudo para assumir que o seu Deus não existe. Tudo o que tenho que fazer é ouvir você me dizendo para crer nele. Se eu tenho que crer, é ofuscantemente claro que ele não existe.

Teísta: ― Pare de me criticar na minha fé!

Ateu: ― Tá, tá, tudo bem.

Não há evidência de que exista um deus. Se houvesse, nós todos saberíamos que um deus existe. Claro, ainda haveria dissidentes, como os que recusam aceitar as evidências da teoria da evolução. E é nisso que os crentes gostariam de transformas os ateus: dissidentes. A diferença é que se tem um monte de provas da teoria da evolução, que podem ser encontradas em museus de história natural, em livros acadêmicos, em revistas especializadas e, mais importante: no registro fóssil. Não há esse tipo de evidências para a crença deles, só declarações.

Nós temos que nos manter abertos para novas evidências que aumentem nosso conhecimento. Mas até que elas cheguem, a atitude intelectualmente honesta é se abster de crer em posições em que essas evidências não existam. Deixar de crer naquilo que você não pode saber é abraçar a realidade que pode ser conhecida ― revelar a vastidão do desconhecido, se maravilhar, se alegrar, imaginar… e, então, retornar para o que sabemos, e viver o melhor que pudermos.

Mas isso é inaceitável para o crente, que insiste que todos nós devemos compartilhar sua delusão. Se você se recusa, ele alegará que você tem a sua própria. Você ainda pode topar com o indivíduo insensato que irá, com a cara lisa, dizer que não há diferença entre prescindir de uma crença e ter uma. Não fale com essas pessoas. Eles poderão ver seus lábios se moverem, mas há mais alguém em suas cabeças que estará falando em vez de você. Por isso, esqueça.

Ateus não sabem que deuses não existem; nós estamos apenas bem certos disso baseados na total falta de evidência. Os crentes tentam bastante colocar os ateus numa posição de absoluta certeza de forma que eles possam ser melhor atacados. Os crentes acham que os ateus são crentes como eles próprios, só que com a fé às avessas. “Afinal”, eles dizem, “todo mundo crê em alguma coisa”. Delusão precisa de companhia para sobreviver. Acompanhada, ela pode se espalhar e se esconder nas sombras da ignorância. Nós precisamos trazer isso para a luz.

Há um gatilho em algum lugar do cérebro humano, estou certa, em que as pessoas por pouco não esbarram. Os pensamentos delas dançam em volta dele, evitando a lógica de todas as formas possíveis. Um dia, porém, para alguns de nós, algo o atinge. Alguém diz algo como: “Eu não sei como nós chegamos aqui, nem você sabe”, e o gatilho dispara, e eles de repente, embora muito frequentemente por breves instantes, entendem a falta do conhecimento, a falta da certeza, a falta da crença. E eles percebem que tudo são apenas estórias: a dos judeus, dos cristãos, dos muçulmanos, dos hindus, dos wiccas… e que o ateu apenas não acredita que essas estórias sejam reais.

Infelizmente, isso nunca dura muito porque se isso são apenas estórias, então os ateus estão certos. Se nós realmente não sabemos, então o ateu é o único encarando honestamente a situação. Se ninguém sabe, crença é apenas delusão, uma bálsamo para a mente, uma história da carochinha que nos faz dormir.

E se ninguém sabe, talvez o mundo material seja a única coisa que existe realmente. Talvez deixemos mesmo de existir depois do nosso último suspiro. O medo então se inflama e coloca de volta no lugar os blocos da crença e a desonestidade renasce. Nós não podemos honestamente admitir que não sabemos porque nós não aceitamos que somos parte dessa terra e que iremos morrer.

“Que situação mais triste”, lamenta o crente. Talvez. Mas tristeza não significa falso, assim como reconfortante não significa verdade.

Assim, nós optamos pela verdade. Como não há evidência de deuses, a única posição intelectualmente honesta que alguém pode ter é o ateísmo.

Eu, por mim, não acredito em acreditar.

A honestidade do ateísmo – 4ª parte

<< Parte 1

As evidências dadas para a existência de Deus entraram em nossa cultura por meio dos apologistas cristãos, mas pode ser facilmente transferida para outras noções religiosas de Deus ou deuses:

— Tudo tem uma causa, então há um Deus, que não tem causa.

— A vida existe, portanto Deus existe.

— Milagres acontecem, logo Deus os faz acontecer.

— A Bíblia é tão fabulosa que Deus a deve ter escrito.

— As profecias bíblicas só podem ser explicadas pela existência de Deus.

— Resposta a preces prova que Deus existe.

— Experiências pessoais provam que Deus existe.

— Os efeitos da crença provam que a crença é verdadeira.

— A disseminação do cristianismo prova que Deus é o único e verdadeiro Deus e que seu filho é Jesus.

Esses argumentos são tomados muito seriamente por pessoas muito sérias. Livros foram escritos sobre eles. Silogismos são apresentados e debatidos. É tudo uma boa diversão para alguns, mas esses argumentos podem ser rebatidos muito facilmente. Todos eles requerem um salto de fé do que é desconhecido para uma resposta que não tem nenhum suporte evidente.

Por exemplo, se tudo tem uma causa, Deus também tem que ter uma. Se Deus não precisa ter uma causa, algumas coisas são, obviamente, isentas. Dizer que só Deus é isento, é trapaça. Dizer que só coisas que “começaram” a existir precisam ter uma causa e que Deus nunca “começou”, é trapaça. Dizer que tudo tem que ter uma causa não prova nada além de que você está assumindo aquilo que você acha que vai suportar o seu argumento. Se fosse mostrado que o universo teve um começo, isso não nos diria absolutamente nada sobre se Deus existe ou não. Em outras palavras, mesmo se tudo que existe precisa de uma causa, nós ainda não saberíamos que causa seria essa.

Michael Shermer, em seu livro Why People Believe Weird Things: Pseudoscience, Superstition, and Other Confusions of Our Time,2 delineia 25 falácias que levam a erros de raciocínio e permitem que as pessoas aceitem ideias inválidas como verdade. Dentre essas falácias estão a crença de que declarações impetuosas feitas num linguajar científico tornam uma ideia real, problemas com a colocação do ônus da prova, raciocínio após o fato, racionalização de falhas, e uma inabilidade em distinguir verdade de falsas analogias, coincidências e apelos à ignorância.

Crença na veracidade das acima mencionadas “provas” da existência de deuses não é nada mais do que as falácias de Shermaer em ação. Nós não temos evidência da existência de deuses. O que as pessoas têm é falta de conhecimento e carradas de fé. As pessoas reagem credulamente às suas incredulidades ― o desconhecido é um vácuo que, para milhões de pessoas, tem que ser preenchido com alguma coisa para banir o desconforto corrosivo de não saber.

Milhões ou recusam aceitar as provas factuais da teoria da evolução, por exemplo, ou não são capazes de entendê-la. Eles não podem imaginar que a vida se originou sem nenhuma razão, nem sem a condução de um ser superior ― então eles creem que havia um.

As pessoas têm muita emoção investida na vida e não podem tolerar o pensamento dela simplesmente ― e permanentemente ― acabar. Então elas creem que há mais após a morte. Existem inúmeras questões para as quais as pessoas não têm resposta, então elas creem nas respostas que lhes são dadas pela religião.

Crença é delusão. Crença é baseada nos seus sentimentos e ignorância, não em qualquer evidência factual. Se você tivesse evidências factuais para o que você crê, você não teria que acreditar ― você saberia, e todos nós poderíamos partilhar esse conhecimento. Nós todos chegaríamos a uma mesma conclusão, a um mesmo Deus, a uma mesma história.

2 “Por Que as Pessoas Acreditam em Coisas Esquisitas: Pseudociência, Superstição, e Outras Confusões do Nosso Tempo”. (Tradução literal; não sei se há edição em português)

A honestidade do ateísmo – 3ª parte

<< Parte 1

Numa pesquisa de 2003 da Harris Poll, 4% dos que se denominaram ateus/agnósticos alegaram estar absolutamente certos de que havia um deus. Eu conversei com uns poucos antigos “cristãos rebeldes”. Eles alegavam que sabiam o tempo todo que Deus existia, mas ou estavam com raiva dele, ou apenas não queriam viver sob suas regras, recusando-se assim a adorá-lo. Eles chamavam a isso “ateísmo”, visto que já retornaram para o rebanho. (Essa atitude explicaria por que tantas pessoas alegam que ateus sabem que Deus existe e estão só com raiva dele ou querem levar vidas na libertinagem.)

Se aqueles inesperados 4% na pesquisa da Harrys Poll foram, ou não, devidos aos “crentes rebeldes”, aos ateus funcionalmente neuróticos, às pessoas que usaram uma definição estranha de agnosticismo, ou ao fato de pessoas simplesmente terem dado a resposta errada, nós nunca saberemos.

Das quatro escolhas possíveis nos pares gnóstico/agnóstico, teísta/ateu, o teísmo gnóstico é a posição mais confusa. Crença é uma aceitação ativa de alguma coisa sem evidência, ou apesar da evidência. Se você tem evidência suficiente para uma posição, você não precisa acreditar. Eu não tenho que acreditar que você pode morrer se for atropelado por um carro: eu tenho um monte de evidência disso ― suficiente o bastante pra saber que isso é verdade. Eu não tenho que acreditar que meu marido me ama, ele me mostra isso pelas suas ações. Eu não preciso ter fé que o Sol vai nascer amanhã ― isso tem acontecido todos os dias da minha vida. Eu tenho confiança nessas áreas, não crença. Confiança em alguma coisa só pode ser garantida quando há evidência que a apoie. Evidência é baseada em observação e repetição. Crença é fé ― aceitação sem evidência.

Se o gnóstico verdadeiramente tem o conhecimento que alega ter, ele pode compartilhar isso com outros; isso seria factual, testável, e confiável, porque é isso que o conhecimento É. Se ele tivesse o conhecimento que alega, não precisaria crer. Não se crê naquilo que se conhece ― naquilo que se sabe. E nós sabemos porque isso se repete e é baseado em evidências observáveis. Sim, muito conhecimento é probabilístico. Não há uma certeza absoluta em alguns assuntos além de lógica ou definições, isto é, existem graus de conhecimento até a certeza. Conhecimento é o que você tem quando chega bem perto da certeza.

Infelizmente, os crentes tentaram igualar conhecimento e crença ― a crença deles é considerada conhecimento. Mas deixe um ateu dizer que deuses não existem devido à falta de provas, e ele será bombardeado de volta com a exigência de que prove que não há deus algum. “Você não pode saber tudo”, dizem eles, “mas você tem que pensar que sabe de todas as coisas para dizer que deuses não existem”. Isso é lógica invertida.

Frequentemente ateus dizem mesmo que não existe nenhum deus. Nós baseamos essa posição na observação e nas evidências. Existem tantas evidências sobre a existência de fadas quanto sobre a existência de deuses, contudo não se espera que acreditemos em fadas. Ninguém nos diz que devemos abrir nossos corações para a realidade das fadas antes que vejamos que elas são bem reais. E mais importante: não se espera que provemos que fadas não são reais quando dizemos que não acreditamos nelas.

Não temos nenhum conhecimento sobre fadas ― nenhuma evidência de sua existência. Temos estórias sobre fadas, mas é tudo. Quando você não tem conhecimento sobre algo, das duas uma: ou você permanece sem resposta ou ponto de vista em relação a isso; ou você apenas acredita no que lhe foi ensinado, no que você ouviu, ou no que você sonhou. Somente quando você tem conhecimento, você pode honestamente ter um posição, ou alegar ter uma resposta.

É por isso que a crença em deuses é falsa, e o ateísmo é honesto. Não há evidências para a existência de deuses, apesar das alegações dos crentes. Acreditar é dissuadir alguém da busca da verdade.

Acreditar em Deus tornou-se tão arraigado na nossa sociedade que é o padrão aceito. Pessoas nos Estados Unidos, da maior parte, não gostam de ateus, para dizer o mínimo. Podemos discutir as várias razões disso: o ateísmo joga luz nas próprias dúvidas deles; eles acreditam que isso ameaça o tecido moral da nossa nação; acham que é coisa de Satanás; ou seja o que for ― eles não gostam, e as pessoas tendem a rejeitar e a difamar aquilo do que não gostam. Para muitos, ateísmo é uma imutável recusa em aceitar a realidade da existência do Deus cristão. E isso é, aparentemente, imperdoável e desprezível.

De acordo com uma pesquisa do Projeto Mosaico Americano, em 2004, feita em domicílios pelo Departamento de Sociologia da Universidade de Minnesota, ateus são a minoria menos confiável. Os americanos deixaram os ateus bem abaixo de muçulmanos, gays e lésbicas, e imigrantes recém-chegados quando identificando aqueles que compartilham a sua mesma visão da América e aqueles com os quais gostariam de ver seus filhos casados. Esse resultado não deve surpreender os ateus.

Pretendentes religiosos raramente são solicitados a mostrar qualquer evidência para a sua crença, ou mesmo descrever o que querem dizer quando usam a palavra Deus. Mas quando forçados a confrontar céticos, teístas são inflexíveis que existam amplas evidências de que Deus existe. E em seu empenho para argumentar, nós então percebemos que a palavra evidência pode ser tão difamada quanto ateu.


A honestidade do ateísmo – 2ª parte

<< Parte 1

Na América de hoje, há uma linha que não deve ser cruzada em matéria de religião. Acredite no que você quiser sobre Deus ou deuses e você será, pelo menos, tolerado; mas abandone completamente a crença em divindades e você cometeu um ato racional imperdoável. Você se atreveu a sugerir que o mundo natural é tudo o que existe. Isso não vai funcionar.

Os agnósticos são melhor tolerados porque eles parecem estar dizendo que não estão seguros. É preferível que você esteja certo que há um deus. Estar inseguro é admitir que você está, pelo menos, aberto à possibilidade de haver um, mas estar certo de que não há um deus é ser inatingível. Inflexibilidade em acreditar é bom; em descrer, é péssimo.

Esta é uma estranha hipocrisia da crença: você pode alegar que tem conhecimento quando não tem, e chamar isso de realidade. Mas, então, você pode dizer a alguém, que não tem a mesma crença e faz uma alegação de possuir conhecimento, que essa certeza é uma delusão1.

Uma razão para o ateísmo ser tão mal compreendido pelos religiosos é que assim é que tem que ser. Eles não podem combater a sua lógica e honestidade quando seu significado é propriamente definido, então, eles fazem o ateísmo significar aquilo que eles podem mais confortavelmente atacar. O significado de ateísmo é confundido pelos ateus como resultado de vivermos numa sociedade em que esse termo tem sido tão difamado.

Todos os nossos problemas com essa palavra se resumem na diferença entre crença e conhecimento. Ateísmo não é nada mais, nada menos, que a falta de crença numa divindade. Teísmo é “crença na divindade”. Independente do que quer que alguém acredite ou não, se não acreditar em deuses, é um ateu.

Ateísmo não é uma religião. Ateus gostam de dizer que “se ateísmo é uma religião, a ausência de cabelos nos carecas é apenas uma tintura”, ou “se ateísmo é uma religião, então, não colecionar selos é um hobby”. Isso não quer dizer que ateus não possam ter religião, mas a religião deles seria sem deuses ― e elas seriam escolhas individuais, não algo que fosse compartilhado por todos os ateus.

Alguns ateus veem uma diferença entre ateísmo forte e fraco. Ateus fortes alegam que deuses não existem; ateus fracos apenas não acreditam em alguns deles. Não existe uma real diferença entre esses tipos de pessoas. De qualquer modo, nenhum deles acredita em deuses.

Alguns dizem que ateístas fortes “acreditam” que não exista deus algum. Eu esperaria que eles costumem usar a palavra “acreditar” como um sinônimo de “pensar”, embora não seja a mesma coisa. Acreditar que não existe deus algum é tão delusório quanto acreditar que existe um ― quando se define apropriadamente a palavra “acreditar”. Note a sutil diferença entre acreditar que não existe deus algum e não acreditar que existe um deus.

O ateu forte não é aquele que “acredita” que não existe deus algum. Em vez disso, diferentemente do crente, o ateu forte baseia sua alegação em evidências. Com relação a isso, a diferença básica entre o ateu forte e o fraco é a hesitação do ateu fraco em declarar o óbvio, ou examiná-lo. É aí que reside a honestidade do ateísmo. Não há nenhuma evidência da existência de deuses e há boas evidências de que eles não existem. A posição honesta é admitir isso. Tudo que o ateísmo pede às pessoas é a honestidade de admitir que ninguém sabe ― ninguém ― se existe ou não um deus e, a partir daí, se abster da delusão da crença.

Muitos alegam que a posição de não saber é meramente agnosticismo ― mas eles estão errados. Vamos parar um momento e perceber que as pessoas usam os rótulos do jeito que querem. A outra razão do ateísmo ser tão mal compreendido é que a linguagem é uma coisa fluida. Nós estamos constantemente cortando em pedaços o significado das coisas para usarmos certos rótulos e, infelizmente, esse processo resulta na invenção de mais rótulos ― uns poucos interessantemente perfeitos, outros completamente inúteis, e alguns criando mais confusão num assunto já confuso.

Agnosticismo, por exemplo, na mente do povo, é dúvida, é ficar em cima do muro, não certo se há ou não um deus. No verdadeiro sentido da palavra, como T. H. Huxley cunhou, agnosticismo é uma alegação de falta de conhecimento sobre a existência de deuses. Os Gnósticos da história alegavam direto conhecimento de Deus; Huxley, achando que os ateus alegavam conhecimento de que não havia deus algum, decidiu chamar-se agnóstico: ele alegava não ter nenhum conhecimento da existência de qualquer deus.

Mas Huxley era um ateu, entendesse ele o significado dessa palavra ou não, porque ele não acreditava que havia um deus. Quando ele disse que ateus e crentes “tinham resolvido o problema da existência” ― ateus alegando conhecimento de que Deus não existia e teístas dizendo o contrário ― ele estava errado.

É somente por demanda que o ateísmo requer certeza, ou conhecimento, de que deuses não existem, que uma pessoa teria necessidade de uma palavra que descrevesse a falta de conhecimento sobre a existência de deuses. Na sua origem, ateísmo admite uma falta de crença, enquanto que agnosticismo admite uma falta de conhecimento. Nenhum de nós tem conhecimento de deuses ― os agnósticos são aqueles que admitem isso.

Definindo agnosticismo como “declarar não conhecimento da existência de deus ou deuses”, existem agnósticos teístas que admitem não ter nenhum conhecimento da existência de Deus, mas ainda acreditam que ele exista. Existem agnósticos ateus que admitem não terem tal conhecimento e, logicamente, se abstêm de acreditar. Naturalmente existem gnósticos teístas que alegam conhecimento da existência de Deus e acreditam que um existe. Alguém poderia pensar que não deveria haver gnósticos ateus ― aqueles que alegam ter conhecimento da existência de um ou mais deuses, mas se abstêm de acreditar neles ― mas, sem dúvida, eles estão em algum lugar por aí racionalizando sua desconexão diariamente.

1 Delusão: Ilusão afetiva, sensitiva ou intelectual; engano, delírio. (Dic. Houaiss)

A honestidade do ateísmo – 1ª parte

Minha tradução do artigo THE HONESTY OF ATHEISM, de Dianna Narciso, que faz parte do livro “Everything You Know About God Is Wrong”.

Algum tempo atrás, depois que o presidente dos Ateus Americanos Ellen Johnson apareceu em rede nacional num telejornal, uma conhecida minha iniciou uma conversa dizendo: “Eu vi seu líder na televisão ontem”. Eu fiquei completamente confusa. Poucos ateus (se algum) veem qualquer pessoa em particular, ou organização, como representante de suas “crenças”.

Mas, então, ateus não são assim tão diferentes de qualquer outro grupo de pessoas. Enquanto eu tenho ouvido, e feito, tentativas de nos rotular como furiosamente independentes, na realidade nós somos iguaizinhos a todo mundo. Como na comunidade religiosa, existem ateus que congregam com outros que têm as mesmas ideias e aqueles que não sentem essa necessidade. Como os religiosos com seus rótulos, ateus discordam sobre o que significa exatamente ateísmo e sobre quem é e quem não é ateu.

Uma coisa que diferencia os ateus, eu suponho, é que enquanto religiosos podem alegar que uma outra pessoa de fé não está verdadeiramente fora do seu próprio rebanho, é frequente que os próprios ateus aleguem que não são ateus. Eu estou ainda por ouvir um cristão dizer que não é cristão. Por outro lado, muitos ateus fogem do seu rótulo como se fosse uma doença.

Um monte de ateus apenas não gosta da palavra “ateu”. Eles usam um monte de outros rótulos em vez disso: humanista, livre pensador, agnóstico, não religioso, secularista, materialista, e racionalista, para nomear alguns. Quando questionada, pouco tempo depois de ter me assumido como ateia, eu respondi a uma mulher: “Nós não somos pessoas de igreja” na tentativa educada de recusar um convite. Algumas vezes, educação é uma desculpa para covardia.

Frequentemente nós usamos um de nossos outros rótulos como uma forma educada de dizer que somos ateus. Por alguma razão, usar a palavra que melhor descreve nossa posição com relação à existência de deuses é considerado grosseiro. Alguns ateus usam esses outros termos porque eles não querem alarmar o público geral. Enquanto eu posso ser solidária, é óbvio que o público geral não ficaria tão alarmado com a palavra se nós a usássemos mais livremente.

Enquanto é frustrante ter o ateísmo mal compreendido e descaracterizado pelos religiosos, ouvi-lo sendo difamado por colegas ateus é desencorajador. Muitos dos problemas em que os ateus se metem podem cair aos seus próprios pés, pelo menos em princípio. Muitos insistem que o ateísmo requer uma absoluta certeza ou crença de que deuses não existem. Eles preferem a palavra agnóstico, equivocadamente pensando que isso descreve um cético, aquele que duvida, ou uma pessoa que apenas não sabe.

A realidade é que o ateísmo é a única posição intelectualmente honesta que uma pessoa pode tomar ― é a única instância lógica.

Ateísmo tem uma longa história como termo usado para qualquer um que se recuse a se alinhar e adorar qualquer deus que esteja em voga no momento. Os politeístas chamavam de “ateus monoteístas” aqueles que não adoravam deuses locais; esse comportamento era considerado, no mínimo, rude. Os romanos, por exemplo, chamavam os cristãos de ateus. Com o crescimento do monoteísmo, ateísmo e paganismo eram vistos como a mesma coisa e repudiados como o mal.

Historicamente, a palavra não pretendia descrever uma pessoa que “acredita que deuses não existem”. Não, a palavra ateu era geralmente usada para descrever uma pessoa que “não acredita” em um ou mais deuses. Ateus de hoje, devido ao fato de estarem vivendo num mundo em que os deuses, na sua grande maioria, não são mais tidos como reais, não acreditam em qualquer um deles. Existem apenas alguns que sobraram, enfim, para não se acreditar.

Parte 2Parte 3Parte 4Parte 5

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Deus está nu (parte 1)

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Todo mundo já ouviu falar do conto A Roupa Nova do Rei, em que um rei vaidoso é enganado por vigaristas que, passando-se por tecelãos, exigem uma quantia monstruosa e fios de ouro e de seda para lhe confeccionarem uma roupa única e maravilhosa, invisível aos olhos de gente ignorante. O rei paga pela roupa nova e sai pelo reino completamente pelado apenas para ouvir de todos os súditos — que obviamente não queriam passar por estúpidos — os comentários de como ele estava bem vestido, até a hora em que uma criança dispara a verdade na cara de quem quisesse ouvir: “O rei está nu”.

Pois eu acho que a religião e a fé em Deus é basicamente isso: uma farsa compartilhada em que as pessoas fingem que estão vendo o que não estão. E nós, ateus, somos aquela criança.

Daí o motivo do crente detestar ateu, conversa de ateu, livro ateu, e qualquer coisa que mostre o seu Deus sem o manto invisível que o crente quer enxergar. Crente adora estar entre crentes porque eles dizem amém pra tudo. Eles não pensam e nem querem pensar sobre o que lhes é dito. Eles só querem dizer “Aleluia”. O ateu é uma criança impertinente que enche o saco dos fiéis súditos de Deus com perguntas para as quais eles não têm resposta.

Meu pai, volta e meia, vem discutir comigo sobre fé em Deus. E ele só sai vitorioso quando usa o único argumento para o qual não existe contra-argumento: “Eu acredito e pronto!” Parabéns. Quanto a todos os outros ele só estrebucha e vem sempre com esse papo de que Deus é amor, que Jesus te ama, quer te salvar e tudo o mais… Tudo isso baseado numa doutrinação que o obriga a “adorar” um Deus que não está na Bíblia.

O Deus da Bíblia é intragável ao cristão e ele criou uma versão 2.0 para sair por aí, drogado e feliz, achando que pode atravessar uma avenida sem olhar pros lados, porque acabou de sair de uma boca de culto, porque está com uma Bíblia atochada ao sovaco, e porque Deus irá protegê-lo de um carro já fora de linha, ano 98, pilotado por um ateu, que vem a 80 km/h numa via de 60.

O crente quer sustentar seus argumentos com a única coisa que tem para usar contra um universo inteiro de evidências em contrário: a sua Bíblia. Mas ele próprio não considera o seu livro sagrado, a palavra do Deus vivo, uma fonte muito confiável, porque ela foi “adulterada”, ou “desvirtuada” ou “mal traduzida”, ou o que quer que seja, querendo-se dizer com isso que aquela parte que um ateu está mencionando, que, por exemplo, vem a mandar descarga abaixo a ideia de um Deus fofinho e amoroso, bom… essa parte não vale.

Um ateu não diz amém e esse é o grande problema — e pé no saco — do crente. Ele também, o ateu, ao contrário do que muitos pensam, não quer “converter” ninguém ao ateísmo; mas ele tem todo direito de não ouvir calado todo tipo de baboseira que aparece.

—  Vem cá, que porra de Deus bonzinho é esse que tu tá falando que eu não encontro na Bíblia que eu tenho em casa?

—  Por que que tu não lê toda a tua Bíblia, contentando-se apenas com versículos isolados, prega a tua fé usando versículos isolados, e quando eu te faço ler uns tantos versículos que mostram como o teu Deus é um tremendo de um filho da puta tu vem me dizer que eu estou me valendo apenas de versículos isolados?

—  Ei, se o teu Fiat Uno (modelo antigo) foi um presente de Deus, de acordo com o adesivo no teu vidro traseiro, o Corola 2009 do meu amigo ateu foi presente de quem?

—  Por que tem tantos “homens de Deus” entrando na política e se filiando a “partidos cristãos” com a promessa de melhorar a vida de todo mundo, caso eleitos? E aquele papo de fé e mostarda e montanha? Por acaso as orações não estão mais surtindo efeito?

—  Vê só: se eu falar um monte de merda sobre o teu Deus de merda, e se for atropelado e morto hoje à noite por um caminhão da Coca-Cola, tu vai dizer que foi castigo de Deus. Se, ao contrário, tu for atropelado, o que tu vai pensar?

Domingo passado mesmo, mudando os canais da TV aberta, que está “infestada” (a palavra é essa mesmo — infestada) de programas religiosos, parei por um instante num canal que transmitia ao vivo a missa na basílica de Aparecida do Norte. O padre desfiava a liturgia: “Não olheis para os nossos pecados; mas para a nossa fé, que anima a vossa Igreja”.

Eu, ateu que sou, não tenho como desligar a minha tecla SAP:


Senhor Deus, criador de todo o universo, por favor, fazei vista grossa para o fato de estarmos cagando e andando para as vossas leis ridículas e para as vossas vontades mesquinhas, e considerai apenas o fato mais importante… o de ainda estarmos aqui, firmes e fortes, babando o vosso ovo sagrado.”

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Parte 2Parte 3Parte final


A religião é totalmente ruim?

Por Ábia Costa, do blog Ateu e à Toa.

Não me considero uma militante do ateísmo — ou pelo menos ainda não — tão pouco uma defensora da religião, apesar de ter passado boa parte da minha vida professando fé em uma.

Antes de qualquer coisa, quero dizer que sim, sou ateísta; o que muitos podem questionar devido a minha posição de não ter total repugnância à religião como os demais. Na verdade tenho repugnância a muitas coisas dentro da religião, o que acontece e a forma como ela manipula as pessoas as levando crer estarem ao lado da verdade e se sentirem superiores aos demais que não têm religião.

A minha grande pergunta é: o ateísmo é superior à religião? E se é, por quê?

Muitos vão me dizer que é porque somos mais racionais, que não nos deixamos ser levados por ilusões, etc. Concordo, mas também não acredito que TUDO na religião seja ruim.

Certo, antes de me apedrejarem, deixem-me explicar…

A religião nos ensina a sermos fanáticos, a entregarmos nossas vidas a um ser superior, que na verdade é o líder religioso, mas ela também nos ensina que o ser é maior que o ter, nos ensina a perdoar quando somos feridos, nos ensina a ter esperança quando tudo parece contrário.

Eu sei que muitas vezes o que vale na religião é o dinheiro, o número de fiéis quase sempre é convertido em cifras; mas não podemos simplesmente jogar tudo no mesmo saco e dizer que tudo seja ruim. Desta forma, estaríamos nos igualando a eles, que dizem que o ateísmo é ruim, que vamos para o Inferno, e blá, blá, blá… Coisas que certamente se você é ateísta já ouviu em algum momento, e o pior: nos acusam de muitas coisas, sem conhecimento de causa. Não estaríamos nós fazendo o mesmo?

O que quero enfatizar, é que existem pessoas boas religiosas, assim como existem pessoas fanáticas religiosas; existem aquelas que ao saber que você é ateísta simplesmente vão mudar de assunto para não haver conflito, assim como existem aquelas que irão querer impor suas verdades infundadas. Somos seres individuais, cada um com sua forma de agir, não podemos julgar a todos pela sua crença ou falta dela, não podemos dizer que uma pessoa é ruim porque segue Buda, ou Jesus, ou Xangô.

Existem crenças que são maléficas à sociedade? Sim, assim como existem crenças que de alguma forma beneficia alguém, e a melhora como pessoa.

A religião, com toda certeza, possui mais aspectos negativos do que positivos, mas negar que haja algo de benéfico nela é, no mínimo, falta de senso crítico.

Não defendo religião, ou a ideia de deus — longe de mim fazer isso — o que defendo é a individualidade humana, e o não pré-julgamento pela crença de outrem.


Ábia

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