De onde vem a fé

Segundo o dicionário Houaiss (lê-se “uáis”), na sua acepção mais comum, “dogma” é o ponto fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como certo e indiscutível, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar. São assuntos sagrados, imexíveis, imutáveis e inquestionáveis: “Aceite e ponto. Você não precisa ― nem deve!!! ―  pensar a respeito”.

A fé religiosa se apoia numa parte do cérebro humano de onde a razão teve de ser extirpada. Mas esse processo é demorado, portanto precisa começar bem cedo. Quando somos crianças, nossos pais, nossa família e a sociedade na qual calhamos de nascer nos enfiam sistemática e ininterruptamente goela abaixo ― seria melhor dizer: cérebro adentro ―, uma série de “certezas” que a nossa mente indefesa e honesta inevitavelmente acaba por absorver. Quanto mais o tempo passa, mais essas certezas são discutidas, rezadas, encenadas, lidas, catequizadas a ponto de ficarmos fascinados por elas e vê-las, por fim, como coisas que fazem parte do mundo real. Além do mais — nós pensamos — , todas aquelas pessoas, para nós revestidas de enorme autoridade, não poderiam estar erradas. Não ao mesmo tempo. Não durante tanto tempo.

E a fé então se instala. Não importa o que foi dito à criança, ela irá acreditar. E os dogmas vão dar ponto e servir para manter incólume tudo o que ela aprendeu, mesmo (e principalmente) ante as futuras e previsíveis investidas da razão.

As pessoas acreditam no que acreditam porque foram doutrinadas para isso. Todas as outras pessoas que elas conheceram, amaram, respeitaram e em quem acreditaram durante os seus primeiros anos de vida diziam que as coisas eram assim, e que elas deveriam acreditar também. Claro que, em algum momento da nossa infância, de um jeito ou de outro, fomos informados de que o Saci-Pererê e o Papai Noel não eram reais. Mas ninguém veio nos dizer que Deus também não era.

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Onde todos os absurdos se encontram.

Autor : IORI BRUNO

Estou cansado. Exausto. Esgotado.

Em reflexões enérgicas e desesperadas tento entender como a mente religiosa funciona e o que vejo são cães correndo atrás de seus próprios rabos, se fazendo de carentes para chamar a atenção de seu dono e talvez ganhar um carinho. Ou um chute quando mijam no tapete. Patético, realmente patético.

Tento. De verdade. Mas como posso aceitar que uma pessoa me diga que deus não é racional?

De tão fácil e covarde, essa frase soa até engraçada. “Ah, você quer dizer que deus é burro? Hum…” Uma fuga tão acomodada e irresponsável assim, só o livre-arbítrio.

O que mais me irrita nessas respostas é o talento desperdiçado. Pense bem, se uma pessoa que me dá uma explicação como essa (de que deus não é racional e, por isso, não pode ser explicado) usasse esse dom de esquiva para tentar realmente responder a questão não seria maravilhoso? Bem, hoje em dia eu não tenho mais tanta esperança sobre a escolha dessa pessoa. Falando em escolha…

Uma das coisas mais intrigantes sobre o conceito de livre arbítrio é que ele já existia em religiões muito anteriores ao cristianismo (Mazdeísmo). O livre arbítrio é tão ridículo, que sendo verdade ou não continua incoerente. Veja, se existe, é incoerente porque não poderia existir castigo nem recompensa à pessoa já que isso a influenciaria a tomar sua decisão e isso é assédio moral. Se não existe, então deus faz um “reality show” cruel e macabro com suas amadas criaturas e isso vai de encontro a um ser bondoso. Esta última hipótese é ainda mais hipócrita, porque é absolutamente ridículo acreditar que o que acontece no planeta não é culpa sua! E ainda por cima viola uma das leis mais básicas da natureza: O equilíbrio de forças. Ou seja, não faz sentido errar de forma finita, limitada e ganhar um castigo ilimitado e infinito.

E outra coisa: seguindo a idéia de que deus é onipresente, onipotente, onisciente e atemporal, a coisa fica ainda mais absurda. Pense bem, se ele conhece o passado, presente e futuro, ele sabe antes de você nascer se você vai acreditar nele, se vai ser cristão, criminoso, hindu ou ateu. Ou seja, ele sabe antecipadamente o destino de todas as pessoas que passaram ou que ainda passarão pela terra. E sabe quais irão para o inferno e para o paraíso. Agora me responda: Onde você está vendo livre arbítrio? Seria diferente se ele chegasse para todas as pessoas antes de nascermos e perguntasse: “Você vai viver uma vida de sofrimento e alegrias mas quando morrer vai direto para o inferno sofrer eternamente por ter trabalhado aos domingos! Você ainda quer viver sabendo disso ou pulamos esta parte e te mandamos para o inferno agora?” Isso seria livre arbítrio. Mas, você tem que concordar comigo que seria bem ridícula esta situação. E se você raciocinar, nesse caso, todas as pessoas que estão vivendo vão pro inferno. Pois são as únicas que veriam em viver uma chance (inútil) de mudar seu destino. Afinal, se ele disser que você vai pro paraíso, por que esperar? Ou melhor, por que arriscar?

Como sempre, tudo fica simples se admitirmos que deus não existe e que isso é um devaneio humano.

O livre arbítrio é uma ótima fonte para dissertações e não posso deixar de agradecer a Agostinho (“o santo”), afinal foi ele quem recortou esse plágio e o anexou ao cristianismo para justificar um dos mais sérios conflitos da religião do salvador que não salvou a si mesmo. Louvada seja a hora em que ele encontrou o texto mazda de onde tirou isso. Palmas pra ele.

Mas me deparo sempre com coisas bem mais estúpidas que isso e fico sem ação às vezes. E por incrível que pareça, as coisas mais básicas são as mais absurdas. Pensando bem não é tão incrível que sejam as mais básicas porque, afinal, deus não existe!

Quer uma coisa tratada com simplicidade pelos cristãos, mas que não entra na minha cabeça?

A vida eterna. Como pode, “meu deus”, uma pessoa de 20, 40 ou 60 anos achar normal viver pra sempre? Não vou nem cogitar como deve ser entediante ou se existe mesmo. O fato é que ninguém pode nem sequer imaginar (quem dirá desejar!) como é a eternidade ou o infinito pelo simples fato de que somos mortais e finitos. É o mesmo que estar dentro de um carro e, ao mesmo, lá fora o empurrando. Não se pode ver algo de fora quando se está contido. Me impressiona também quando me dão até detalhes sobre o céu ou o inferno. Sabem até a quantidade de vagas disponíveis! Que senhora imaginação! Não entendo como alguém pode ir para um lugar que nunca viu, que não tem volta, financiado por um ser desconhecido com sérias inclinações à psicopatia, vivendo de uma forma totalmente estranha e ainda ficar feliz por isso. Isso é mais parecido com aquelas agências aliciadoras de menores que levam meninas para se tornarem prostitutas no exterior. Isso vem bem a calhar, pois isso é o que essas pessoas são: Concubinas de deus (leia cafetão).

Agora, chocado mesmo eu fico quando me falam sobre as intenções deste ser supremo…

Dizem que conhecem deus. Um exemplo pode ser colocado aqui para elucidar as formas por quais as informações sobre um ser inexistente são passadas e recebidas com tal irracionalidade que chega a ser engraçado.

Um dia, alguém fala sobre o leite para um cego de nascença. E então ele pergunta:

    — Como é o leite?
    — É um líquido branco — responderam-lhe.
    — O que é branco?
    — O branco é a cor do cisne.
    — Ah!… E o que é cisne?
    — É uma ave de pescoço elegante e curvo.
    — Curvo?!… O que é curvo?
    O interlocutor colocou a mão em posição curva relativamente ao braço e deixou que o cego a apalpasse para perceber a noção de curva.
    — Ah!… — disse o cego percebendo a forma pelo tato. — Agora já sei como é o leite!…

    Tudo depende da capacidade de transmissão de um e de entendimento do outro. Quando ambos são falhos nisso, eis o que acontece.

E ainda falam com uma convicção assustadora, pois sabem de tudo. Que tipo de roupa se deve usar. Que tipo de carne ele não gosta. Que dia da semana ele não quer que você trabalhe. Que planos ele tem para a humanidade. E o meu preferido: o que o faz feliz. Essa última adivinhação supera todas as outras. Sabe o que agrada deus? Ser louvado e bajulado. Ou seja, não interessa sua índole, não interessa como vive, não interessa sua sinceridade. O que interessa de verdade é ter fé. Tendo fé, as outras coisas se “ajeitam”, entendeu? Acho que deus é mesmo brasileiro, até nosso famoso jeitinho veio dele!

Ele é capaz de, não apenas perdoar todas as atrocidades, mas até apoiar algumas, contanto que a pessoa o ame de maneira exclusiva (e o tema, principalmente) acima de todas as coisas e passe adiante. Que marketing mais agressivo e anti-ético para um ser todo bondade.

Nem sequer seus atributos fazem sentido. Para um ser que se diz perfeito (e prega a humildade!) ele errou bastante com a humanidade, não é? Muitas vezes admitindo que errou. Isso fora o projeto do corpo do ser-humano em si. Não foi um trabalho muito bom, considerando as possibilidades que possui um ser atemporal e super-poderoso. Acho que até eu seria um engenheiro bem melhor. Mas acho que estou sendo injusto porque me esqueço que fomos criados à imagem e semelhança dele. Que molde, hein? E ainda tem coragem de criticar. Ridículo.

Afinal, o que torna um ser perfeito? Poderíamos dizer que para uma coisa ser perfeita ela tem que ter todas as características possíveis e no nível máximo. Ou seja, se deus é perfeito, ele possui a maior bondade, o maior poder, o maior amor e etc. Certo? Que engraçado. Porque seguindo essa lógica eu poderia dizer que deus possui o maior fedor, por exemplo. Ó, todo fedorento, como tu fedes! Ou então toda a maldade do mundo. Isso explicaria muita coisa…

Perfeição é um atributo que somos incapazes de compreender. Você poderia dizer agora: “Ponto pra eles! Você acabou de admitir que somos incapazes de compreendê-lo.” Mas a verdade é outra menos fantasiosa. Não podemos compreender algo perfeito simplesmente porque não existe nada perfeito, caiu a ficha? A perfeição é apenas uma guia que criamos para medir a qualidade das coisas, apenas para efeito de comparação. Nesse ponto podemos dizer então que se deus é perfeito, logo não existe! E se não é perfeito, logo não é um deus. Das duas, uma: Ou você reza para o nada ou reza para alguém como você. O que é pior? Que malandro!

Indico pra quem quiser explorar essa última alternativa o documentário: “Eram os deuses astronautas?”

Existe um outro dogma que me fascina. Não o dogma em si, que aliás é bem infantil, mas por as pessoas o levarem a sério! Senhoras e senhores, com vocês a santíssima trindade!

Não é uma idéia nova, aliás, nada é original no cristianismo. Mas essa versão é tão banalizada que beira o ridículo. Pense comigo: Deus, Jesus e o espírito santo são a mesma coisa. Deus é pai, Jesus é filho e espírito santo ninguém conseguiu me explicar até hoje o que é, mas tudo bem. E isso porque é uma religião de um deus só… Mas continuando, o deus sanguinário do velho testamento e Jesus são a mesma pessoa para os cristãos. Então porque, diabos, insistem em separar as duas religiões (judaica e cristã) se são do mesmo deus? E também, uma coisa que sempre me faz rir: Na bíblia, com quem Jesus falava se ele mesmo era seu próprio pai? Quando falava com deus estava apenas sofrendo um surto de esquizofrenia?

Deus deve adorar paradoxos. Tanto que ele mesmo se transformou em um.

Não entendo qual é o ponto desse joguinho idiota de salvação. Para começo de conversa, acho que se precisamos ser salvos de alguém, é do próprio deus. Um ser arrogante, sádico, carente e infantil não é a melhor companhia para uma vida eterna. É como um casamento ruim, mas sem a possibilidade de divórcio.

O ponto é se arrepender? Posso fazer o que quiser durante a vida contanto que me arrependa no leito de morte, então estarei salvo. Isso não é injusto com as pessoas que desperdiçaram toda a vida se privando dos desejos? Mas deus é justo.

O ponto é fazer o que ele quer? Como um ser que possui todo o poder do universo pode ter tanta dificuldade em fazer sua criação obedecer? Essa questão de dar a escolha é pior se for considerada. Quer dizer que ao invés de dar às suas “amadas” criaturas, uma vida boa e tranquila, sem conflito e sofrimento, ele prefere fazer essa pressão psicológica imatura e sádica só pra ver quem puxa mais o saco dele? Quem quer viver cercado de puxa-sacos? Que ego! Mas deus é amor.

O que é deus? A resposta mais fácil, rápida e covarde é: Não tente entender deus.

Isso porque a mais difícil e honesta é essa: Deus é um conceito criado pelo homem para projetar suas próprias fantasias e seu ego, dar um sentido à sua curta existência e, de quebra, controlar e acalmar seus semelhantes menos favorecidos com a promessa de uma recompensa mais que merecida depois de uma vida inteira sofrendo em favor do conforto da classe dominante.

Quando se vê as coisas desta forma, ficam bem mais claras algumas afirmações de Jesus: “Digo-vos mais uma vez: é mais fácil a um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que a um rico entrar para o céu” Que frase inspiradora! Uma mistura de vingança e demagogia contra aqueles que os oprimiam. Uma manipulação covarde do povo, fazendo-o acreditar que se fará justiça quando, na verdade, só ajuda a perpetuar a opressão tornando-a natural. É nojento, mas infelizmente realidade.

Você deve estar se perguntando porque eu me importo em criticar a religião de maneira tão apaixonada. Simplesmente porque não consigo entender como uma pessoa passa toda sua vida acreditando que viver é se privar, que sofrer é sinal de recompensa e que, ainda por cima, foi privilegiada por acreditar nisso. E ela tem toda razão, afinal a ignorância é um privilégio.

Às vezes sinto que minha existência não faz sentido e que sou insignificante como uma estrela perdida entre bilhões de outras. Só que não procuro deixar de brilhar mas, sim, ter a consciência disso. E aqueles que nem sabem que podem brilhar? Saiam da caverna, já dizia Platão.


A arrogância cega da fé

Se você clicar Aqui vai assistir a um vídeo no YouTube em que o zoólogo e escritor Richard Dawkins dá uma resposta desconcertante para uma jovem de uma universidade para moças na Virgínia, US, na seção de perguntas logo após uma palestra para a qual ele fora convidado para fazer a divulgação do seu mais novo livro: Deus, Um Delírio.

Com relação à descrença em Deus por parte do palestrante, a jovem fez a seguinte pergunta: “E se você estiver errado?”.

A RESPOSTA:

— Bem, o que define ‘errado’?… ou seja, qualquer um pode estar errado. Nós todos podemos estar errados sobre o Monstro de Espagetti Voador (1), sobre o Unicórnio cor-de-rosa, ou sobre o Bule de Porcelana Cósmico (2). Você, por acaso, foi criada, eu presumo, dentro da fé cristã. Você sabe o que significa não acreditar em uma determinada fé porque você não é muçulmana, não é uma hindu. Por que você não é hindu? Porque aconteceu de você ter crescido nos Estados Unidos, não na Índia. Se você tivesse sido criada na Índia, seria uma hindu. Se você tivesse sido criada na Dinamarca, no tempo dos Vikings, você acreditaria no Terrível Martelo de Thor. Se você tivesse crescido na Grécia Clássica, acreditaria em Zeus. Se você tivesse sido criada na África Central, acreditaria no Grande Ju-Ju da Montanha. Não há nenhuma razão particular para se escolher o Deus judaico-cristão no qual, por puro acaso, você foi criada acreditando. E você me faz a pergunta ‘e se eu estiver errado?’. E se VOCÊ estiver errada acerca do Grande Ju-Ju do fundo do mar?”

A questão é que, via de regra, o crente, seja de que religião for, quer impor a sua divindade a todo o resto do mundo como sendo a única verdadeira. Ou, no mínimo, está totalmente convencido disso. Daí, das duas uma: ou todas as divindades são verdadeiras, ou nenhuma é.

Toda fé é apenas fruto da ignorância. Não no sentido pejorativo do termo, mas no sentido de que quanto mais se pensa, quanto mais se raciocina, menos fé se tem. Por isso a fé se sustenta nos dogmas (=aceite e não pense a respeito), sempre foi inimiga da razão (“A Razão é a meretriz do Diabo” – Martinho Lutero), e sempre tentou, à custa de muitas vidas, se manter acima da ciência na preferência do povo. “A Igreja entende que a Terra é plana”: problema dela. Mas, ops!, quem divulgar o contrário será barbaramente torturado e queimado vivo! Problema nosso. Muitos séculos, e muita barbárie depois, a Igreja reconhece o erro. “Agora a Igreja entende que a Terra é redonda, mas continua sendo o centro do universo”: problema dela. Mas, ops!, quem divulgar o contrário será barbaramente torturado e queimado vivo! Problema nosso. Muitos séculos, e muitas vidas depois, a Igreja reconhece o erro. “Agora a Igreja entende que a Terra é redonda e não é o centro do universo, mas considera pecado usar embriões humanos para pesquisa, e camisinha nas relações sexuais” porque “atenta contra a vida”. Infelizmente, para muitos religiosos, a Igreja não pode mais usar os seus instrumentos de tortura e suas fogueiras para difundir e “solidificar a fé”, mas a pergunta é: mais quanto tempo vai passar e mais quantas vidas vão ter que se perder até que ela admita novamente que errou?

Por causa dessa arrogância, milhões de pessoas foram mortas e torturadas e ainda estão sendo mortas e torturadas, de um jeito ou de outro. Milhões de mulheres foram queimadas vivas apenas porque sabiam curar algum mal-estar usando plantas medicinais e chás… ou, simplesmente, porque “aparentavam” ter um conhecimento, inteligência ou comportamento superior ao dos homens, ou diferente do que os homens achavam conveniente ser esperado numa mulher ou de uma mulher.

Não espero que você consiga imaginar o que significa milhões de pessoas sofrendo no ato da sua execução por discordarem do que seus executores acreditam.

Mas acho que você poderia se esforçar um pouco para imaginar a raiva desesperadora que sentiria se fosse VOCÊ quem estivesse amarrado ao tronco na hora em que a palha fosse acesa, condenado a queimar lentamente até a morte por acreditar em algo que seus executores não acreditam… por exemplo, que a Terra é redonda…

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(1) Uma lenda amplamente difundida na Internet: The Flying Spaghetti Monster

(2) “The orbiting china* teapot” mencionado em Deus, um Delírio: uma proposição do filósofo Bertand Russell de que haveria um bule em órbita entre a Terra e Marte, e que, pelo fato de não ser possível provar que ele não existe, não se poderia concluir que ele realmente exista.

*porcelana

deus Não É GRANDE

Alguns trechos de Deus Não É Grande de Christopher Hitchens. Clique na imagem do livro para ler o primeiro capítulo. 

“Ela [a fé religiosa] nunca morrerá, ou pelo menos não enquanto não superarmos nosso medo da morte, do escuro, do desconhecido e dos outros.” p.23

“Freud destaca o ponto óbvio de que a religião sofria de uma deficiência incurável: era excessivamente fruto de nosso próprio desejo de fugir da morte ou de sobreviver a ela.” p. 100

“A pessoa que tem certeza, e que alega mandato divino para sua certeza, pertence à infância de nossa espécie.” p. 21

“O Velhor Testamento (…) apresenta a mulher como sendo clonada do homem para seu uso e conforto.” p. 59

“O livro sagrado em uso há mais tempo – a Torá – ordena ao praticante agradecer a seu criador todos os dias por não ter nascido mulher.” p. 58

“[A religião é] Violenta, irracional, intolerante, aliada do racismo, do tribalismo e do fanatismo, baseada na ignorância e hostil à livre reflexão, depreciativa das mulheres e coerciva para com as crianças.” p. 60

“A religião vem de uma época da pré-história humana em que ninguém (…) tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Vem da infância assustada e chorosa de nossa espécie e é uma tentativa infantil de atender a nossa inescapável necessidade de conhecimento, bem como de conforto, garantia e outras necessidades infantis.” p. 66

“Hoje muitas religiões se apresentam a nós com sorrisos insinuantes e mãos estendidas, como um comerciante melífluo em um mercado. (…) Mas temos o direito de lembrar como elas foram bárbaras quando eram fortes e estavam fazendo uma oferta que as pessoas não podiam recusar.” p. 69

“(…) até recentemente os cristãos podiam simplesmente queimar ou silenciar qualquer um que fizesse perguntas inconvenientes.” p. 110

“Todas as religiões tomam o cuidade de silenciar ou executar aqueles que as questionam (e eu prefiro ver essa tendência recorrente como uma prova de sua fraqueza, e não de sua força).” p. 119

“Os museus da Europa medieval, da Holanda à Toscana, estão abarrotados de instrumentos e equipamentos nos quais homens santos trabalharam com afinco para descobrir por quanto tempo poderiam manter alguém vivo enquanto era tostado.” p. 200

“Dado o que foi revelado nas cidades modernas recentemente, causa arrepios pensar no que acontecia durante os séculos em que a Igreja estava acima de críticas.” p. 208

“O que é possível afirmar sem provas também pode ser descartado sem provas.”

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Deus: a hipótese descartada

a hipótese falha

Deus:A Hipótese Descartada – como a ciência mostra que Deus não existe

Um livro imperdível, ainda não traduzido para o português. Victor Stenger é professor emérito de Física e Astronomia da Universidade do Havaí e professor adjunto de Filosofia da Universidade do Colorado, U.S.

Eu terminei de lê-lo há alguns dias e vou postar aqui, a partir da próxima segunda-feira, traduções que fiz de alguns trechos.

Numa linguagem simples e muito precisa, o autor nos leva para dentro do Método Científico: explica como a Ciência constrói suas hipóteses, as testa, as avalia, reavalia, as põe à prova, até que elas sejam aceitas como — não necessariamente “verdadeiras” — mas válidas e úteis à nossa espécie. Mostra também que — o que para muitos religiosos é motivo de escárnio —  o fato de uma teoria ( = conhecimento que se adquiriu após uma hipótese ter “sobrevivido” ao método científico) ter que ser, vez ou outra, revista e modificada, não a torna sem crédito, pois, ao contrário dos dogmas religiosos, uma teoria científica “dá a cara à tapa”, apresenta-se para os demais cientistas do mundo e diz: “Por favor, mostrem que isso não está correto”.  Se ninguém consegue, com o conhecimento então disponível, e a teoria se mostra útil, diz-se que ela é uma teoria válida, ou aceita. Se uma teoria se sustenta quando novos fatos são descobertos e quando é capaz de ser usada para fazer previsões seguras que podem ser comprovadas, ela vira Lei, como a lei da gravidade.

É assim que funciona e sempre funcionou. E é graças a isso que, hoje, voamos de avião, visitamos outros mundos, falamos em celulares, inundamos o mundo com informação que viaja na velocidade da luz, aumentamos a nossa longevidade em décadas, etc. Os dogmas religiosos, por sua vez, só trouxeram desgraça, culpa, guerras e sofrimento à humanidade. Mas teremos tempo para falar sobre isso. Abaixo, só para dar uma ideia do livro, a tradução do sumário.

Cap. 1.  Modelos e Métodos

Cap. 2.  A Ilusão do Desenho

Cap. 3.  Procurando por um Mundo além da Matéria

Cap. 4.  Evidência Cósmica

Cap. 5.  O Universo Incompatível

Cap. 6.  As Falhas da Revelação*

Cap. 7.  Nossos Valores Vêm de Deus?

Cap. 8.  A Discussão do Mal

Cap. 9.  Deuses Possíveis e Impossíveis

Cap. 10.  Vivendo num Universo sem Deus

*Aqui há um trocadilho, pois, em inglês, pode ser lido: “As Falhas do Apocalipse”. Mas é revelação mesmo. Esse capítulo avalia as chamadas experiências religiosas, milagres, profecias, etc., que as religiões consideram como “prova” da existência de Deus. O autor põe essas alegações sob análise, usando o método científico e acaba por concluir que elas também não se sustentam.

Óbvio que o crente irá argumentar que o método científico não é suficiente para achar Deus, que Deus está além da compreensão humana, etc., etc., etc.. Mas isso é levado em conta também…

Como o livro não foi ainda oficialmente traduzido, dei minha própria versão do título. Alguém pode contestar que a tradução de “failed” deveria ser “falha” ( = infinitivo do verbo falhar), mas “descartada” é a que mais se aproxima do contexto: quando uma hipótese é posta à prova pelo método científico e não se sustenta, não “passa”, ela é desconsiderada, posta de lado, arquivada como “passado científico”. É uma hipótese falha. Em português, acho que dizemos mais comumente: uma hipótese descartada.

Vendo-se dessa forma, já dá para perceber que Deus não passou no teste.

Por que não acreditar – 3ª parte (final)

Quando se trata de Deus, não é diferente. Acreditar que existe um Deus todo-poderoso, que ouve suas preces, que o protege de perigos, e que criou um paraíso pra onde ele irá depois que morrer ― isso como uma espécie de bônus, pois só a perspectiva de ter “algum lugar para onde ir depois de morrer” já seria suficiente ― traz grandes benefícios para o crente: sociais, psicológicos, físicos e, muitas vezes, financeiros (se bem que este é mais frequente entre os pastores do que entre as ovelhas). Acreditar nisso lhe faz tanto bem, é tão reconfortante e lhe traz tantas vantagens que ele veria como um grande prejuízo o fato de “deixar de acreditar”, a tal ponto de:

1. dar prioridade, no nível social, aos relacionamentos e ao convívio com pessoas que compartilhem sua fé;

2. consumir produtos especialmente “desenhados” para ele: músicas religiosas, livros religiosos, filmes religiosos, programas de tv, etc.;

3. aceitar tão somente as informações que venham reforçar sua crença;

4. rejeitar consciente e inconscientemente qualquer coisa que venha de encontro às suas convicções religiosas;

5. permitir que outras pessoas que ele humildemente julga mais fortemente “conectadas” com Deus decidam por ele como ele deve viver a sua própria vida; e

6. aceitar, sem contestação, coisas que não entende, mas pelas quais seria capaz de morrer… ou matar. E é esse, segundo Richard Dawkins, um dos mais trágicos efeitos da religião: ensinar que é uma virtude ficar satisfeito em não entender.

O crente, portanto, está imerso num processo autoalimentador da fé, engenhosamente montado e mantido para protegê-lo das investidas da razão.

Entretanto, como no caso da Mala Azul, o outro lado da moeda seria o “descrente”, aquele que “acredita” que Deus não existe. E era justamente aqui aonde eu queria chegar: essa qualidade não pode ser atribuída aos ateus. Nós não temos fé com sinal invertido. Nós, ateus, não cogitamos a possibilidade de Deus ser real, assim como ninguém cogitaria a possibilidade de ser real eu guardar embaixo da minha cama um sextilhão de dólares. Não é questão de acreditar ou não: é apenas uma ideia absurdamente implausível demais que não merece sequer a dúvida educada das possibilidades.

Ser ateu é compreender que não existe um sextilhão de dólares.

O preço que pagamos por isso é o de termos que encarar a vida sem os benefícios e bálsamos que a fé proporciona. A vantagem é estarmos vivendo no mundo real, acordados, com a certeza de que esta é a única vida que teremos; o que a torna, por isso mesmo, ainda mais valiosa.


Ciência e Religião

A Religião tem um grave problema de falta de critério quando o assunto é Ciência. Se eu sou uma pessoa religiosa e a Bíblia me diz, por exemplo, que, quando do Dilúvio, a Terra foi totalmente encoberta com água até muito acima do seu ponto mais alto, enquanto que a Ciência argumenta que toda a água presente na Terra não seria capaz, sequer, de enlamear toda a superfície do planeta, eu digo para mim mesmo: “A Bíblia é que está certa. A Ciência é falível”. Mas, alguém poderia perguntar, não é nessa mesma Ciência Falível em que se confiam alguns dos processos mais importantes do Vaticano, como o da canonização e o da autorização para exorcismo? Esses processos não exigem claramente que essa Ciência Falível dê o aval de que tal e tal ocorrência não tem explicação científica e, mais ainda, desafia o próprio conhecimento científico como um todo?

E alguém poderia imaginar ainda ― como argumentou Richard Dawkins no seu livro “Deus, um Delírio” ―, no caso hipotético de escavações arqueológicas encontrarem, digamos, algum resquício de cabelo, sangue, etc., que pudesse ser atribuído a Jesus Cristo e, após os exames em um renomado laboratório genético, fosse anunciado que a amostra encontrada possui duas cadeias de DNA idênticas, ambas vindas da mãe (sem o cromossomo Y masculino), concluindo-se, assim, que a pessoa a qual pertencia aquele fragmento foi gerada exclusivamente por uma mulher… pois bem, alguém seria capaz de imaginar o Papa Bento XVI aparecendo na manhã seguinte para dizer a uma multidão de fiéis ansiosos na Praça de São Pedro que “Essa declaração não deve ser levada muito a sério porque a Ciência é falível”??? Ou seria mais provável que o Vaticano fizesse tocar trombetas pelos quatro cantos do mundo para anunciar a “comprovação científica” da natureza divina de Jesus? A Ciência não poderia estar, de repente, equivocada? A resposta é não.

Pelo menos não quando for conveniente.

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