Onde todos os absurdos se encontram.

Autor : IORI BRUNO

Estou cansado. Exausto. Esgotado.

Em reflexões enérgicas e desesperadas tento entender como a mente religiosa funciona e o que vejo são cães correndo atrás de seus próprios rabos, se fazendo de carentes para chamar a atenção de seu dono e talvez ganhar um carinho. Ou um chute quando mijam no tapete. Patético, realmente patético.

Tento. De verdade. Mas como posso aceitar que uma pessoa me diga que deus não é racional?

De tão fácil e covarde, essa frase soa até engraçada. “Ah, você quer dizer que deus é burro? Hum…” Uma fuga tão acomodada e irresponsável assim, só o livre-arbítrio.

O que mais me irrita nessas respostas é o talento desperdiçado. Pense bem, se uma pessoa que me dá uma explicação como essa (de que deus não é racional e, por isso, não pode ser explicado) usasse esse dom de esquiva para tentar realmente responder a questão não seria maravilhoso? Bem, hoje em dia eu não tenho mais tanta esperança sobre a escolha dessa pessoa. Falando em escolha…

Uma das coisas mais intrigantes sobre o conceito de livre arbítrio é que ele já existia em religiões muito anteriores ao cristianismo (Mazdeísmo). O livre arbítrio é tão ridículo, que sendo verdade ou não continua incoerente. Veja, se existe, é incoerente porque não poderia existir castigo nem recompensa à pessoa já que isso a influenciaria a tomar sua decisão e isso é assédio moral. Se não existe, então deus faz um “reality show” cruel e macabro com suas amadas criaturas e isso vai de encontro a um ser bondoso. Esta última hipótese é ainda mais hipócrita, porque é absolutamente ridículo acreditar que o que acontece no planeta não é culpa sua! E ainda por cima viola uma das leis mais básicas da natureza: O equilíbrio de forças. Ou seja, não faz sentido errar de forma finita, limitada e ganhar um castigo ilimitado e infinito.

E outra coisa: seguindo a idéia de que deus é onipresente, onipotente, onisciente e atemporal, a coisa fica ainda mais absurda. Pense bem, se ele conhece o passado, presente e futuro, ele sabe antes de você nascer se você vai acreditar nele, se vai ser cristão, criminoso, hindu ou ateu. Ou seja, ele sabe antecipadamente o destino de todas as pessoas que passaram ou que ainda passarão pela terra. E sabe quais irão para o inferno e para o paraíso. Agora me responda: Onde você está vendo livre arbítrio? Seria diferente se ele chegasse para todas as pessoas antes de nascermos e perguntasse: “Você vai viver uma vida de sofrimento e alegrias mas quando morrer vai direto para o inferno sofrer eternamente por ter trabalhado aos domingos! Você ainda quer viver sabendo disso ou pulamos esta parte e te mandamos para o inferno agora?” Isso seria livre arbítrio. Mas, você tem que concordar comigo que seria bem ridícula esta situação. E se você raciocinar, nesse caso, todas as pessoas que estão vivendo vão pro inferno. Pois são as únicas que veriam em viver uma chance (inútil) de mudar seu destino. Afinal, se ele disser que você vai pro paraíso, por que esperar? Ou melhor, por que arriscar?

Como sempre, tudo fica simples se admitirmos que deus não existe e que isso é um devaneio humano.

O livre arbítrio é uma ótima fonte para dissertações e não posso deixar de agradecer a Agostinho (“o santo”), afinal foi ele quem recortou esse plágio e o anexou ao cristianismo para justificar um dos mais sérios conflitos da religião do salvador que não salvou a si mesmo. Louvada seja a hora em que ele encontrou o texto mazda de onde tirou isso. Palmas pra ele.

Mas me deparo sempre com coisas bem mais estúpidas que isso e fico sem ação às vezes. E por incrível que pareça, as coisas mais básicas são as mais absurdas. Pensando bem não é tão incrível que sejam as mais básicas porque, afinal, deus não existe!

Quer uma coisa tratada com simplicidade pelos cristãos, mas que não entra na minha cabeça?

A vida eterna. Como pode, “meu deus”, uma pessoa de 20, 40 ou 60 anos achar normal viver pra sempre? Não vou nem cogitar como deve ser entediante ou se existe mesmo. O fato é que ninguém pode nem sequer imaginar (quem dirá desejar!) como é a eternidade ou o infinito pelo simples fato de que somos mortais e finitos. É o mesmo que estar dentro de um carro e, ao mesmo, lá fora o empurrando. Não se pode ver algo de fora quando se está contido. Me impressiona também quando me dão até detalhes sobre o céu ou o inferno. Sabem até a quantidade de vagas disponíveis! Que senhora imaginação! Não entendo como alguém pode ir para um lugar que nunca viu, que não tem volta, financiado por um ser desconhecido com sérias inclinações à psicopatia, vivendo de uma forma totalmente estranha e ainda ficar feliz por isso. Isso é mais parecido com aquelas agências aliciadoras de menores que levam meninas para se tornarem prostitutas no exterior. Isso vem bem a calhar, pois isso é o que essas pessoas são: Concubinas de deus (leia cafetão).

Agora, chocado mesmo eu fico quando me falam sobre as intenções deste ser supremo…

Dizem que conhecem deus. Um exemplo pode ser colocado aqui para elucidar as formas por quais as informações sobre um ser inexistente são passadas e recebidas com tal irracionalidade que chega a ser engraçado.

Um dia, alguém fala sobre o leite para um cego de nascença. E então ele pergunta:

    — Como é o leite?
    — É um líquido branco — responderam-lhe.
    — O que é branco?
    — O branco é a cor do cisne.
    — Ah!… E o que é cisne?
    — É uma ave de pescoço elegante e curvo.
    — Curvo?!… O que é curvo?
    O interlocutor colocou a mão em posição curva relativamente ao braço e deixou que o cego a apalpasse para perceber a noção de curva.
    — Ah!… — disse o cego percebendo a forma pelo tato. — Agora já sei como é o leite!…

    Tudo depende da capacidade de transmissão de um e de entendimento do outro. Quando ambos são falhos nisso, eis o que acontece.

E ainda falam com uma convicção assustadora, pois sabem de tudo. Que tipo de roupa se deve usar. Que tipo de carne ele não gosta. Que dia da semana ele não quer que você trabalhe. Que planos ele tem para a humanidade. E o meu preferido: o que o faz feliz. Essa última adivinhação supera todas as outras. Sabe o que agrada deus? Ser louvado e bajulado. Ou seja, não interessa sua índole, não interessa como vive, não interessa sua sinceridade. O que interessa de verdade é ter fé. Tendo fé, as outras coisas se “ajeitam”, entendeu? Acho que deus é mesmo brasileiro, até nosso famoso jeitinho veio dele!

Ele é capaz de, não apenas perdoar todas as atrocidades, mas até apoiar algumas, contanto que a pessoa o ame de maneira exclusiva (e o tema, principalmente) acima de todas as coisas e passe adiante. Que marketing mais agressivo e anti-ético para um ser todo bondade.

Nem sequer seus atributos fazem sentido. Para um ser que se diz perfeito (e prega a humildade!) ele errou bastante com a humanidade, não é? Muitas vezes admitindo que errou. Isso fora o projeto do corpo do ser-humano em si. Não foi um trabalho muito bom, considerando as possibilidades que possui um ser atemporal e super-poderoso. Acho que até eu seria um engenheiro bem melhor. Mas acho que estou sendo injusto porque me esqueço que fomos criados à imagem e semelhança dele. Que molde, hein? E ainda tem coragem de criticar. Ridículo.

Afinal, o que torna um ser perfeito? Poderíamos dizer que para uma coisa ser perfeita ela tem que ter todas as características possíveis e no nível máximo. Ou seja, se deus é perfeito, ele possui a maior bondade, o maior poder, o maior amor e etc. Certo? Que engraçado. Porque seguindo essa lógica eu poderia dizer que deus possui o maior fedor, por exemplo. Ó, todo fedorento, como tu fedes! Ou então toda a maldade do mundo. Isso explicaria muita coisa…

Perfeição é um atributo que somos incapazes de compreender. Você poderia dizer agora: “Ponto pra eles! Você acabou de admitir que somos incapazes de compreendê-lo.” Mas a verdade é outra menos fantasiosa. Não podemos compreender algo perfeito simplesmente porque não existe nada perfeito, caiu a ficha? A perfeição é apenas uma guia que criamos para medir a qualidade das coisas, apenas para efeito de comparação. Nesse ponto podemos dizer então que se deus é perfeito, logo não existe! E se não é perfeito, logo não é um deus. Das duas, uma: Ou você reza para o nada ou reza para alguém como você. O que é pior? Que malandro!

Indico pra quem quiser explorar essa última alternativa o documentário: “Eram os deuses astronautas?”

Existe um outro dogma que me fascina. Não o dogma em si, que aliás é bem infantil, mas por as pessoas o levarem a sério! Senhoras e senhores, com vocês a santíssima trindade!

Não é uma idéia nova, aliás, nada é original no cristianismo. Mas essa versão é tão banalizada que beira o ridículo. Pense comigo: Deus, Jesus e o espírito santo são a mesma coisa. Deus é pai, Jesus é filho e espírito santo ninguém conseguiu me explicar até hoje o que é, mas tudo bem. E isso porque é uma religião de um deus só… Mas continuando, o deus sanguinário do velho testamento e Jesus são a mesma pessoa para os cristãos. Então porque, diabos, insistem em separar as duas religiões (judaica e cristã) se são do mesmo deus? E também, uma coisa que sempre me faz rir: Na bíblia, com quem Jesus falava se ele mesmo era seu próprio pai? Quando falava com deus estava apenas sofrendo um surto de esquizofrenia?

Deus deve adorar paradoxos. Tanto que ele mesmo se transformou em um.

Não entendo qual é o ponto desse joguinho idiota de salvação. Para começo de conversa, acho que se precisamos ser salvos de alguém, é do próprio deus. Um ser arrogante, sádico, carente e infantil não é a melhor companhia para uma vida eterna. É como um casamento ruim, mas sem a possibilidade de divórcio.

O ponto é se arrepender? Posso fazer o que quiser durante a vida contanto que me arrependa no leito de morte, então estarei salvo. Isso não é injusto com as pessoas que desperdiçaram toda a vida se privando dos desejos? Mas deus é justo.

O ponto é fazer o que ele quer? Como um ser que possui todo o poder do universo pode ter tanta dificuldade em fazer sua criação obedecer? Essa questão de dar a escolha é pior se for considerada. Quer dizer que ao invés de dar às suas “amadas” criaturas, uma vida boa e tranquila, sem conflito e sofrimento, ele prefere fazer essa pressão psicológica imatura e sádica só pra ver quem puxa mais o saco dele? Quem quer viver cercado de puxa-sacos? Que ego! Mas deus é amor.

O que é deus? A resposta mais fácil, rápida e covarde é: Não tente entender deus.

Isso porque a mais difícil e honesta é essa: Deus é um conceito criado pelo homem para projetar suas próprias fantasias e seu ego, dar um sentido à sua curta existência e, de quebra, controlar e acalmar seus semelhantes menos favorecidos com a promessa de uma recompensa mais que merecida depois de uma vida inteira sofrendo em favor do conforto da classe dominante.

Quando se vê as coisas desta forma, ficam bem mais claras algumas afirmações de Jesus: “Digo-vos mais uma vez: é mais fácil a um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que a um rico entrar para o céu” Que frase inspiradora! Uma mistura de vingança e demagogia contra aqueles que os oprimiam. Uma manipulação covarde do povo, fazendo-o acreditar que se fará justiça quando, na verdade, só ajuda a perpetuar a opressão tornando-a natural. É nojento, mas infelizmente realidade.

Você deve estar se perguntando porque eu me importo em criticar a religião de maneira tão apaixonada. Simplesmente porque não consigo entender como uma pessoa passa toda sua vida acreditando que viver é se privar, que sofrer é sinal de recompensa e que, ainda por cima, foi privilegiada por acreditar nisso. E ela tem toda razão, afinal a ignorância é um privilégio.

Às vezes sinto que minha existência não faz sentido e que sou insignificante como uma estrela perdida entre bilhões de outras. Só que não procuro deixar de brilhar mas, sim, ter a consciência disso. E aqueles que nem sabem que podem brilhar? Saiam da caverna, já dizia Platão.


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Uma questão de marketing

No fim de maio de 2008, o Jornal Nacional exibiu uma reportagem sobre a polêmica que a discussão sobre a votação de uma lei para regulamentar a pesquisa com células-tronco estava gerando entre os religiosos brasileiros. Um jovem, representante do movimento evangélico, foi entrevistado e protestou enfurecidamente contra a aprovação de qualquer tipo de pesquisa que utilizasse embriões humanos, e concluiu dizendo que a intenção de se aprovar leis que regulamentassem esse tipo de coisa mostrava que o Estado estava “se tornando um Estado ateu; não está respeitando a fé das pessoas”. Lógico que ele jamais iria reclamar se o Estado estivesse se tornando um “Estado evangélico” e, obviamente, o trecho “não está respeitando a fé das pessoas”, se ele não fosse tão hipócrita, teria sido substituído por “não está respeitando a minha fé”.

Bom, eu confesso que nunca li a Bíblia toda, mas sou capaz de apostar que não deve ter nada lá proibindo pesquisas com células-tronco, o que provocou o discurso enfurecido do jovem evangélico, nem nada sobre fertilização “in-vitro” ― bebê de proveta ― onde para se conseguir o nascimento de um único bebê, geralmente são descartados, pelo menos, dez embriões humanos, e sobre o que as várias igrejas evangélicas, como a Igreja Católica, não parecem se incomodar tanto. Talvez a “Cruzada contra as células-tronco” seja só modismo. Ou propaganda. Ou os dois.

Entretanto, tal pretensão humana de “brincar de Deus” é ferozmente atacada pelos religiosos, que alegam que o embrião já é uma vida, querendo dar a entender que eles respeitam demais a vida humana. Mas a História está repleta de incontáveis exemplos desse “respeito” demonstrado pelas religiões do mundo. E a Cristã, da qual os evangélicos fazem parte, foi a que deu mais provas dele, seja pelas fogueiras que acendeu ou pelas guerras que motivou.

Isso mostra a falta de “critério”, a lógica maluca da fé: “Eu estou aqui defendendo esse aglomerado de células porque a minha religião tem alto apreço pela vida. Sim, já que você tocou no assunto, é a mesma religião, sim, que exterminou milhões de vidas humanas ao longo da História”.

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