Jesus Abominável (parte final)

 Jesus abominável

Recentemente entrei numa igreja católica para assistir ao batizado da minha sobrinha mais nova. Não tenho como saber se alguém mais percebeu, mas, no discurso de dez minutos que serviu de abertura para a cerimônia, por quatro vezes o padre mencionou a Danação Eterna. Uma vez a cada cento e cinquenta segundos, os pais foram lembrados da maldição que supostamente paira sobre seus filhos, e que era então o motivo de todos estarem ali reunidos: para iniciá-los num processo que lhes daria o salvo-conduto do Inferno.

Absorto em meus delírios na primeira fila, com os olhos fixos no símbolo máximo do cristianismo à minha frente, sem, entretanto, estar de fato olhando para ele, eu me imaginava correndo em direção ao altar, arrebatando o microfone das mãos do pároco, e discursando com voz calma para uma plateia atônita:

  INFERNO!!!

Eu não quero ir para o Inferno!! E também não iria querer esse terrível destino para a minha amada sobrinha. O mesmo se aplica a cada um de vocês com relação a si e aos que lhes são caros, não é verdade? Acontece que, ignorantes acerca de suas próprias convicções religiosas, vocês nunca pararam para se perguntar sobre a origem desse castigo, muito menos sobre o prêmio que vocês vieram requisitar para essas crianças: a Salvação.

Eu estou aqui para anunciar algo desconcertante. Meus Queridos! Aquele ao qual vocês fingidamente dizem amar, e mais fingidamente ainda dizem seguir; aquele ao qual vocês tão fervorosamente atribuem qualidades e sentimentos admiráveis como bondade e amor; aquele ao qual vocês suplicam a salvação do Inferno é o mesmo que ao Inferno os condenou: Jesus Cristo!

Sem Jesus Cristo não haveria Salvação. Em contrapartida, também não haveria nada do que ser salvo!

Segundo o seu próprio livro sagrado, foi com o Cordeiro de Deus que desceu à Terra essa chantagem celeste, junto com todos os demônios e essa onipresente ameaça de danação. O Deus bíblico, ainda cultuado por religiões não cristãs, parecia não ter plano algum para as nossas almas, após o nosso último suspiro. O nosso pecado original já recebia aqui mesmo a sua punição, enquanto os homens tiravam da terra o sustento com o suor de seus rostos, e as mulheres pariam seus filhos gritando de dor.

Foi Jesus quem nos apresentou a essa Boa-Nova — a recompensa ou a danação eternas estão condicionadas à aceitação ou não de que Jesus era quem ele dizia que era. E é disso que tratam os evangelhos e as cartas de um fanático que fundaram o cristianismo: uma ordem expressa para aceitar Jesus incondicionalmente como sendo o filho de Deus. A desobediência seria punida com o Fogo Eterno.   

O deus cristão, afinal, apresenta-se como um chantagista asqueroso, uma divindade malévola, depravada e carente de atenção, que só se achou capaz de angariar adoradores mediante a adoção da ameaça de uma punição eterna para quem não lhe cedesse aos caprichos. Esse Jesus bonzinho, humilde e amoroso que vocês apresentam aos seus próprios filhos sequer pode ser encontrado na Bíblia. Na verdade vocês dizem adorar a um Jesus concebido de uma forma extremamente particular, a partir de um outro Jesus bíblico que, por sua vez, foi inventado a partir de um Deus inventado segundo todos os deuses já inventados por todas as culturas humanas ao longo da nossa história. Mas toda a realidade à nossa volta não nos deixa esquecer que, ao fim e ao cabo, apenas nós existimos, juntamente com esse desejo — intrínseco à nossa humanidade — de que exista algo mais além de nós mesmos.

Vocês vieram aqui hoje para iniciar seus filhos no caminho da Salvação. E eu vim lhes dizer que, se vocês querem suas crianças a salvo do Inferno, terão que primeiro salvá-las das garras desse monstro abominável chamado Jesus Cristo.

    

  

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Jesus Abominável (parte 2)

Os judeus elegeram Jeová — Deus — do seu panteão de deuses, quando ainda eram um povo politeísta, e se mantiveram fiéis a ele desde então. Há coisa de um milênio e meio, os árabes lançaram no mercado o seu próprio deus — Alá — , montado sobre o chassi do Deus judaico, e estão com ele até hoje. Há dois mil anos, os cristãos materializaram o antigo Deus dos hebreus na figura mitológica de Jesus Cristo e, vendo-se diante do inconveniente de precisar se sujeitar a dois deuses ao mesmo tempo, resolveram imitar vários povos antigos, acrescentaram mais um deus na cesta — o Espírito Santo — , e venderam a ideia de que os três eram um só. Mas enquanto o Deus do Antigo Testamento e o Alá dos desertos permanecem os mesmos para os seus crentes, os cristãos vêm, ao longo dos últimos séculos, esmigalhando tanto o Filho do Homem que não me admiraria se, num futuro próximo, o cristianismo começasse a minguar até se decompor por inteiro, comido pelos seus próprios vermes como o cadáver de um glutão.

No princípio… era a todo-poderosa Igreja Católica. Depois veio a Reforma e, daí para frente, os cristãos não pararam mais de reformar o Criador. Aos ortodoxos vieram se juntar os protestantes, os carismáticos, as testemunhas de Jeová, os adventistas, os mórmons, os pentecostais, os neopentecostais, os evangélicos, etc., cada um deles adorando a um Jesus Cristo diferente, e a um Deus-Pai, quando sobra tempo. O mito Jesus é tão adaptável, tão versátil e tão fácil de compor, que se o Jesus cultuado pela sua atual denominação cristã não lhe agrada, procure conhecer a boca de culto do outro lado do bairro, ou mesmo na outra esquina. O Jesus de lá pode ser melhor e mais palatável do que o seu. Se não for, funde você mesmo a sua própria igreja; divulgue as qualidades do “seu” Jesus nas redes sociais, e certamente você contará a primeira centena de fiéis em poucas semanas.

Entretanto, apesar de tamanha diversidade cistológica, uma coisa que todos esses Jesuses têm em comum é a sua natureza criminosa abominável. Jesus é um chantagista coercivo, um megalomaníaco cósmico carente de atenção que resolveu inventar esse jogo chamado vida, cujo único objetivo é nos recompensar com delícias ou nos punir com torturas eternas, dependendo de nossa disposição em aceitá-lo, ou não, como ele é. 

E é para agradar esse ser execrável que minha sobrinha é aconselhada a não bater mais na sua coleguinha de classe.

 

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Jesus Abominável

Jesus abominável

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Quando eu era criança e fazia alguma coisa digna de repreensão, minhas duas avós católicas ralhavam feio comigo e me diziam, muito bravas, para não fazer mais aquilo, porque, senão, “Deus iria me castigar”. Acontece que, geralmente, quem me castigava era minha mãe, o que me fez meio que perder, desde muito cedo, o respeito que eu supostamente deveria ter cultivado por Deus. Ou isso, ou eu teria que ter alguma vez suspeitado que minha mãe era o Todo-Poderoso de saia. Mas, como sempre soube que, apesar das surras, eu amava minha mãe; e como sempre soube, também, que jamais seria capaz de amar Deus, descumprindo assim, logo de cara, o primeiro mandamento, o garotinho que eu fui achava, pois, muito conveniente não ter desenvolvido nenhum respeito por aquele ser cujos castigos minhas avós usavam para me ameaçar.

Menciono isso porque, ainda outro dia, ouvi minha irmã dizer algo semelhante à minha sobrinha de nove anos:

Se você bater de novo na sua coleguinha de classe, Jesus vai ficar muito triste!

Eu não comentei nada porque já tive muitas discussões com meus irmãos por querer dar meus pitacos acerca do tipo de (má) educação que meus sobrinhos estão recebendo, quando lhes é ensinada a tal da “moral cristã”. Mas se não fosse por isso, eu poderia ter perguntado à minha irmã, na frente da minha sobrinha, algo do tipo:

Jesus vai ficar triste se ela bater “de novo”? Quer dizer que ele não se importou na primeira vez?

Isso, sem dúvida, seria o estopim para mais uma discussão acalorada, no meio das quais eu costumo notar meus sobrinhos rindo escondido das minhas inúmeras blasfêmias. Então, eu deixei passar, para evitar também que minha irmã acabasse me magoando ao me jogar na cara que eu deveria tratar de ter meus próprios filhos, em vez de ficar metendo o bedelho na educação dos filhos dos outros!

Mas se eu tivesse filhos, quando eles brigassem no colégio, eu certamente iria querer ensinar a eles que não se deve bater nos coleguinhas de classe, nem em ninguém. Mas eu também iria querer lhes ensinar o “porquê” disso, e de jeito nenhum essa explicação envolveria as emoções de uma criatura sobrenatural que se esconde num mundo encantado.

Bem medido e bem pesado, o que minha irmã está ensinando à minha sobrinha de nove anos é que, quando você bate em alguém, isso magoa Jesus Cristo.

Ou seja: foda-se a coleguinha!

 

 CONTINUAÇÃO:

Parte 2  –  Parte 3  –  Parte 4  –   Parte final 

 

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