“Palmas pra Jesus!”


Como todo mundo sabe, Deus é tudo de bom, muito mais poderoso do que o Super-Homem e tal. Mas não move uma palha para ajudar suas incontáveis igrejas aqui na Terra. Ele, que tudo controla, não se dá nem ao trabalho de desviar os raios das suas edificações, que são os seus templos sagrados. E haja para-raios pra espetar nessas igrejas todas!

Pois bem, como Deus é duro, o missionário R.R. Soares não faz cerimônia para pedir ajuda terrena mesmo. São os “patrocinadores”.


— Deus chamou você para ser um patrocinador?

Se sim, se Deus chamou, é só fazer um sinal, que, nessa hora do culto, a igreja fica coalhada de “obreiros” (pelo menos é a terminologia usada na IURD) com as mãos repletas de boletos do Bradesco. Enquanto os fiéis são… digamos… estimulados a pegar uma fichinha de depósito daquelas, o R.R. Soares sempre apresenta alguma coisa. Dia desses, ele convidou os que já faziam contribuições regularmente a darem algum “testemunho” (outro termo técnico muito usado) de como Deus estaria “operando” (mais um) nas suas vidas; tipo assim, para motivar futuros patrocinadores, já aproveitando que os boletos bancários estavam ali roçando as caras deles.

O que me chamou a atenção foi logo o primeiro depoimento de um casal de idosos. Só a mulher falou: Deus tinha operado um milagre na vida dela e na do marido. O missionário ficou muito alegre e pediu para que ela divulgasse o tal do milagre. A senhora disse que o marido apresentou um problema muito grave no coração. Foi socorrido às pressas a um hospital, onde passou por tratamentos intensivos, medicação constante, atenção médica, exames e coisas do gênero. No fim do relato, que me deixou certo de que eles dois deveriam ter um ótimo plano de saúde, a velhinha revelou o milagre:


— Depois de 12 dias no hospital, ele está aqui.

Ok. Eu não posso ser tão burro assim. O “ele”, obviamente, é o marido; o velhinho, a prova do milagre. Quando ela completa “ele está aqui”, está apenas se valendo de um eufemismo, ou seja, ela quis dizer: “ele ainda está vivo, apesar da idade e do problema que teve”. Isso mesmo. Vivo, depois de ter tido um problema grave no coração. Depois dos 12 dias de internação e cuidados médicos especializados. Pois é. Não parece que tá faltando alguma coisa? Eu, pelo menos, não consegui achar onde aquela senhora escondeu o milagre que fez o R.R. Soares pedir palmas para Jesus.

Eu, que queria tanto aplaudir.



As evidências de Deus (parte 3)

Isso não é um cachimbo.

Todo dia alguém perde um voo, pelos mais variados motivos. O avião decola com um a menos a bordo, e ninguém se importa com isso. Entretanto, quando acontece um desastre aéreo sem sobreviventes, aquele passageiro que ficou pra trás ganha status de celebridade por um ou dois dias. Nas ruas, as pessoas começam a falar numa interferência divina, num Deus misericordioso e bom que fez aquela pessoa chegar atrasada ao portão de embarque, salvando assim sua vida tão preciosa, e poupando sua família e amigos de sofrer a tragédia de sua morte. Como se os que morreram no acidente não gostassem de viver, e não fossem fazer falta a ninguém.

Mas, enfim, o que é um milagre? Transformar água em vinho? Ressuscitar um defunto? Curar um cego? Você classificaria isso como milagres? Aposto que sim.

No filme Poder Paranormal, a personagem de Sigourney Weaver tem uma fala que eu considero sublime:

Há dois tipos de pessoas por aí com um dom especial: os que realmente acham que têm algum tipo de poder; e os que acham que não podemos desmascará-los. Ambos estão errados.  

Tudo o que você considera milagre pode ser agrupado em três categorias: ou é uma ilusão, ou é uma farsa, ou simplesmente não é um milagre.

Nada do que está na Bíblia pode ser considerado um milagre, mesmo que ainda não tenhamos definido o que “ser um milagre” significa. A constatação óbvia de que relatos de milagres não são milagres escapa à compreensão do crente, que precisa acreditar, por definição. Mas a imagem de um cachimbo não é um cachimbo, e isso não precisa ser endossado por ninguém para continuar sendo verdade.

Nas bocas de culto de diferentes denominações evangélicas, você não vai ver ninguém transformando água em vinho, mas pode ouvir alegações sem fim de cura dos mais variados tipos de doenças, e presenciar cegos voltando a enxergar, e paralíticos voltando a andar. Esses últimos são arroz de festa, e são a parte que envolve a farsa. Os primeiros — os doentes “curados” — é uma mistura de farsantes pagos com pessoas iludidas. E é nessas pessoas que se revela uma face altamente danosa da fé, uma vez que muitos se apegam totalmente à esperança de cura em um Deus imaginário, e acabam não procurando os meios efetivos de se tratar de uma doença real.

Christopher Hitchens, em Deus não é grande, deu a seguinte definição de milagre:

Um milagre é uma perturbação ou interrupção do rumo esperado e estabelecido das coisas.

E acrescentou: “Se você parece estar testemunhando tal coisa, há duas possibilidades. A primeira é que as leis da natureza foram suspensas (em seu benefício). A segunda é que você está equivocado ou tendo uma ilusão. Assim, é preciso avaliar a probabilidade da segunda em comparação com a probabilidade da primeira”.

Quando as fraudes são reveladas, quando as ilusões se tornam insustentáveis, pessoas religiosas e perspicazes passam, então, a enxergar os milagres nas coisas mais simples, em que não se faz extremamente necessário que haja uma perturbação ou interrupção do rumo esperado e estabelecido das coisas.

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Brincando de “faz-de-conta”

A Igreja Universal no Chile em constante oração pelos 33 mineiros chilenos

O extrato a seguir, com meus comentários em azul, é da matéria que você poderá ler na íntegra no link acima, contribuição do leitor Dhiogo.

Em uma de suas mensagens, ele [o pastor Lúcio Monteiro, responsável pelo trabalho evangelístico no Chile] comentou que no passado, quando os apóstolos estavam presos, a igreja se unia em oração para o livramento deles. Foi nessa mesma fé que a IURD [Igreja Universal do Reino de Deus] se uniu para determinar o livramento daqueles trabalhadores. [A IURD “determinou” o livramento dos mineiros soterrados; aí, uma vez “determinado” o salvamento, eles todos esperaram pacientemente até que centenas de outras pessoas fizessem todo o trabalho.]


Debaixo de fortes chuvas, o pastor responsável pelo trabalho da IURD na região do Atacama foi à Mina San Jose, como enviado especial. Na oportunidade, foram feitas orações e também foi derramado azeite de Israel sobre a superfície da mina. [Por que o pastor derramou azeite de Israel sobre a mina? Não estou questionando o fato de ser “azeite de Israel” em vez de “azeite chileno”, por exemplo, mas por que alguém derramaria azeite sobre uma montanha.

Ora, acredite: para ajudar os mineiros soterrados.

Esse pastor é considerado uma pessoa mentalmente sã, e, por incrível que possa parecer, ninguém (ou quase ninguém) deveria estranhar o fato de ele estar derramando um tempero de salada em cima de rocha pura na intenção de salvar as pessoas enterradas vivas 700 metros abaixo.

Esse tipo de atribuição de poder a coisas inanimadas era comum nas religiões pagãs das quais o cristianismo copiou vários mitos, rituais, festas e tradições. Ainda hoje, igrejas tradicionais ou recém-criadas imputam poderes sobrenaturais a todo tipo de coisa, desde crucifixos, escapulários e hóstias, até os famigerados lencinhos, travesseirinhos, fitinhas, e copos d’água dos papa-cédulas das igrejas boca de culto que infestam nossos bairros.

O pastor conversou com os familiares e orou por eles, pedindo que Deus os fortalecesse. [Será que é mais fácil do que fortalecer paredes de túneis de minas para que não desabem e enterrem cristãos vivos?]

Após 17 dias e várias tentativas frustradas de busca de algum sinal de vida dos mineiros, aconteceu o milagre. Os 33 mineiros foram encontrados com vida e saudáveis. O mundo inteiro se maravilhou diante da notícia, porque as esperanças eram nulas. [É isso: se as esperanças eram nulas e os mineiros sobreviveram, foi por conta de um milagre. E todo mundo quer agradecer a Deus por tamanha misericórdia.

Mas, ao que parece, nem sempre Deus está muito a fim de salvar ninguém: quatro anos atrás, no México, um desabamento de mina também deixou 65 mineiros soterrados em condições muito parecidas.

Sendo o México um país católico, não é de se duvidar que tenham todos orado muito por uma salvação milagrosa dos seus mineiros. Não duvide também que algum pastor local tenha aparecido por lá para derramar azeite de Israel sobre uma montanha de rocha. Mas não há nenhuma foto dele na internet. Sabe por quê? Porque Deus não deu a menor bola para as orações de um país inteiro; porque os 65 mineiros mexicanos morreram lentamente de sede e de inanição, enquanto esperavam por um resgate que nunca veio.

Ninguém faz propaganda de um produto que não funciona.]


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