Canto para a minha morte

 

Canto para a minha morte

Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar 


Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque,
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim
Pois em qualquer lugar
Esperas só por mim
E no teu beijo
Provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo
Mas tenho que encontrar


Vem, mas demore a chegar
Eu te detesto e amo
Morte, morte, morte que talvez
Seja o segredo desta vida 


Qual será a forma da minha morte
Uma das tantas coisas que eu nao escolhi na vida
Existem tantas… Um acidente de carro
O coração que se recusa a bater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada
A vida mal vivida
A ferida mal curada
A dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido
Ou até, quem sabe,
O escorregão idiota num dia de sol
A cabeça no meio-fio

Ó morte, tu que és tão forte
Que matas o gato, o rato e o homem 

Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres
Me buscar
Que meu corpo seja cremado
E que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos
Na palavra rude que eu disse para alguém
Que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite…



Pensamentos reconfortantes sobre a morte que nada têm a ver com Deus (parte 1)

Minha tradução do artigo homônimo da autora Greta Christina, publicado no livro Everything You Know About God Is Wrong [Tudo o que você sabe sobre Deus está errado]. Como sempre faço nas traduções, preservei o estilo da autora e a estrutura do texto no que diz respeito à paragrafação. Segue a primeira das duas partes:


Então, aqui está o problema. Se você não acredita em Deus ou numa vida após a morte; ou se você acredita que a existência de Deus ou uma vida após a morte são questões fundamentalmente irrespondíveis; ou se você realmente crê em Deus e numa vida após a morte, mas você aceita que sua crença é apenas isso, uma crença, uma coisa na qual você acredita em vez de ser uma coisa que você sabe — se qualquer uma dessas proposições é verdadeira para você, então a morte deve ser uma coisa terrível para se pensar. Não apenas amedrontadora, não apenas dolorosa. Mas paralisante. O fato de que seu tempo de vida é um fragmento minimamente infinitesimal da vida do universo, e que há, no mínimo, uma grande possibilidade de que, quando você morrer, você desapareça completamente e para sempre, e que em 500 anos ninguém mais lembrará de você, e em cinco bilhões de anos a Terra será fervida dentro do Sol: isso pode ser uma profunda e descritiva verdade sobre a sua existência que você instintivamente repudia, da qual se esquiva e se recusa a aceitar ou mesmo pensar a respeito, consistentemente empurrando-a de volta para o fundo de sua mente a cada vez que ela tenta se esgueirar para a superfície, de medo que se ela vier a se fixar por um minuto que seja na sua cabeça possa engolir todo o resto. Isso pode fazer todos os seus atos, juntamente com os atos de todas as demais pessoas, perder totalmente o significado e se tornar trivial, beirando o absurdo. Isso pode fazer você se sentir apagado, pode acabar com a alegria, pode fazer com que sua vida pareça cinza em suas mãos. Aqueles de nós que são céticos muitas vezes desprezam pessoas que fervorosamente mantêm crenças das quais não têm nenhuma evidência simplesmente porque eles acham essas crenças reconfortantes — mas quando você está sob o domínio desse tipo de desespero existencial, pode ser duro pensar que você não tem nada além desse punhado de cinzas para oferecer a eles em troca.

Mas esse é o ponto. Eu acho possível ser um agnóstico, ou um ateu, ou ter crenças espirituais ou religiosas das quais você não está certo, e ainda se sentir bem com relação à morte. Eu penso que existem maneiras de ver a morte, maneiras de encarar a morte de outras pessoas e de contemplar a nossa própria morte que nos permitem sentir o valor da vida sem negar a finalidade da morte. Eu não posso me fazer crente em coisas que realmente não acredito — Paraíso, ou reencarnação, ou um plano divino para nossas vidas — simplesmente porque acreditar nessas coisas tornaria a morte mais fácil de ser aceita. E eu não acho que tenha que fazer isso, nem que ninguém tenha. Eu acho que existem formas de pensar sobre a morte que são reconfortantes, que dão paz e consolo, que permitem que nossas vidas tenham significado e que até nos desperte para eles — e que não tenha nada a ver com qualquer tipo de Deus, ou qualquer tipo de vida após a morte.

Aqui está a primeira coisa. A primeira coisa é o tempo, e o fato de que vivemos dentro dele. Nossa existência e experiência são dependentes da passagem do tempo, e das mudanças. Não, dependentes não — é uma palavra muito fraca. Tempo e mudança são parte integral de quem nós somos, a fundação da nossa consciência, sua trama e urdidura. Eu não tenho como imaginar o que significaria ser consciente sem passar através do tempo e estar ciente disso. Talvez haja uma forma de existência fora do tempo, algum plano do ser no qual as mudanças e a passagem do tempo sejam ilusão, mas, certamente, não é a nossa.

E inerente às mudanças é a perda. A passagem do tempo tem a perda e a morte entrançadas em si: cada novo momento mata o momento anterior, e sua própria morte está sugerida no momento que vem depois. Não há como existir no mundo de mudanças sem aceitar a perda, mesmo que seja apenas a perda de um momento no tempo: o jeito que o céu se apresenta exatamente agora, o movimento do ar, o número de pássaros na árvore do outro lado da sua janela, a temperatura, o jeito que está o seu corpo, a posição das pessoas na rua. É inerente à natureza de ter momentos: você jamais terá esse mesmo momento de novo.

E isso é uma coisa boa também. Porque todas as coisas que dão à vida alegria e significado — música, conversas, banquetes, danças, leituras, brincar com as crianças, pensar, fazer amor — são baseadas no passar do tempo, e nas mudanças, e na perda de uma infinidade de momentos que passam e que ficam para trás. Sem perda e morte, não teríamos chegado a existir. Não teríamos chegado a ter Shakespeare, ou sexo, ou qualquer outra coisa, sem permitir que tais coisas existissem e a nossa própria experiência delas existisse e, então, passasse. Não teríamos chegado a ouvir Louis Armstrong sem deixar que o Mi bemol desaparecesse e se tornasse um Sol. Não teríamos chegado a assistir Feitiço do Tempo sem deixar que cada quadro passasse diante dos nossos olhos por uma fração de segundo e, então, prosseguisse. Não teríamos como passear numa floresta sem passar por cada árvore e deixado que ficassem para trás; não teríamos sequer como ficar parados nessa floresta e contemplado uma mesma árvore por horas sem ver o vento fustigar as folhas, um pássaro quebrar gravetos para o seu ninho, as nuvens correndo acima da copa, cada manifestação da árvore morrendo e uma nova tomando o seu lugar.

E nós não teríamos que querer que as coisas não fossem assim, mesmo se pudéssemos. A alternativa seria um tempo congelado, um único quadro do filme, a vigésima quarta parte do segundo congelada, sem nada a precedê-la, nem nada que viesse depois. Não acho que qualquer um de nós quisesse isso. E se não queremos, se ao invés disso queremos o mundo das mudanças, o mundo da música, do sexo, das conversas e tudo o mais, então vale a pena aceitar, e mesmo amar, a perda e a morte que tornam isso possível.


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