Zaqueu também ia querer comer a Madona

“E tendo Jesus entrado em Jericó ia passando. E eis que havia ali um varão chamado Zaqueu; e este era um dos principais publicanos e era rico. E procurava ver quem era Jesus e não podia, por causa da multidão, porque era de pequena estatura. E, correndo adiante da turba subiu num sicômoro para o ver; porque havia de passar por ali. E, quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.”

 

 

Faz um milagre em mim

(Regis Danese)


Como Zaqueu

Eu quero subir

O mais alto que eu puder

Só  pra te ver

Olhar para Ti

E chamar sua atenção para mim.

[As pessoas fazem isso desde sempre, pelo visto. Basta aparecer alguém famoso por perto, rodeado de seguranças e seguidores. Zaqueu teria feito a mesma coisa pela Madona. A diferença é que, como já é bilionária e continua ganhando fortunas com seu trabalho, ela certamente não iria abusar de um fã bem de vida para conseguir comer e se hospedar de graça na casa dele — ela e sua comitiva — , como fez Jesus, cujo trabalho de vender lotes de terra num mundo encantado estava indo de mal a pior.]

Eu preciso de Ti, Senhor

Eu preciso de Ti, Oh! Pai

[Claro que precisa. De outro jeito, quem vai comprar esse CD com essa música enjoativamente melosa e choraminguenta?]

Sou pequeno demais

Me dá a Tua Paz

[Duas coisas. 1. Vê só a inversão de valores: o infeliz se acha pequeno (fazendo uma referência à baixa estatura do personagem bíblico), quando se compara a uma criatura mitológica, e deixa de lado o fato de que o ser humano é a mais fabulosa espécie de que esse planeta já tomou conhecimento. 2. Essa sensação de pequenez parece incomodá-lo tanto que ele anda agitado e pede paz ao ser mitológico que foi quem originou a sensação de desconforto.]

Largo tudo pra te seguir.

[KKKKKKkkkkkkk….. Tá bom… você larga tudo sim… (rsrsrsrsrs, eu me acabo de rir!) Eu vejo isso todo dia: os cristãos deixando o conforto do seu lar, suas posses e sua família, abdicando de sua única vida para seguir a ordem do seu Jesus e sair pelo mundo pregando o Evangelho a toda criatura. Lembra disso?: “ide e espalhai o Evangelho”, “acumulai tesouros no Céu”, “não vos preocupeis com o dia de amanhã”, “desprezai esse mundo”… Mas se nem o cristão acredita nas dicas do seu Deus, nem cumpre suas ordens, onde eu entro nessa? Ah, que piada!]

Entra na minha casa

Entra na minha vida

Mexe com minha estrutura

Sara todas as feridas

Me ensina a ter Santidade

[Ok. Alguém devia avisar pra esse cara que um dos pré-requisitos da santidade é justamente se resignar com o próprio sofrimento. Ele parece que não entendeu bem o espírito da coisa: quer primeiro ser curado das feridas para, depois, aprender como ser santo! O bom e velho mundo cristão: sempre inundado de contradições, de imbecilidades e de coisas que quase matam a gente de rir.]

Quero amar somente a Ti, [Ã-hã]

Porque o Senhor é o meu bem maior, [Ã-hã]

Faz um Milagre em mim. [Tipo: ganhar outro cérebro que funcione direito?]

 

Nada a ver com Deus (parte 1)

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Eu adquiri um hábito bem estranho para um ateu. Isso para dizer o mínimo. Sempre que estou triste, eu tomo banho ouvindo música gospel.

É que música gospel me faz rir, quando consigo me abstrair do seu ritmo monótono e gosmento para me concentrar apenas nas suas letras ridículas. Porque são absurdamente ridículas, com algumas raríssimas exceções.

Sabe as músicas de amor? Tem sempre alguém que “não vive sem o amor” de outra pessoa, não é? Alguém dizendo que “nunca vou amar ninguém como te amo”, ou “nunca ninguém vai te amar como eu te amei”. Além de ser um tremendo exagero dizer pra outra pessoa que “sem o seu amor eu vou morrer”, isso é uma grande e descarada mentira, dita da boca pra fora, e que até mesmo o outro sabe que é apenas uma “frase de efeito”, digamos assim, que passa muito, muito longe do que se poderia chamar de realidade, ou do que se poderia esperar dela (também com raríssimas exceções).

Pois é. Música gospel é a mesma coisa; só que “o amante” está direcionando suas frases de efeito para as outras pessoas, para seduzi-las e motivá-las com a sua fé, não para o alvo do seu suposto amor, porque, mesmo que estivesse, o alvo não estaria ouvindo. Mas é da boca pra fora também, como as frases de efeito desesperadas dos apaixonados nas músicas românticas.

E é trágico (e as consequências também são) como as pessoas não se dão conta de que voltar a atenção para uma determinada pessoa — ou ser — durante uma hora e meia de uma manhã de domingo, e não se lembrar mais dela pelo resto da semana, não tem nada a ver com amor. E se a lembrança vier sempre acompanhada de um pedido para se obter alguma coisa, alguma vantagem ou presentinho, pior ainda. Eu preferiria passar toda a minha vida saindo com garotas de programa a ter uma esposa que me amasse assim.

Mas é justamente esse tipo de “amor” que o crente dispensa à sua divindade. Um amor com hora marcada, fingido e interesseiro.

Não se pode amar o que não se conhece. Não pode ser amor um contrato de troca de interesses: você me ama e eu te encho de “bênçãos”.

O amor deve ser algo bem maior, mais onipresente e mais sublime do que isso. Digo que “deve ser”, porque eu mesmo não sei. E… (pra encerrar com uma frase de efeito) morro de inveja de quem sabe.

 

CONTINUAÇÃO:

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte final

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