Qual o sentido da vida? (fim)

saca-rolha-cromado-c-abridor-de-garrafa-vinho-western-11035_MLB-O-3193264277_092012

Sofia não aceitou muito bem meus argumentos, mas, quando nos despedimos, eu tive a impressão de que ela ainda iria passar muito tempo considerando tudo que conversamos. Enquanto voltava sozinho para a minha dimensão no nono andar, eu observava as pessoas nas calçadas, nos bancos de praça, nas esquinas de sinal vermelho. Será que alguma vez elas já se perguntaram sobre o sentido de suas vidas? Provavelmente não. Elas estão ocupadas demais em continuar girando, como uma pequena engrenagem que não faz a menor ideia de sua função dentro de uma máquina gigantesca.

Ignorantes de si mesmas, eu as vejo como mendigos, catando ao longo de suas vidas as migalhas de prazer que dão sentido a ela. E as vejo como prisioneiras, precisando se conformar com o que têm dentro de suas próprias celas, e aprender a extrair o máximo de prazer do que está em volta. Seus corpos de animais podem facilmente ter satisfeitas suas necessidades mais básicas. Mas suas mentes são animais imateriais com um apetite insaciável. E elas se alimentam apenas de prazer, que, para quase todos nós, é consumido ao ritmo de migalhas ao longo dos dias, dos meses e dos anos.

O que fazer, então, nos intervalos entre uma e outra migalha? É preciso entrar num estado em que intencionalmente iludimos nossa consciência, colocando-a num transe de embriaguez anestésica, de suspensão forçada, em que a vida é vivida em uma marcha-lenta hipnótica à espera da próxima oportunidade de recompensa. Quando essa recompensa demora, é preciso acalmar a fera sedenta que nossos corpos carregam, e nós a sedamos com drogas saudáveis e prejudiciais, palavras-cruzadas, conversas improdutivas, informações inúteis; nós a distraímos com lembranças extremamente prazerosas, ao som de músicas que nos transportam de volta a um momento maravilhoso, ou nos levam para um futuro que jamais viveremos; nós a consolamos com romances e filmes que trazem para as nossas vidas as emoções que não conseguimos obter por conta própria, ou que sequer tivemos coragem de tentar. 

Fazemos isso tão rotineiramente e há tanto tempo, que nunca nos demos conta. Mas observe o que acontece numa longa fila de banco ou de supermercado e facilmente você identificará o processo. As pessoas estarão conversando com estranhos, ouvindo música, mexendo no celular, lendo uma revista… Poderão estar, também, totalmente absortas em seus próprios pensamentos, divertindo-se com alguma lembrança boa, ou imaginando uma situação imensamente prazerosa, por mais absurda, improvável ou impossível que seja. Repare bem em seus rostos e compare suas expressões e atitudes com as daquelas que estão apenas concentradas na sua real situação: a de ter que permanecer por vários minutos numa longa fila. Só aí você irá perceber a agonia do animal humano preso na sua cela sem nenhuma migalha de prazer para saciar seu apetite voraz.

Acredito que a quase totalidade de nós não tem noção do que é, nem do que é feito, nem de “para que serve”… As pessoas não têm para si as mesmas respostas que dariam sentido a um saca-rolhas. Para elas, a vida é completamente sem propósito; uma imposição do acaso incompreensível da existência em que se descobriram, no susto de quem desavisadamente cai num rio caudaloso e é arrastado pela correnteza. O melhor que conseguem fazer é se debater vigorosa e continuadamente para manter o rosto acima da superfície da água. Elas levantam de manhã, levam seus filhos para a escola, vão para o trabalho, enfrentam o trânsito, voltam para casa à noite, dia após dia, e nem mesmo sabem por que fazem o que fazem. Na verdade, sequer encontram tempo para refletir sobre isso, ou, pior, mentem para si mesmas ao assumirem que o sentido de suas vidas está vinculado à tola esperança de viver uma outra, para sempre, num mundo encantado repleto de prazeres.

Quando admitimos que, em última análise e em última instância, é o prazer que dá sentido às nossas vidas; quando percebemos que tudo o que fazemos — ou que deixamos de fazer — é para tornar mais frequentes as oportunidades de sentirmos prazer e reduzir as situações que possam nos privar dele, então todo o resto passa a fazer sentido. Quando descobrimos os limites de nossas próprias celas; quando identificamos o que nos dá prazer ao longo dos nossos dias, e o que fazemos entre esses momentos; somente aí é que podemos dizer que realmente estamos vivendo a nossa vida, em vez de estarmos sendo arrastados por ela.

Talvez somente essa consciência do que dá sentido à vida nos permita fazer, hoje, tudo o que estiver ao nosso alcance para vivermos da melhor maneira que pudermos, e aproveitarmos ao máximo a única vida que teremos. E também para que, no futuro, quando essa mesma consciência enfim nos alertar de que nosso tempo já está inadiável e inevitavelmente no fim, nós possamos nos conformar com nosso próprio destino, e aproveitar para chorar de saudade de todos os dias que vivemos. Em vez de chorar de tristeza por tê-los vivido tão pouco.

 Para Elizabeth

 

Eu vivo

Qual o sentido da vida? (parte 12)

garota paquistanesa

Começava a chover fino, e Sofia acompanhava com interesse os pingos que escorriam pelo vidro que nos separava da rua.

— Você tinha prometido não se demorar nesse assunto depressivo.

— Eu me empolguei, eu acho. E você ainda nem me respondeu.

— O quê? — ela perguntou voltando-se novamente para mim.

— Qual o sentido da vida?

— Segundo você, é sentir prazer.

— E segundo você mesma?

— Eu não estou certa. E ainda não sei como você pode estar tão certo disso.

— Para perceber como eu estou certo, basta abrir os olhos para o mundo à nossa volta. Nós somos animais, Sofia; mas não somente isso. Nós evoluímos como os outros bichos, com o mesmo propósito de apenas perpetuar nossos próprios genes. Acontece que um subproduto da evolução nos dotou com uma centelha de inteligência que começou a evoluir descontroladamente. Aquela centelha acabou se tornando tão poderosa que se libertou dos caprichos do processo evolutivo que a criou. Ela se transformou em nós, e nós somos essa consciência que vive apenas de instantes e se alimenta de prazer. Nossa vida é tão somente o agora. O resto é lembrança e imaginação.

— Não sei por que, mas isso ainda me parece errado.

— Mas não está errado. Tudo e qualquer coisa que você faça, em última análise, visa a obtenção de prazer. Digo “em última análise” porque há coisas que a gente faz para evitar, superar, minorar, etc., situações de “desconforto”.

— Situações de desconforto?

— Coisas que certamente impediriam você de sentir prazer, ou que fariam você aproveitar menos os prazeres disponíveis. Você estuda química pelo mesmo motivo que vai ao dentista, por exemplo: evitar situações desconfortáveis, imediatas ou futuras. Seja um emprego mal remunerado, um sorriso feio, ou uma velhice aprisionada a dentes postiços. Você se preocupa com a sua própria saúde e com a saúde e bem-estar daqueles a quem você ama? Claro que sim. E por quê? Ora, porque você os ama. Mas também porque se sua mãe estivesse muito doente, você certamente não estaria aqui comigo aproveitando sua torta alemã e filosofando sobre a vida.  

— Não mesmo.

— Prazer. É o que dá sentido às nossas vidas. Situações de desconforto te impedem de sentir prazer, ou reduzem a sua capacidade de senti-lo. Por isso você faz coisas que, à primeira vista, não estão relacionadas a ele. Quando perceber uma, tente identificar de que “desconforto” essa coisa está te livrando, e você vai ver como eu estou certo.

— Acho que descobri o que me parecia errado nesse pensamento…

— E o que é?

— Um mendigo…

— Sim?

— Um mendigo desses que vivem na rua… Extremamente miserável… Que sentido a vida dele pode ter? Se ele come do lixo, não tem casa, dorme no chão… Onde tá o sentido da vida dele? De onde ele tira prazer? Se prazer é o sentido da vida, a vida de alguém assim não teria sentido. Então por que ele não se mata, igual ao prisioneiro da sua estória?

— Um mendigo não se mata porque ele ainda pode obter prazer com sua vida miserável. Quantas vezes, Sofia, você bebeu água quando estava com muita sede? Ou fez uma refeição quando estava morrendo de fome? Ou dormiu quando estava quase desmaiando de sono? Ou descansou quando estava exausta? Quase nunca, não é? Agora imagine o prazer que um banho, um descanso, uma refeição ou um simples copo d’água podem dar a uma pessoa para quem essas coisas são um luxo. São esses prazeres que dão sentido à vida dos miseráveis. É isso que, aliado ao instinto de sobrevivência do nosso lado animal, impede alguém nessas condições de tirar a própria vida.

— Nossa!, eu morro de pena de gente assim...

— Então você deve ter pena de toda a humanidade…

— E por quê?…

— Porque quase todos nós somos um mendigo miserável dentro de uma prisão.‘f

Qual o sentido da vida? (parte 11)

Norma Jean

— Por que uma pessoa rica se mataria… — ela repetiu a pergunta pra si mesma, enquanto contemplava a rua através da enorme vidraça ao lado da nossa mesa — …se ela teria dinheiro suficiente pra pagar por todo tipo de prazer disponível? Realmente — ela concluiu voltando o olhar para mim — , sua tese desmoronou.

— Você acha?

— Eu acho. Se é mesmo prazer que dá sentido à vida, e se pessoas ricas podem pagar por todo e qualquer tipo de prazer disponível, a gente não poderia nunca ouvir falar de alguém assim cometendo suicídio.

— É um raciocínio bem coerente, Sofia. Mas me diga: por que você escolheu torta alemã com Coca-Cola e eu apenas um cappuccino?

— Ora, mas o que isso tem a ver?

— Sofia…

— Tá, já entendi. Esse seu jogo tá mais lento do que aquele das sacolas… Mas tudo bem… Vejamos… Porque eu estava com vontade de comer torta alemã com Coca-Cola. Essa serve?

— Então você acordou com essa vontade hoje…?

— Claro que não!

— Desde quando você passou a ter vontade de comer torta com refrigerante?

— Ora, desde que você me convidou pra vir aqui. Aí eu escolhi isso, e você, o cappuccino.

— Você concordaria comigo se eu afirmasse que você fez esse pedido porque, dentre as opções disponíveis, considerou que essa torta e essa marca de refrigerante iriam lhe dar mais prazer do que qualquer outra combinação possível no momento?

— Hummm…

— Por exemplo: por que não torta alemã com Fanta uva, ou com cappuccino? Ou kibe com suco de laranja? Ou coxinha com água?

— Você tá querendo dizer…

— Que é você, e mais ninguém, que pode decidir o que é que lhe dá ou não dá prazer; ou o que lhe dá mais ou menos prazer.

— E…?

— Uma pessoa rica pode chegar nessa loja e ficar muito frustrada com as opções, não pode?

— Pode. Mas eu acho que ninguém iria se matar porque aqui não servem pretzel com guaraná.

— Também acho. Mas a questão aqui é outra: nem sempre o que você pode comprar está disponível; ou nem sempre está à venda.

— Elabore melhor isso, que eu me perdi um pouco, eu acho.

— Muito bem. Vou me citar como exemplo. Eu jogo xadrez desde o início da minha adolescência. Aprendi sozinho todos os tipos de notação de xadrez para poder ler livros e matérias em jornais e revistas especializadas, além dos registros das partidas dos Grandes Mestres. Eu sempre sonhei em ser, pelo menos, Mestre Nacional em xadrez. Mas adivinha: eu tenho uma memória péssima, baixíssima capacidade de concentração, força de vontade insuficiente, um raciocínio lógico-abstrato capenga e uma inteligência bastante duvidosa. Mesmo se eu tivesse tanto dinheiro quanto o Bil Gates, é bem provável que jamais me tornasse um Mestre em xadrez. E não dá pra comprar um título desses numa delicatessen.

— Então você iria se matar…

— Não. Mas você entendeu que, mesmo dinheiro não sendo problema, alguém poderia não conseguir satisfazer seus próprios desejos?

— Entendi. Mas aí, no seu caso, você poderia escolher outra coisa. Hipismo, alpinismo, yoga… Ia tentando e aproveitando a vida…

marilyn-monroe

— Sim. Seria o esperado. Mas, às vezes, Sofia, a coisa desejada poderia ser… digamos… tão vital quanto o ar que se respira.

— Não consigo imaginar nada assim tão…

— Marilyn Monroe. Sabe quem foi ela?

— Mais ou menos. Uma atriz, né?

— É. Um ícone. Um símbolo sexual. Desejada por todos os homens. Invejada (ou odiada) pelas mulheres. Rica. Linda. Famosa. Infeliz.

— Também queria ser enxadrista?

— Ela casou com homens que a queriam como um troféu. E era assim que ela se sentia. Frustrada, sem parentes próximos e sem amigos íntimos, ela se entregou de corpo e alma ao trabalho, e o estresse da vida que levava a arremessou no mundo dos calmantes, dos remédios pra dormir. Como eram drogas pesadas, ela acabou se viciando nelas, e precisando de outras drogas para se manter desperta e ativa durante o dia, numa montanha-russa mortal. Na última noite de sua vida, ela ligou para vários supostos “amigos” para conversar, mas ninguém estava disponível. Ninguém queria saber dos problemas dela. Ninguém a amava de verdade. Ela foi encontrada morta na manhã seguinte ainda segurando o telefone.

— Mas… mas… isso é de uma burrice!! Por que ela não… Por que ela não foi procurar desfrutar de outras coisas que a vida tinha pra lhe oferecer? Viajar o mundo, conhecer pessoas diferentes, aprender xadrez, sei lá!

— Você não poderia ter feito essas escolhas por ela, Sofia. Ter alguém pra conversar, naquela noite, não era como o meu título de Mestre de xadrez, nem como a sua torta alemã com Coca-Cola. Era muito mais do que isso: era vital.

— Como o ar que se respira… 

Marilyn Monroe

Qual o sentido da vida? (parte 10)

— Eu acho que há uma falha bem evidente nesse seu raciocínio.

Sofia meio que suspendeu um pouco o corpo sobre a mesa em minha direção, apoiando-se nos cotovelos, enquanto me apontava ameaçadoramente seu garfo sujo de chocolate.

— E o que seria…?

— Para muitas pessoas, dinheiro não é problema. Com certeza há um monte de garotas riquíssimas por aí que também odeiam química.

Eu finalmente comecei a comer a fatia de torta que ela tinha me oferecido.

— Nossa! Mas tá uma delícia mesmo!

— Você não percebe? Elas não precisam do dinheiro.

— Se são riquíssimas, não devem precisar. Mas me diga: você acha que os ricos têm o direito de deixar seus filhos sem instrução só porque eles não terão necessidade de emprego no futuro?

— Bom, eu… Talvez por causa… de alguma lei…

— É mais ou menos por aí. Mas se você fosse bilionária, e se não tivesse que se preocupar com lei nenhuma, você deixaria de mandar seus filhos pra escola?

— Eu acho que não…

— E por quê?

— Eu… acho que… porque eles iriam crescer e viver no meio de um monte de gente instruída, com profissão, doutorado e tal… Eles iriam se sentir, talvez, incompletos, inferiorizados, sei lá!

— Apesar de não precisarem se preocupar com dinheiro.

— Apesar disso.

— Concordo com você. E espero que você acredite em mim quando digo que ainda vai sentir muita saudade desse seu tempo de escola. Não das aulas detestáveis de química e coisas do tipo, mas de todo esse período da sua vida.

— Você falou igualzinho à minha mãe agora.

— E você um dia vai repetir essas palavras dela para os seus próprios filhos. 

— Provável. Mas, enfim… Seu argumento está blindado contra as minhas investidas…

— Na verdade, quando você começou falando de dinheiro, eu achei que iria utilizar uma artilharia mais pesada. 

— E qual seria?

— Em vez de ter abordado crianças ricas que odeiam química, você poderia ter introduzido um tema bem mais polêmico e que, aparentemente, desbancaria a minha tese.

— Como assim? Que tema polêmico?

— Levando-se em conta que ter muito dinheiro possibilitaria que alguém passasse a vida apenas desfrutando de todos os prazeres que ela tem a oferecer; e uma vez que eu afirmei que o sentido da vida é ter prazer, o que lhe vem de imediato à cabeça?

— Por que os ricos cometeriam suicídio? 

suicídio

Qual o sentido da vida? (parte 9)

torta alemã

— Isso significa o quê? Que a vida só faz sentido se a gente tiver posses?

— Significa que a vida só faz sentido se — e enquanto — conseguimos obter prazer dela.

— Ah! Uma professora já me explicou como se chama isso: hedonismo. E ela mostrou que é um pensamento bem equivocado.

— Foi mesmo?

— Mas é claro! Tem várias coisas na vida que a gente faz sem sentir prazer.

— Por exemplo?

— Por exemplo… Assim: eu detesto química, sabe? Detesto. E tenho que estudar mesmo sem gostar. Logo, essa estória de hedonismo não cola.

— Isso porque você está vendo as coisas de uma forma superficial. Quer ver só? Se você não sente prazer estudando química, por que simplesmente não para de estudar essa matéria?

— Você tá louco? Se eu não estudar química eu sou reprovada!

— Hummm… Então você estuda química pra passar de ano?

— E não é?

— Por que você quer passar de ano?

— Ah, que tava demorando isso…

— Eu quero completar meu raciocínio. Você só vai ajudar se responder.

— Eu já sei disso. Eu quero passar de ano pra poder terminar o Ensino Médio, fazer faculdade…

— Pra quê?

— Ora, pra ter uma profissão, pra ganhar meu dinheiro…

— Pra que você quer o dinheiro?

— Ai, ai… Pra que serve o dinheiro?

— Me diga você.

— Pra comprar coisas.

— Como uma torta alemã?

— Por exemplo, sim.

— E pra que você compraria uma torta alemã?

— Pra matar a fome, me alimentar, não é óbvio?

— Será? São duas e meia da tarde. Muito provavelmente você almoçou há menos de três horas. Fome não é o caso aqui. Como não é o caso quando você come torta alemã imediatamente após ter almoçado, como sobremesa. Sem um pingo de fome. A pergunta é: por que você comeria uma fatia de torta alemã logo depois de ter almoçado fartamente?

— Me diga você.

— Pra sentir prazer, Sofia. O mesmo prazer que você pretende obter comprando coisas com seu próprio dinheiro, depois que tiver uma profissão, que é o que te faz querer passar de ano e, pra isso, estudar uma matéria que você detesta. Como química, por exemplo.

Qual o sentido da vida? (parte 8)

janelas

— Credo! Que coisa mais deprimente!

Eu a levei a uma delicatessen ali perto e, enquanto esperava meu cappuccino — ela já havia sido servida de uma fatia de torta alemã e refrigerante — , apresentei-lhe o teste do prisioneiro egípcio, que ela detestou, para dizer pouco:

— Isso é um troço completamente… Jesus! Não sei nem o que diga! Como você pôde imaginar uma coisa dessas?!

— Eu achei que seria uma maneira bem interessante de fazer as pessoas pensarem sobre o sentido de suas vidas.

— Interessante?! Você achou isso “interessante”? Pra um filósofo, você devia escolher melhor as palavras.

— Nunca disse que era filósofo. Mas, enfim… O que eu queria mostrar às pessoas é que elas jamais aceitariam “viver”, entre aspas, naquelas condições. Logo, eu só poderia concluir que seja o que for que dê sentido às suas vidas não estaria dentro daquela cela; não estaria sequer nelas mesmas. 

Quando meu cappuccino chegou, ela prestimosamente me ofereceu um pedaço de sua enorme fatia de torta. Eu aceitei, mas pedi que ela o deixasse separado no seu prato, pois talvez ele me pudesse ser útil de outra forma dali a pouco.

— Continue. E vê se acaba de uma vez com esse assunto deprimente.

— Prometo que vou ser rápido. Vê só. Se você fosse um tipo de fada-madrinha, o que você faria para tornar a pena daquele preso egípcio mais suportável?

Ela havia acabado de enfiar um pedaço enorme de torta na boca e me fuzilou com os olhos.

— Tudo bem. Eu, por exemplo. Se eu fosse um fado-madrinho, eu poderia fazer uma série de mudanças que tornariam aqueles cinquenta por cento de chance de se libertar uma probabilidade bem menos atrativa. Eu faria a cela ficar do tamanho da minha casa, e seria confortavelmente mobiliada: cama, escrivaninha, sofás, mesa, quadros, poltronas, tapetes, etc., mais ainda uma banheira de hidromassagem com água quente, chuveiro, bidê e um vaso sanitário. Colocaria várias janelas que dessem para vistas de montanhas bem longe no horizonte, vales, bosques e rios; e através das quais ele pudesse tomar sol. As refeições, cinco por dia, seriam algo como num serviço de quarto de hotel cinco estrelas. Ele teria ainda um frigobar frequentemente abastecido com bebidas, petiscos e guloseimas; um computador com acesso ilimitado à internet; uma enorme tevê tela plana de última geração; DVDs, CDs, celular, um aparelho de ginástica, uma esteira de corrida, e todo tipo de publicação impressa que escolhesse ler, diariamente. Eu ainda iria permitir que, uma vez por mês, ele pudesse assistir, na cela, aos melhores filmes em cartaz nos cinemas; que recebesse visita de seus familiares uma vez por semana, e visita íntima a cada dois meses. E então? Me saí bem?

— Bastante, eu acho. Mas ainda assim ele continuaria preso para o resto da vida?

— Sim, mas a pergunta essencial é: depois de toda essa mágica que eu fiz, e em relação às condições anteriores, você acha que ele se sentiria “mais” ou “menos” tentado a puxar aquela tira de couro que ainda penderia do teto?

— Menos, sem dúvida.

— Exato. Ele não iria mais se sentir tão inclinado a obter a liberdade, quando isso significaria arriscar sua vida, com as chances ainda sendo de meio a meio. Ora, mas o que foi que mudou na “vida” dele que o fez alterar tão drasticamente sua disposição para arriscar perdê-la?

— …

— Não quer nem arriscar uma resposta, Sofia? 

— Ela passou a… fazer mais sentido.

— Bingo.

 

Qual o sentido da vida? (parte 7)

2001-uma-odisseia-no-espac3a7o1

Das janelas do nono andar, eu os tenho observado por milênios, desde quando nasceram para si mesmos e passaram a contemplar o mundo em busca de respostas, de explicações, de sentido. Eu presenciei sua agonia ao servir de alimento às feras; estive ao seu lado enquanto morriam de ignorância e de ingenuidade; e os acompanhei de perto em toda a sua penosa odisseia. Sozinhos e indefesos, eles eram como crianças deixadas à própria sorte num mundo não só inconcebivelmente vasto, mas também intimidante e completamente hostil. Mesmo assim, contra todos os prognósticos, expectativas e possibilidades, eles sobreviveram.

Então eles cresceram, e por sua própria conta e risco, aprendendo com a dor e com o sofrimento de suas tentativas e erros, de suas perdas e danos, eu os vi dominar os elementos e herdar a Terra. Ouvi por séculos as suas dúvidas, as suas queixas, os seus sonhos; compartilhei de seus temores e de suas esperanças; alegrei-me com eles a cada mínima conquista; e me entristeci por todas as suas derrotas e vitórias. Vi seus bebês morrerem por exaustão de tanto chorar de fome e de sede, de dor e de frio, de medo e de abandono. Velei seus corpos despedaçados nos campos de batalha, e abençoei aqueles que foram oferecidos em sacrifício a deuses inúteis.

Agora mesmo eu lhes surpreendo vivendo num mundo que, embora sabidamente finito e menos intimidante, continua sendo, como sempre foi, hostil e indiferente ao que quer que eles próprios acham que são. Ainda sozinhos e indefesos, eu os vejo nas ruas abaixo, vivendo suas vidas sem propósito, ignorantes acerca do que realmente se tornaram. Hoje eles mandam seus filhos para a escola, vão para o trabalho, param nos sinais vermelhos, fazem reuniões, voltam para casa à noite, assistem televisão e vão dormir na certeza questionável de poder começar tudo de novo na manhã seguinte. Sem mesmo saber por quê.

Outro dia, numa tarde nublada de solidão, eu me cansei de apenas olhar e desci até eles. Olhei-os nos olhos, apertei suas mãos, mas sequer me reconheceram. Estavam ocupados demais com seus celulares, com seus compromissos, com suas ilusões, com suas vidas sem sentido. Foi quando eu quase desisti. Fechei os olhos por um instante, e já pensava em voltar para minha própria dimensão, quando uma brisa rápida e fria me trouxe de volta o mesmo aroma de morangos que eu havia me acostumado a sentir nos cabelos dela.

Eu me voltei para o vento e, de onde ele vinha, vinha também ela na minha direção, como se tivesse acabado de sair de um conto de fadas. Ela sorria para mim e me olhava incrédula, não por eu estar ali, completamente destoante de tudo e de todos ao meu redor, mas por não ter ela mesma conseguido resistir à tentação de vir ao meu encontro. Enquanto sentia extasiado fluir violentamente pelo meu corpo a recompensa que encerra o verdadeiro e insondável significado da minha existência, eu me atrevi a pronunciar seu nome ainda um pouco mais alto do que os trovões acima, que, sem demora, começaram a ribombar de inveja:

Sofia.

 

do espaço

%d blogueiros gostam disto: