No primeiro dia, o Homem criou Deus… [Republicação]

A religiosidade nos acompanha desde o nosso nascimento como espécie. Quando os primeiros da nossa estirpe vagavam em bandos nas planícies do que hoje conhecemos como África, quando ainda não dominavam o fogo nem tinham qualquer ferramenta, o dia lhes trazia calor, lhes trazia luz; permitia que identificassem, de longe, as feras e fugissem a tempo. Já a noite lhes trazia o frio e a escuridão; lhes deixava vulneráveis; gélidos de medo das sombras, de onde poderia surgir, a qualquer instante, a morte.

Nada mais óbvio do que imaginar como aqueles seres passaram a venerar o dia e a temer a noite. Daí a raiz da religiosidade: o culto à Luz e o medo da Escuridão. A noção primitiva do Bem e do Mal.

Para que a religião efetivamente nascesse, faltava ainda juntar a esse culto uma característica exclusivamente nossa, os animais ditos “superiores”: a personificação.

A seleção natural favoreceu aqueles que tinham o cérebro mais propenso a ver algo, ou alguém, naquilo que não estava totalmente definido. Os hominídeos que confundiam uma sombra qualquer tomando-a por um predador, saiam correndo para salvarem suas vidas. Se estivessem errados, isso só lhes teria custado energia e tempo. Mas eles mantinham-se vivos e passavam adiante essa característica para as gerações futuras. Já aqueles que confundiam um predador qualquer tomando-o por uma sombra, eram devorados e foram extintos.

Milhões de anos (e um cérebro três vez maior) depois, o homem aperfeiçoou essa habilidade. Nascia assim a figura da “divindade”: a personificação de algo que explicava o que não se podia entender.

Estamos a mais de quatro milhões de anos de distância daqueles primeiros hominídeos, mas ainda trazemos conosco o medo do escuro e a necessidade de nos sentirmos protegidos, quando não especiais. Ao homem moderno foi dada a opção de entender a origem do mundo e dele próprio como sendo resultado de um processo evolutivo. Mas essa ideia é altamente prejudicial aos nossos interesses: o ”processo” não ouve nossas preces, não nos protege de perigos; o “processo” não tem um plano para nossas vidas, não nos conforta em situações difíceis, não nos acena com uma outra vida muito melhor do que a que temos. O “processo” nos deixa entregues à nossa própria competência e aos nossos próprios recursos; o “processo” não se importa conosco.

Por isso é tão tentadora a ideia de um ser supremo, todo poderoso, que é convenientemente chamado de pai… porque essa necessidade de proteção vem justamente do que há de mais infantil em nós. O que passa sempre despercebido pela mente religiosa, é que o fato dessa ideia ser confortadora não a torna real. Deus é apenas uma ilusão. Uma poderosa ilusão.

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Deus está nu (parte 1)

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Todo mundo já ouviu falar do conto A Roupa Nova do Rei, em que um rei vaidoso é enganado por vigaristas que, passando-se por tecelãos, exigem uma quantia monstruosa e fios de ouro e de seda para lhe confeccionarem uma roupa única e maravilhosa, invisível aos olhos de gente ignorante. O rei paga pela roupa nova e sai pelo reino completamente pelado apenas para ouvir de todos os súditos — que obviamente não queriam passar por estúpidos — os comentários de como ele estava bem vestido, até a hora em que uma criança dispara a verdade na cara de quem quisesse ouvir: “O rei está nu”.

Pois eu acho que a religião e a fé em Deus é basicamente isso: uma farsa compartilhada em que as pessoas fingem que estão vendo o que não estão. E nós, ateus, somos aquela criança.

Daí o motivo do crente detestar ateu, conversa de ateu, livro ateu, e qualquer coisa que mostre o seu Deus sem o manto invisível que o crente quer enxergar. Crente adora estar entre crentes porque eles dizem amém pra tudo. Eles não pensam e nem querem pensar sobre o que lhes é dito. Eles só querem dizer “Aleluia”. O ateu é uma criança impertinente que enche o saco dos fiéis súditos de Deus com perguntas para as quais eles não têm resposta.

Meu pai, volta e meia, vem discutir comigo sobre fé em Deus. E ele só sai vitorioso quando usa o único argumento para o qual não existe contra-argumento: “Eu acredito e pronto!” Parabéns. Quanto a todos os outros ele só estrebucha e vem sempre com esse papo de que Deus é amor, que Jesus te ama, quer te salvar e tudo o mais… Tudo isso baseado numa doutrinação que o obriga a “adorar” um Deus que não está na Bíblia.

O Deus da Bíblia é intragável ao cristão e ele criou uma versão 2.0 para sair por aí, drogado e feliz, achando que pode atravessar uma avenida sem olhar pros lados, porque acabou de sair de uma boca de culto, porque está com uma Bíblia atochada ao sovaco, e porque Deus irá protegê-lo de um carro já fora de linha, ano 98, pilotado por um ateu, que vem a 80 km/h numa via de 60.

O crente quer sustentar seus argumentos com a única coisa que tem para usar contra um universo inteiro de evidências em contrário: a sua Bíblia. Mas ele próprio não considera o seu livro sagrado, a palavra do Deus vivo, uma fonte muito confiável, porque ela foi “adulterada”, ou “desvirtuada” ou “mal traduzida”, ou o que quer que seja, querendo-se dizer com isso que aquela parte que um ateu está mencionando, que, por exemplo, vem a mandar descarga abaixo a ideia de um Deus fofinho e amoroso, bom… essa parte não vale.

Um ateu não diz amém e esse é o grande problema — e pé no saco — do crente. Ele também, o ateu, ao contrário do que muitos pensam, não quer “converter” ninguém ao ateísmo; mas ele tem todo direito de não ouvir calado todo tipo de baboseira que aparece.

—  Vem cá, que porra de Deus bonzinho é esse que tu tá falando que eu não encontro na Bíblia que eu tenho em casa?

—  Por que que tu não lê toda a tua Bíblia, contentando-se apenas com versículos isolados, prega a tua fé usando versículos isolados, e quando eu te faço ler uns tantos versículos que mostram como o teu Deus é um tremendo de um filho da puta tu vem me dizer que eu estou me valendo apenas de versículos isolados?

—  Ei, se o teu Fiat Uno (modelo antigo) foi um presente de Deus, de acordo com o adesivo no teu vidro traseiro, o Corola 2009 do meu amigo ateu foi presente de quem?

—  Por que tem tantos “homens de Deus” entrando na política e se filiando a “partidos cristãos” com a promessa de melhorar a vida de todo mundo, caso eleitos? E aquele papo de fé e mostarda e montanha? Por acaso as orações não estão mais surtindo efeito?

—  Vê só: se eu falar um monte de merda sobre o teu Deus de merda, e se for atropelado e morto hoje à noite por um caminhão da Coca-Cola, tu vai dizer que foi castigo de Deus. Se, ao contrário, tu for atropelado, o que tu vai pensar?

Domingo passado mesmo, mudando os canais da TV aberta, que está “infestada” (a palavra é essa mesmo — infestada) de programas religiosos, parei por um instante num canal que transmitia ao vivo a missa na basílica de Aparecida do Norte. O padre desfiava a liturgia: “Não olheis para os nossos pecados; mas para a nossa fé, que anima a vossa Igreja”.

Eu, ateu que sou, não tenho como desligar a minha tecla SAP:


Senhor Deus, criador de todo o universo, por favor, fazei vista grossa para o fato de estarmos cagando e andando para as vossas leis ridículas e para as vossas vontades mesquinhas, e considerai apenas o fato mais importante… o de ainda estarmos aqui, firmes e fortes, babando o vosso ovo sagrado.”

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Parte 2Parte 3Parte final


Uma Ateia “Ensinando” Religião!

Por Beth Amorim



Sempre gostei de estudar sobre as religiões, mesmo não seguindo nenhuma atualmente. Como historiadora, não deu para fugir muito desse tema durante a graduação… Então…

Minha história com as religiões começa quando fui batizada – com 1 ano de idade – na Igreja Católica. Segui essa religião durante um bom tempo. No entanto, sempre gostei e tive curiosidade de saber como eram as outras religiões. E assim sendo,  aconteceram momentos em que frequentei, só por curiosidade, igrejas evangélicas, centros espíritas e também tive algum contato com o budismo. Não “me achei” em nenhuma delas, então resolvi “não pertencer” a nenhuma religião. Porém, mesmo sem religião, ainda continuava acreditando em Deus. Todavia, esse acreditar já não era tão seguro. As dúvidas já tinham se instalado em mim.

Lembro que na última vez que fui “me confessar ao pé do padre”, contei-lhe sobre minhas descrenças e dúvidas em relação à existência de Deus. Ele me olhou bem sério e pediu que eu tirasse essas ideias da cabeça. Como penitência mandou que eu rezasse 20 ave-marias e 15 pai-nossos!!! Bom, ainda tentei fazer o que ele disse, ou seja, rezei… Mas, acho que não funcionou…. (rs). Acabei me distanciando do catolicismo e de qualquer coisa que tivesse caráter religioso depois disso.

No começo da minha “vida sem religião” foi difícil me esquivar de algumas tradições, já que pertenço a uma tradicional família católica. Ir a missas, batizados, casamentos em igrejas já me causava mal-estar. Ainda tentei ficar cultivando essa crença no “ser superior” por um tempo. Até “dei umas conversadas com Ele”, mas aos poucos fui vendo que eu falava sozinha, então seria melhor falar comigo mesma!!! Parei de rezar e de acreditar em Deus. Enfim assumi o meu ateísmo. Um choque total na família.

Desde então, me declarei o que hoje sou, e algumas pessoas nem acreditam quando eu falo. Meus alunos então, ficam todos de boca aberta!!! Porém, a cada dia fico mais convicta de que foi uma das melhores coisas que eu já fiz na vida. Aos poucos fui me “desconvertendo”  de qualquer crença sobrenatural ou divina… E acreditar em algo (leia-se: Deus) não me faz falta nenhuma hoje. Nem creio que fará. Me habituei mesmo! Hoje sou livre de todos esses absurdos que estão ligados à religião.

E agora, passados 2 anos do meu “desligamento total” das religiões, fui surpreendida ao ser “convidada” para dar aulas de religião, na escola estadual que eu leciono (Obs.: a diretora da escola é  evangélica!). Aceitei e fiquei pensando: “Quanta ironia! Uma ateia ‘ensinado’ religião!!!” E sabe que eu achei a ideia boa!!! No início, fiquei meio assustada com a proposta, mas como não me deram nenhum programa pré-estabelecido, fiz meu próprio programa de ensino! E lá estou eu! Falando sobre as religiões!

Na verdade, eu sempre quis fazer isso: ensinar religião sem proselitismo nenhum! Apenas falar sobre elas, suas histórias, seus preceitos, seus ritos, sem “puxar a sardinha” pra nenhum lado! Acredito que como todo desafio, terei certas dificuldades (Obs.: a educação em si já é um grande desafio e também é um poço de dificuldades…). Porém, não desanimarei! E, pra falar a verdade, estou adorando lecionar essa disciplina… Vai me ajudar a entender um pouco mais sobre esse universo religioso, do qual eu não faço mais parte…

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Beth Amorim

* Beth Amorim é autora do blog Tempestade de Ideias

Além do bem e do mal.

Por IORI BRUNO

Dizer que uma pessoa é boa ou má apenas pelo resumo de suas convicções, sejam elas religiosas ou não, me faz rir pra não chorar. Uma pessoa não pode ser rotulada como tal porque temos pessoas com opiniões diferentes fazendo as mesmas coisas, boas ou ruins. Uma comprovação disso é a proporção de crentes e não-crentes em uma cadeia. Quando não é a mesma, a quantidade dos primeiros supera a segunda, mas isso não quer dizer -embora eu fique tentado a isso- que pessoas crentes cometem mais atrocidades que não-crentes. É apenas um reflexo da população do país, cidade ou vila em que foi feita a pesquisa. Tente fazer o mesmo no Japão, por exemplo, e poderá ver até uma virada no resultado. Além de não termos cogitado fatores como capacidade intelectual, origem e relação familiar.

Esse rótulo é uma das numerosas desculpas que são apresentadas para sustentar os motivos de seguir uma doutrina irracional: a de que ela torna as pessoas que a seguem, melhores. É o desespero de alguém que prega uma crença já manca e desacreditada com o apelo de que, mesmo não sendo verdade, o valor ético que ela sugere tem alguma utilidade, além da famosa “fé na fé”, que diz que o simples fato de ter fé no sobrenatural funciona como um freio para pessoas que, sem ela, fariam qualquer coisa. Mas o fato de funcionar não quer dizer que exista. É o famoso efeito placebo.

Um típico comportamento de alguém que encontra dificuldades em justificar a necessidade de algo em que simplesmente gosta de acreditar. Apenas gosta, mesmo que não seja verdade.

Voltando ao início e colocando em termos práticos, dizer que Stálin foi genocida porque era ateu (além de um patético nacionalismo religioso estadunidense) é resumi-lo ao conjunto de suas crenças.

E isso não me parece certo. Não é porque ele (provavelmente) não acreditava em um deus que usava de métodos cruéis e opressores. É o mesmo que dizer que o grande inquisidor Tomás de Torquemada torturou e matou milhares de pessoas na idade média porque acreditava em um deus. Não. Ele era um sádico, um psicopata e um fanático. E um cristão. Mas nunca “sádico-por-ser-cristão”. Seria, no mínimo, injusto colocá-lo ao lado de católicos corretos, não seria?

Por outro lado, não posso deixar de lembrar (sim, isso é uma “alfinetada”) que governos totalitários, genocidas e opressores como os dos supostos ateus Josef Stálin (União Soviética), Mao tsé tung (China) e Kim Jong-il (Coréia do Norte) são infinitamente mais parecidos com teocracias e instituições religiosas do que com associações ateístas ou científicas. As semelhanças são evidentes: A obediência e/ou adoração, muitas vezes involuntária ou até manipulada, ao seu líder (totalitarismo), medidas extremas para firmar sua influência (genocídio) e condenação de qualquer idéia contrária (opressão). Plagiando a mim mesmo (ver o texto “Por que você é ateu?”), digo: Não, infelizmente não é uma coincidência.

Longe de ser um exemplo, as religiões mais influentes do planeta divulgam sua moralidade baseadas no medo e na recompensa. Isso, também não me parece certo. Mas é apenas a minha opinião.

Uma questão que não abordei neste texto até agora foi a de que julgar uma pessoa como boa ou má é uma atitude arbitrária e um tanto quanto hipócrita, já que uma ação considerada má por uma maioria não a torna absolutamente má. Por sua vez, uma ação não pode ser considerada absolutamente boa, ainda mais quando a fonte deste julgamento é um livro sagrado ou uma imposição patriótica opressora, justamente porque suas origens e motivações são duvidosas. Tampouco um julgamento individual pode ser levado a sério pois ninguém pode ser nomeado(ou auto nomeado) como o dono da verdade.

Uma observação interessante foi deixada pelo brilhante Nietzsche : “Tudo evoluiu; não há realidades eternas: tal como não há verdades absolutas”. Gostaria de acrescentar mais uma coisa não absoluta: A moral. O fato de a definição de moralidade mudar, dependendo da época e da situação, confirma isso. Mas em alguns lugares pode ser encontrada uma definição moral absoluta. Estes lugares são a bíblia (corão, torá e etc.) e livros de história. Nos livros sagrados está em toda parte e nos de história está, especificamente- mas não somente- nos maiores conflitos armados que já ocorreram. Conflitos esses em que seus governantes, mesmo protegendo uma posição verificada errada hoje (uma verificação arbitrária, é lógico), fizeram pessoas inocentes lutarem e morrerem por dizerem ou realmente acharem estar do lado da moral. A moralidade não escolhe um lado. Mas os lados sempre a escolhem. E esse é o problema.


Onde todos os absurdos se encontram.

Autor : IORI BRUNO

Estou cansado. Exausto. Esgotado.

Em reflexões enérgicas e desesperadas tento entender como a mente religiosa funciona e o que vejo são cães correndo atrás de seus próprios rabos, se fazendo de carentes para chamar a atenção de seu dono e talvez ganhar um carinho. Ou um chute quando mijam no tapete. Patético, realmente patético.

Tento. De verdade. Mas como posso aceitar que uma pessoa me diga que deus não é racional?

De tão fácil e covarde, essa frase soa até engraçada. “Ah, você quer dizer que deus é burro? Hum…” Uma fuga tão acomodada e irresponsável assim, só o livre-arbítrio.

O que mais me irrita nessas respostas é o talento desperdiçado. Pense bem, se uma pessoa que me dá uma explicação como essa (de que deus não é racional e, por isso, não pode ser explicado) usasse esse dom de esquiva para tentar realmente responder a questão não seria maravilhoso? Bem, hoje em dia eu não tenho mais tanta esperança sobre a escolha dessa pessoa. Falando em escolha…

Uma das coisas mais intrigantes sobre o conceito de livre arbítrio é que ele já existia em religiões muito anteriores ao cristianismo (Mazdeísmo). O livre arbítrio é tão ridículo, que sendo verdade ou não continua incoerente. Veja, se existe, é incoerente porque não poderia existir castigo nem recompensa à pessoa já que isso a influenciaria a tomar sua decisão e isso é assédio moral. Se não existe, então deus faz um “reality show” cruel e macabro com suas amadas criaturas e isso vai de encontro a um ser bondoso. Esta última hipótese é ainda mais hipócrita, porque é absolutamente ridículo acreditar que o que acontece no planeta não é culpa sua! E ainda por cima viola uma das leis mais básicas da natureza: O equilíbrio de forças. Ou seja, não faz sentido errar de forma finita, limitada e ganhar um castigo ilimitado e infinito.

E outra coisa: seguindo a idéia de que deus é onipresente, onipotente, onisciente e atemporal, a coisa fica ainda mais absurda. Pense bem, se ele conhece o passado, presente e futuro, ele sabe antes de você nascer se você vai acreditar nele, se vai ser cristão, criminoso, hindu ou ateu. Ou seja, ele sabe antecipadamente o destino de todas as pessoas que passaram ou que ainda passarão pela terra. E sabe quais irão para o inferno e para o paraíso. Agora me responda: Onde você está vendo livre arbítrio? Seria diferente se ele chegasse para todas as pessoas antes de nascermos e perguntasse: “Você vai viver uma vida de sofrimento e alegrias mas quando morrer vai direto para o inferno sofrer eternamente por ter trabalhado aos domingos! Você ainda quer viver sabendo disso ou pulamos esta parte e te mandamos para o inferno agora?” Isso seria livre arbítrio. Mas, você tem que concordar comigo que seria bem ridícula esta situação. E se você raciocinar, nesse caso, todas as pessoas que estão vivendo vão pro inferno. Pois são as únicas que veriam em viver uma chance (inútil) de mudar seu destino. Afinal, se ele disser que você vai pro paraíso, por que esperar? Ou melhor, por que arriscar?

Como sempre, tudo fica simples se admitirmos que deus não existe e que isso é um devaneio humano.

O livre arbítrio é uma ótima fonte para dissertações e não posso deixar de agradecer a Agostinho (“o santo”), afinal foi ele quem recortou esse plágio e o anexou ao cristianismo para justificar um dos mais sérios conflitos da religião do salvador que não salvou a si mesmo. Louvada seja a hora em que ele encontrou o texto mazda de onde tirou isso. Palmas pra ele.

Mas me deparo sempre com coisas bem mais estúpidas que isso e fico sem ação às vezes. E por incrível que pareça, as coisas mais básicas são as mais absurdas. Pensando bem não é tão incrível que sejam as mais básicas porque, afinal, deus não existe!

Quer uma coisa tratada com simplicidade pelos cristãos, mas que não entra na minha cabeça?

A vida eterna. Como pode, “meu deus”, uma pessoa de 20, 40 ou 60 anos achar normal viver pra sempre? Não vou nem cogitar como deve ser entediante ou se existe mesmo. O fato é que ninguém pode nem sequer imaginar (quem dirá desejar!) como é a eternidade ou o infinito pelo simples fato de que somos mortais e finitos. É o mesmo que estar dentro de um carro e, ao mesmo, lá fora o empurrando. Não se pode ver algo de fora quando se está contido. Me impressiona também quando me dão até detalhes sobre o céu ou o inferno. Sabem até a quantidade de vagas disponíveis! Que senhora imaginação! Não entendo como alguém pode ir para um lugar que nunca viu, que não tem volta, financiado por um ser desconhecido com sérias inclinações à psicopatia, vivendo de uma forma totalmente estranha e ainda ficar feliz por isso. Isso é mais parecido com aquelas agências aliciadoras de menores que levam meninas para se tornarem prostitutas no exterior. Isso vem bem a calhar, pois isso é o que essas pessoas são: Concubinas de deus (leia cafetão).

Agora, chocado mesmo eu fico quando me falam sobre as intenções deste ser supremo…

Dizem que conhecem deus. Um exemplo pode ser colocado aqui para elucidar as formas por quais as informações sobre um ser inexistente são passadas e recebidas com tal irracionalidade que chega a ser engraçado.

Um dia, alguém fala sobre o leite para um cego de nascença. E então ele pergunta:

    — Como é o leite?
    — É um líquido branco — responderam-lhe.
    — O que é branco?
    — O branco é a cor do cisne.
    — Ah!… E o que é cisne?
    — É uma ave de pescoço elegante e curvo.
    — Curvo?!… O que é curvo?
    O interlocutor colocou a mão em posição curva relativamente ao braço e deixou que o cego a apalpasse para perceber a noção de curva.
    — Ah!… — disse o cego percebendo a forma pelo tato. — Agora já sei como é o leite!…

    Tudo depende da capacidade de transmissão de um e de entendimento do outro. Quando ambos são falhos nisso, eis o que acontece.

E ainda falam com uma convicção assustadora, pois sabem de tudo. Que tipo de roupa se deve usar. Que tipo de carne ele não gosta. Que dia da semana ele não quer que você trabalhe. Que planos ele tem para a humanidade. E o meu preferido: o que o faz feliz. Essa última adivinhação supera todas as outras. Sabe o que agrada deus? Ser louvado e bajulado. Ou seja, não interessa sua índole, não interessa como vive, não interessa sua sinceridade. O que interessa de verdade é ter fé. Tendo fé, as outras coisas se “ajeitam”, entendeu? Acho que deus é mesmo brasileiro, até nosso famoso jeitinho veio dele!

Ele é capaz de, não apenas perdoar todas as atrocidades, mas até apoiar algumas, contanto que a pessoa o ame de maneira exclusiva (e o tema, principalmente) acima de todas as coisas e passe adiante. Que marketing mais agressivo e anti-ético para um ser todo bondade.

Nem sequer seus atributos fazem sentido. Para um ser que se diz perfeito (e prega a humildade!) ele errou bastante com a humanidade, não é? Muitas vezes admitindo que errou. Isso fora o projeto do corpo do ser-humano em si. Não foi um trabalho muito bom, considerando as possibilidades que possui um ser atemporal e super-poderoso. Acho que até eu seria um engenheiro bem melhor. Mas acho que estou sendo injusto porque me esqueço que fomos criados à imagem e semelhança dele. Que molde, hein? E ainda tem coragem de criticar. Ridículo.

Afinal, o que torna um ser perfeito? Poderíamos dizer que para uma coisa ser perfeita ela tem que ter todas as características possíveis e no nível máximo. Ou seja, se deus é perfeito, ele possui a maior bondade, o maior poder, o maior amor e etc. Certo? Que engraçado. Porque seguindo essa lógica eu poderia dizer que deus possui o maior fedor, por exemplo. Ó, todo fedorento, como tu fedes! Ou então toda a maldade do mundo. Isso explicaria muita coisa…

Perfeição é um atributo que somos incapazes de compreender. Você poderia dizer agora: “Ponto pra eles! Você acabou de admitir que somos incapazes de compreendê-lo.” Mas a verdade é outra menos fantasiosa. Não podemos compreender algo perfeito simplesmente porque não existe nada perfeito, caiu a ficha? A perfeição é apenas uma guia que criamos para medir a qualidade das coisas, apenas para efeito de comparação. Nesse ponto podemos dizer então que se deus é perfeito, logo não existe! E se não é perfeito, logo não é um deus. Das duas, uma: Ou você reza para o nada ou reza para alguém como você. O que é pior? Que malandro!

Indico pra quem quiser explorar essa última alternativa o documentário: “Eram os deuses astronautas?”

Existe um outro dogma que me fascina. Não o dogma em si, que aliás é bem infantil, mas por as pessoas o levarem a sério! Senhoras e senhores, com vocês a santíssima trindade!

Não é uma idéia nova, aliás, nada é original no cristianismo. Mas essa versão é tão banalizada que beira o ridículo. Pense comigo: Deus, Jesus e o espírito santo são a mesma coisa. Deus é pai, Jesus é filho e espírito santo ninguém conseguiu me explicar até hoje o que é, mas tudo bem. E isso porque é uma religião de um deus só… Mas continuando, o deus sanguinário do velho testamento e Jesus são a mesma pessoa para os cristãos. Então porque, diabos, insistem em separar as duas religiões (judaica e cristã) se são do mesmo deus? E também, uma coisa que sempre me faz rir: Na bíblia, com quem Jesus falava se ele mesmo era seu próprio pai? Quando falava com deus estava apenas sofrendo um surto de esquizofrenia?

Deus deve adorar paradoxos. Tanto que ele mesmo se transformou em um.

Não entendo qual é o ponto desse joguinho idiota de salvação. Para começo de conversa, acho que se precisamos ser salvos de alguém, é do próprio deus. Um ser arrogante, sádico, carente e infantil não é a melhor companhia para uma vida eterna. É como um casamento ruim, mas sem a possibilidade de divórcio.

O ponto é se arrepender? Posso fazer o que quiser durante a vida contanto que me arrependa no leito de morte, então estarei salvo. Isso não é injusto com as pessoas que desperdiçaram toda a vida se privando dos desejos? Mas deus é justo.

O ponto é fazer o que ele quer? Como um ser que possui todo o poder do universo pode ter tanta dificuldade em fazer sua criação obedecer? Essa questão de dar a escolha é pior se for considerada. Quer dizer que ao invés de dar às suas “amadas” criaturas, uma vida boa e tranquila, sem conflito e sofrimento, ele prefere fazer essa pressão psicológica imatura e sádica só pra ver quem puxa mais o saco dele? Quem quer viver cercado de puxa-sacos? Que ego! Mas deus é amor.

O que é deus? A resposta mais fácil, rápida e covarde é: Não tente entender deus.

Isso porque a mais difícil e honesta é essa: Deus é um conceito criado pelo homem para projetar suas próprias fantasias e seu ego, dar um sentido à sua curta existência e, de quebra, controlar e acalmar seus semelhantes menos favorecidos com a promessa de uma recompensa mais que merecida depois de uma vida inteira sofrendo em favor do conforto da classe dominante.

Quando se vê as coisas desta forma, ficam bem mais claras algumas afirmações de Jesus: “Digo-vos mais uma vez: é mais fácil a um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que a um rico entrar para o céu” Que frase inspiradora! Uma mistura de vingança e demagogia contra aqueles que os oprimiam. Uma manipulação covarde do povo, fazendo-o acreditar que se fará justiça quando, na verdade, só ajuda a perpetuar a opressão tornando-a natural. É nojento, mas infelizmente realidade.

Você deve estar se perguntando porque eu me importo em criticar a religião de maneira tão apaixonada. Simplesmente porque não consigo entender como uma pessoa passa toda sua vida acreditando que viver é se privar, que sofrer é sinal de recompensa e que, ainda por cima, foi privilegiada por acreditar nisso. E ela tem toda razão, afinal a ignorância é um privilégio.

Às vezes sinto que minha existência não faz sentido e que sou insignificante como uma estrela perdida entre bilhões de outras. Só que não procuro deixar de brilhar mas, sim, ter a consciência disso. E aqueles que nem sabem que podem brilhar? Saiam da caverna, já dizia Platão.


Mundo

Certas condições tendem a enclausurar o diálogo numa camisa de força, dificultando enormemente a solução dos problemas!

Atualmente, o avanço da religião parece ser muito mais expressivo do que a sua rejeição!

Confunde-se fanatismo religioso e religiosidade.

Dawkins, por exemplo, reconhece a existência de um tipo de religião decente e contido, mas alega que ele é numericamente irrelevante, diante do fanatismo dominante.

Os ateus  simplesmente estão expressando com clareza as suas opiniões, tomando posição num debate importante e forçando as pessoas a reavaliarem suas convicções. Isso é um bom sinal, pois, por muito tempo na história da humanidade, os ateus tiveram de se manter calados. E agora estão se sentindo à vontade para expressar suas opiniões sem receio de punição. Enquanto nos mantivermos no plano da discussão intelectual esclarecida, teremos todos a oportunidade de nos beneficiar.

Mas simplesmente chegar à conclusão de que a religião é uma forma de fanatismo irracional e se fechar a qualquer possibilidade de discutir o assunto de maneira mais aberta, pode reforçar nesse contexto, o risco que correm os neo-ateístas é o de terem suas críticas ao fundamentalismo religioso apropriadas pelo fundamentalismo americano belicista, por exemplo, que já se arvora em defensor da racionalidade ocidental contra o fanatismo islâmico e não teria escrúpulos em aproveitar-se desse reforço ideológico.

No conflito entre árabes e judeus, que se chegou a uma situação em que todos perdem, enquanto continuarem agindo como estão. E isso talvez nos fornecesse alguma pista prática para resolver o mais importante conflito contemporâneo, que não é aquele entre os fanáticos religiosos e os ateus iluministas, mas aquele entre o fundamentalismo islâmico terrorista e o fundamentalismo americano belicista. O primeiro encontra no fanatismo religioso suicida a única resposta à humilhação que sofre sistematicamente da civilização ocidental, representada pelos Estados Unidos da América. O segundo encontra na guerra preventiva e unilateral, sem apoio da ONU, a única resposta aos atentados que vem sofrendo. E a verdade é que não há diálogo. Ninguém se preocupa em compreender o que está se passando com o adversário, para tentar uma mudança significativa de estratégia.

Mas a postura adotada pelos neo-ateístas envolve pelo menos duas dificuldades.

Em primeiro lugar, apesar da boa intenção de combater o fundamentalismo em todas as suas formas, eles acabam confundindo fanatismo religioso com religião. O fanatismo religioso é um problema grave que todas as épocas históricas tiveram de enfrentar. Muita incompreensão e violência resultaram dele. Mas ele não se identifica com a religião ou com a religiosidade, entendida como a experiência íntima de contato com uma realidade superior. Essa experiência foi a marca característica de muitos gênios que contribuíram de um modo ou de outro para o melhor conhecimento de nós mesmos enquanto seres humanos. De um modo geral, todos ou quase todos eles tiveram suas criações originais influenciadas ou baseadas em alguma vivência religiosa.

Porém sugere que façamos essa reavaliação através de uma conversação democrática e sem coerções, mantendo sempre em mente a precariedade e a contingência  de um mundo em que somos constantemente levados a reavaliar nossas crenças em função das mudanças de circunstâncias. É certo que o debate está lançado no domínio público da conversação da humanidade e o que temos a fazer é tentar extrair o melhor dessa situação, sem acusações desnecessárias de fundamentalismo e com abertura de espírito suficiente para que a discussão possa ser levada a bom termo. Nada como uma atitude sadia de diálogo crítico, em que as partes envolvidas possam apresentar, sem coerções, suas opiniões a respeito de um tema tão importante como esse para o conhecimento de nós mesmos.

Agnosticismo


**Equivocadamente, costuma-se pensar que esta jaz no limiar da dúvida entre o teísmo e o ateísmo; na verdade, o agnosticismo é independente da questão da crença/descrença em um deus. Tal visão diz respeito somente à impossibilidade de a mente humana conceber, compreender ou julgar alguns tipos de questões, afirmando que tais assuntos estão além do escopo da racionalidade humana, sendo, portanto, impossível formular sobre eles qualquer juízo seguro.

É errado pensar no agnóstico como um indivíduo meio termo entre as duas perspectivas, ou seja, que não afirma nem nega a existência de uma entidade superior, supostamente representando uma posição de questionamento sensato em vez de um extremismo ateísta. O agnosticismo certamente não é uma terceira opção entre o teísmo e o ateísmo, e é fácil evidenciar o porquê. O agnosticismo envolve a crença em deus? Não. Envolve a descrença em deus? Não. Então que relação necessária tem com esta questão? Nenhuma. Como explicou George H. Smith, O termo “agnóstico”, em si mesmo, não indica se alguém acredita ou não num deus (…) agnosticismo não é uma posição independente ou um meio termo entre teísmo e ateísmo, pois classifica de acordo com um critério diferente.

A rigor, a palavra agnóstico significa apenas sem conhecimento, isto é, trata-se de um termo genérico que diz respeito somente à afirmação da impossibilidade de se obter conhecimento acerca de alguma coisa ou assunto qualquer. Então seria mais correto dizer algo como: este indivíduo – ateu ou teísta – é agnóstico em relação à questão da existência de deus ou de alguma “questão x” qualquer.

Portanto,  não existe um meio termo entre acreditar e não acreditar, ou seja, entre teísmo e ateísmo.

*** Afirmar “acho impossível saber com certeza” não é uma solução, mas uma evasiva. O que comporta um meio termo, na verdade, é a lacuna que fica entre a negação e a afirmação de deus, e tal lacuna corresponde ao ateísmo cético.

Essa noção de agnosticismo é uma posição errônea comumente adotada por aqueles que não são teístas, mas que na verdade não consideram a existência de deus uma hipótese absurdamente improvável, como alguns ateístas mais fervorosos. Mas, sem dúvida, os agnósticos desse tipo são, tecnicamente, ateus. Provavelmente muitos se denominam como tal porque têm receio do estigma social vinculado ao ateísmo, que é muito forte; então transferem o significado de suas posições a outros termos que soam mais brandos, como agnóstico – como convém, pois em cima do muro não caem tantas pedras.

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